Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 09/03/2010

Entendendo as Contas Nacionais (I)


A Contabilidade Nacional ou Contabilidade Social, que resulta nas Contas Nacionais, é, de maneira bastante simplificada, uma criação econômica/contábil para mensurar dados sobre a fonte e o destino de receitas e despesas ou produção de bens e serviços de uma dada economia. Dessa maneira, é possível analisar fluxos reais (de produtos e serviços) e fluxos monetários (renda e gastos), na economia que, mais na frente resulta na medida do PIB de um país. A definição do IBGE para o PIB, dentre inúmeras variações de definições de diferentes autores e instituições,  é a seguinte:

produto interno bruto – Total dos bens e serviços produzidos pelas unidades produtoras residentes sendo, portanto, a soma dos valores adicionados pelos diversos setores acrescida dos impostos, líquidos de subsídios, sobre produtos não incluídos na valoração da produção. Por outro lado, o produto interno bruto é igual à soma dos consumos finais de bens e serviços valorados a preço de mercado sendo, também, igual à soma das rendas primárias. Pode, portanto, ser expresso por três óticas: a) do lado da produção – o produto interno bruto é igual ao valor da produção menos o consumo intermediário, mais os impostos, líquidos de subsídios, sobre produtos não incluídos no valor da produção; b) do lado da demanda – o produto interno bruto é igual à despesa de consumo final mais a formação bruta de capital fixo, mais a variação de estoques, mais as exportações de bens e serviços, menos as importações de bens e serviços; c) do lado da renda – o produto interno bruto é igual à remuneração dos empregados mais o total dos impostos, líquidos de subsídios, sobre a produção e a importação, mais o rendimento misto bruto, mais o excedente operacional bruto.

Compreender de onde vem isso é a proposta do post. Uma maneira fácil e didática é utilizando o Fluxo Circular da Renda. Mas o que é isso? É uma representação simplificada da realidade, como segue na figura abaixo. Nessa representação, antes de tudo, assumem-se algumas hipóteses simplificadoras: (i) é uma economia fechada, ou seja, não transaciona com o exterior (não há exportações de café ou minério de ferro, nem importação de brinquedos chineses e nem investimentos estrangeiros); (ii) é uma economia sem governo, ou seja, não há recolhimento de impostos nem propaganda eleitoral “gratuita” e não há bolsa família nem mensalão (a melhor hipótese, na minha opinião); (iii) não há poupança; e (iv) não há depreciação do capital.Tendo isso em mente, vamos supor então que a economia é composta por famílias e empresas, onde as famílias detêm os fatores de produção (FP) e as empresas possuem apenas a “louca e insaciável” vontade de produzir.

Fluxo Circular da Renda

Nessa economia então, as empresas demandam fatores de produção (trabalho, terra, capital,…) uma vez que não detêm nada (seta vermelha entre “Empresas” e “Mercado de FP”, na figura). Elas vão ao mercado de fatores de produção e pagam/remuneram esses fatores (seta azul, entre os 2 quadros) de maneira que, a remuneração do trabalho, é o salário, a remuneração da terra, é o aluguel, a remuneração do capital pode ser o juro ou o lucro (dependendo da forma do capital) e por ai vai, sem estender para mais os FP. Essa remuneração, do ponto de vista das famílias, é entrada de receita, é renda (seta azul entre “Famílias” e “Mercado de FP”) e são as únicas que ofertam os FP no mercado (seta vermelha, entre os 2 quadros). As empresas então, tendo agora os FP passam a utilizá-los desenfreadamente até esgotá-los, resultando então em produção, que vai ser ofertada no mercado de bens e serviços (seta azul entre “Empresas” e “Mercado de bens e serviços”). As famílias, depois de receber a renda, passam a demandar bens e serviços e usam essa renda para adquiri-los (seta azul entre “Famílias” e “Mercado de bens e serviços), gerando então uma despesa sobre o ponto de vista das famílias, que, sob o ponto de vista das empresas, é receita. Assim, fecha-se um ciclo, que é o famoso Fluxo Circular da Renda (FCR).

