Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 25/05/2009

A estrutura das exportações do Brasil


O Brasil, nos últimos anos, tem colhido frutos importantes no que diz respeito às exportações. Uma economia mais estável e com menos inflação (que corrói o poder de compra e distorce a formação de preços), com câmbio menos volátil (mesmo o câmbio flutuante apresentando oscilações, existe uma previsibilidade maior das taxas futuras e aumenta a possibilidade de planejamento) e com empresário pensando mais globalmente, o Brasil pode aumentar a participação das exportações dentro do PIB. Segundo os dados do IBGE, as exportações correspondiam à 6,6% do PIB (a preços de mercado em real) em 1996, passando para 10,0% em 2000, 16,4% em 2004 e atingindo 14,3% no ano de 2008. É uma evolução bastante considerável e saudável para o país, dado que a abertura econômica possibilita a melhora na qualidade de vida das pessoas.  As exportações brasileiras saltaram de quase US$48 bi (em 1996) para quase U$200 bi  (em 2008), um aumento de 314% no valor exportado, 160% de crescimento do índice de quantum e 59% de crescimento do índice de preços. Contudo, essa evolução deve ser analisada com algum cuidado.

Apenas olhado o valor total das exportações, de 1996  2002, há pouca variação no valor exportado (26% no total, o equivalente a média de 3% ao ano). De 2002 até o ano passado, o valor cresceu 227%, de US$60bi para quase US$200bi (equivalente a média de crescimento de 22% ao ano), sendo que esse aumento foi puxado muito mais pelo aumento de preços dos produtos (aumento de 104% nos preços) do que pelo volume exportado (aumento de 60% do volume).

Além disso, ao fazer uma análise mais detalhada da composição das exportações, o resultado não parece (na minha opinião) muito positivo. As exportações podem ser classificadas em diferentes óticas, sendo a classificação segundo a classe de produtos uma delas.  Nessa ótica, os produtos são classificados de acordo com o fator agregado, dividindo-se em básicos (ex: grãos, minerais, carnes,…), semimanufaturados (ex:  óleo de grãos, ligas metálicas,…) e manufaturados (ex: veículos, motores, açúcar refinado,…).  A participação dos produtos básicos cresceu de 28% para 38% de 2002 a 2008 enquanto os manufaturados reduziram de 56% para 48%. Isso indica que estamos exportando produtos com menor fator agregado, que é o mesmo que dizer que são produtos mais simples, que passou por uma cadeia de processamento menor e já foi exportado sem grandes alterações. O que é melhor para o emprego, renda e nível de atividade do país: exportar laranja ou suco de laranja? Minério de ferro ou carro pronto? Soja ou óleo de soja? Vale a pena refletir um pouco mais não?!

Além da crítica sob a ótica apresentada acima, existe também a classificação segundo a categoria de uso. Na mesma comparação feita acima, de 2002 a 2008, a participação das diferentes categorias não se alterou muito, com exceção do aumento da participação de combustíveis, de 5% para 10%. O que mais influencia esse resultado é o aumento de preços relativos dos combustíveis nos últimos anos. Lanço a mesma pergunta, o que é melhor, exportar petróleo ou um carro pronto, uma geladeira? O que impulsiona mais o desenvolvimento econômico e tecnológico para o país? Não acho que seja o petróleo.

Por fim, a última comparação que pode-se fazer nesse trabalho, é a classificação segundo a intensidade tecnológica dos setores. Essa classificação foi primeiramente proposta pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – publicação). A participação dos produtos de alta tecnologia caiu de 9% para 5%, os produtos de média-alta e média-baixa tecnologia mantiveram participação de aproximadamente 39% e os produtos de baixa tecnologia também reduziram a sua participação de 31% para 26%. Esses itens acima representam a fatia dos produtos industrializados. Se essa participação caiu, é porque os produtos não industrializados ganharam espaço, atingindo quase 30% da fatia do total do valor exportado em 2008, bem maior do que os 19% em 2002.

Concluindo, não me parece que o crescimento das exportações no Brasil tem seguido uma trajetória tão positiva. O aumento do valor exportado não reflete que estamos exportando tanto mais em quantidade, é apenas um movimento de preços. Nas diferentes óticas apresentadas, estamos exportando muito mais commodities e produtos com baixo valor agregado e baixa tecnologia (e produtos nem mesmo classificados como “produtos industriais”). Se seguirmos essa tendência nos próximos anos, não deixaremos de ser o celeiro o mundo, exportando apenas matéria-prima e insumos para o resto do mundo. Existe ai um grande potencial para desenvolver muito mais os produtos e agregar mais trabalho e valor, no sentido de desenvolver a indústria nacional, gerando emprego, renda, tecnologia e competitividade.

Para os que se interessam pelo tema, o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) publica semanalmente a evolução da balança comercial brasileira, que é a diferença entre as exportações e as importações (clique aqui).

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Responses

  1. [...] É mesmo melhor exportar produtos de maior “fator agregado”? By phcastro O Guilherme, do Finanças Fáceis, faz um post analisando as exportações brasileiras entre 1996 e … [...]

  2. Caro Castro, bastante interessante sua análise e estou de pleno acordo com ela. A discussão entre “fator agregado” e “valor adicionado” pode sim ser confusa por vezes e o seu exemplo ilustra bem isso. No fundo pensamos a mesma coisa, já que na conclusão do artigo eu estou me referindo a “produtos com baixo valor agregado e baixa tecnologia”.

    O termo “fator agregado” é utilizado pelo próprio IBGE na classificação dos produtos segundo a classe de uso. A idéia do post era mostrar que ficar exportando bananas ou laranjas, se o o Brasil é mesmo mais competitivo nisso do que outros países, não há nada de errado. Os modelos de comércio internacional sugerem isso também. Mas, na minha visão (e ai cada um tem a sua), produtos com maior valor agregado (na média), tem cadeias produtivas maiores e mais fator agregado e mais tecnologia embutidas. Pode até ser que o preço final do produto seja mais alto, tenha menor valor agregado do que o insumo básico.

    Essa sua análise hipotética é bastante válida, mas como você disse, hipotética. Então, usando a mesma lógica, imagine que o custo de produçao do suco de laranja não seja $1000, mas seja $500. Ainda sim, 5x mais do que o custo de produção da laranja em si (bastante razóavel ainda não?) Nesse cenário, a renda gerada é de $2000, igual ao da laranja. Se o custo cair para $499, torna-se melhor exportar suco de laranja.

    Esse exemplo, no meu entender, é bastante válido para um indíviduo apenas, empreendedor e que tem que fazer uma escolha. Caimos na velha fórmula “lucro = receita – despesa”. Sua visao é totalmente correta, no final, vai depender mesmo de quão competitivo o país é e se realmente ele tem vantagens comparativas ou não pra exportar produto X ou Y.

    A minha grande crítica em relação às exportações é que nenhum país desenvolvido se tornou desenvolvido exportando commodities (veja a desigualdade dos países produtores de petróleo, onde a renda é bastante concentrada). O Brasil perde muito ao exportar produtos simples porque todo o VA é feito no exterior, ou seja, vai aumentar o PIB dos países no exterior e não no Brasil. Não acho que tenhamos que parar de exportar só insumos básicos, porque o Brasil tem vantagem comparativa nisso, mas falta um pouco de visão e cordenação para uma política industrial nacional.

  3. Caro Guilherme,

    O seu último argumento torna clara qual a premissa básica da proposição “é melhor produzir produtos que estejam no final da cadeia produtiva”. Esta premissa é que o valor adicionado nas atividades da ponta final da cadeia agregam mais.

    É um argumento muito plausível, para grande parte dos casos, mas não todos. Por exemplo, cito a montagem de computadores. O processo de montar não agrega tanta coisa quanto a própria fabricação dos componentes, que é um processo anterior da cadeia.

    Mas quem é capaz de fabricar os componentes, ou ainda mais, de pesquisar e inovar para produzir componentes melhores? Certamente isso não é para qualquer um. Como poucos podem fornecer este produto, o preço do mesmo é alto e, no final das contas, o valor agregado vai ser maior.

    Parece que uma variável fundamental é, desta forma, o número de competidores, o que deve estar relacionado com a tecnologia caso existam barreiras à entrada (massa crítica de capital humano, patentes, etc).

    Naturalmente, na medida do possível empresas tenderiam a ser criadas em setores com lucros extraordinários (como nestes casos), e antes de advogar por um política industrial, é importante entender porque isto não acontece. O que eu quero dizer é que, na maior parte das vezes, o problema é estrutural e não setorial. Por exemplo, para o Brasil poderíamos mencionar o capital humano ainda baixo.

    Eu concordo com você quando você diz que depender de commoditties é um problema. Na verdade, da forma como eu vejo, é ruim depender de mais de alguns poucos produtos, seja ele básico ou manufaturado, porque neste caso há um risco alto do produto perder fortemente seu valor. Como nas finanças, pode ser bom ter uma pauta de exportações diversificadas. Mais uma vez, não sei se isto passa necessariamente por uma política industrial.

  4. Muito bom o debate hein!.. Comprovo que muitas questões em economia precisam realmente da contribuição de muitos para chegarmos a compreensões mais elaboradas. É um trabalho de colaboração mesmo. Um só não daria conta, mas muitas mentes juntas podem chegar longe!
    Parabéns a ambos pelo debate de alto nível!
    Ah, ficou muito legal o post e a apresentação em PDF, Gui. Depois me dá a dica de como vc faz isso..

  5. Por favor, continuem o debate… Tá muito bom!!! Parabéns aos dois!!! Aulão de Economia Industrial…

  6. Caros,

    Entendo que o debate não deva se limitar ao valor adicionado em si, mas sim entre quem ele se divide. Tomando por exemplo 2 cadeias produtivas que eram fortemente exportadoras: móveis e calçados. Podemos até ter um valor adicionado maior exportando couro ou madeira bruta; entretanto, a exportação de um par de sapatos ou de um móvel impacta no desenvolvimento de indústria de insumos, renda dos trabalhadores, centros tecnológicos, escolas técnicas, logística, etc…

    • Luiz,

      Concordo com você, lembrando ainda que valor adicionado é uma conta que depende dos custos e do preço de mercado, logo, uma explosão dos preços por algum motivo específico elevaria o valor adicionado por um tempo. É o que tem acontecido com as principais commodities no Brasil, contudo, a distribuição dos ganhos é bastante limitada. Politica Industrial não se faz olhando para o que se tem, mas para o que quer ter, onde quer chegar. Direcionar capital e investimentos para setores que gerem não apenas mais renda e emprego que outros, mas que também gerem tecnologia, demandem mão-de-obra melhor qualificada, isso gera também externalidades positivas para outros setores e contribuem para o desenvolvimento e não apenas crescimento econômico.

  7. Guilherme,

    Parabéns pela observações. Tens uma excelente visão deste problema.
    Mesmo com o barril de petróleo a US$ 140 não houve melhoria significativa das condições de vida na Venezuela, Kuwait, Angola, etc…

    Pretendo escrever um artigo sobre a evolução das exportações brasileiras nos últimos 10 anos.
    Podes me encaminhar seu e-mail para trocarmos algumas impressões ?

  8. Concordo com você, lembrando ainda que valor adicionado é uma conta que depende dos custos e do preço de mercado, logo, uma explosão dos preços por algum motivo específico elevaria o valor adicionado por um tempo. É o que tem acontecido com as principais commodities no Brasil, contudo, a distribuição dos ganhos é bastante limitada. Politica Industrial não se faz olhando para o que se tem, mas para o que quer ter, onde quer chegar. Direcionar capital e investimentos para setores que gerem não apenas mais renda e emprego que outros, mas que também gerem tecnologia, demandem mão-de-obra melhor qualificada, isso gera também externalidades positivas para outros setores e contribuem para o desenvolvimento e não apenas crescimento econômico.


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