Considerando isso, fica mais fácil de compreender as 3 óticas do PIB  (demanda, renda e produção). Toda produção é ofertada no mercado  logo todos os bens e serviços são consumidos (lembrando da hipótese de não-existência da poupança), que equivale à demanda e, toda produção precisa remunerar os FP, que é renda para as famílias ou, toda demanda precisa ser paga, que é como as famílias despendem seus recursos.

 

Economia Fechada sem Governo

Tomando como base a contabilidade, podemos usar as famosas “contas em T”, método das partilhas dobradas ou, para os mais íntimos, razonetes. A idéia aqui não é dissertar sobre teorias contábeis então, para mais informações dessas estruturas, consulte a net, wikipedia ou livros de contabilidade. Nós economistas, na média, não nos aprofundamos muito nesse tema contábil, deixando mesmo para os contadores, mais “experts” no assunto.  Fechando parênteses e continuando o post, seguem, na imagem ao lado, três tabelas. Em qualquer uma delas, há “Crédito” e “Débito”, de maneira que, como todo lançamento contábil é utilizado no mínimo duas contas -  onde, para todo crédito  há um débito e o somatório de um deve ser igual ao somatório do outro. Resgatando algumas linhas acima, tudo o que a empresa recebe, do ponto de vista da empresa, é receita mas, do ponto de vista das famílias, é despesa. Logo, na primeira tabela, à direita, tem-se a despesa bruta da economia, que é creditada às empresas. Do lado esquerdo, temos os débitos da empresa, ou seja, suas obrigações, seus gastos que, do ponto de vista de quem vai recebê-los (famílias) é a renda bruta.

Relaxando as hipóteses (iii) e (iv), ou seja, há poupança e há depreciação, podemos começar a entender melhor a tabela acima. Na primeira tabela (T1), das empresas, elas devem pagar salários (1), a remuneração do FP trabalho, que é creditado para as famílias (1), na segunda tabela (T2), na conta da apropriação.  Os juros (2) são a remuneração do capital financeiro e o lucro distribuído (4) a remuneração do capital físico. O aluguel é a remuneração da terra, sendo todos esses acima fatores de produção (FP). Contudo, há depreciação (5) do capital, por exemplo, ferramentas e máquinas que se desgastam com o uso e tempo, que é paga às famílias para recuperar/indenizar o uso desse FP. E por fim, os lucros retidos (6) que são recursos das empresas não gastos, formando assim uma “poupança da empresa”. Contudo, a empresa também é família, do ponto de vista do indivíduo, sendo todos esses itens (1 a 6), a renda bruta das famílias, como no lado direito em T2. No lado esquerdo de T2, encontram-se os débitos das famílias, ou seja, a estrutura de gastos da renda bruta das mesmas. O consumo pessoal (7) são os bens e serviços adquiridos das empresas, logo, um débito para as famílias, mas um crédito para empresas, como em T1. Tudo aquilo que as famílias não consomem, é poupança (10). Essa poupança é creditada na conta de capital, do lado direito (crédito) e serve para financiar as atividades das indústrias/empresas (da famosa identidade macroeconômica S=I, poupança=investimento). Esse financiamento pode se dar através da FBCF (8) ou através de variação de estoque (9), que é produção não vendida, guardada para outro período ou produção de outro período vendida no período da Contas Nacionais em questão.

Esse caso simples é apenas em se considerando uma economia fechada, que não transaciona com o exterior, e sem governo (idéia que pode soar muito interessante, no caso de um governo ineficiente e corrupto, que não é o caso do Brasil, claro). Apesar da explicação acima, sabemos que a economia real não funciona assim e, portanto, é necessário incluir esses agentes dentro das contas, que é assunto para um próximo post. Por hora, já há bastante informação aqui.

Leia mais em: Entendendo as Contas Nacionais (II)

About these ads

Responses

  1. Muito bom! Parabéns pelo post! Me ajudou muito nos estudos das contas nacionais.

  2. Muito boa sua explicação.
    Me ajudou muito a entender esse assunto.

  3. Um país só é desenvolvido economicamente se não existe desequilibrios na distribuição dos rendimentos as populações

    • Silvano pensa bem no que você disse. Imagina um pais com uma renda total baixa. Não adianta distribuir igualmente a renda entre a população que todo mundo continua pobre. Economias desenvolvidas são aquelas com uma grande riqueza e na qual mesmos as famílias mais pobres ainda têm uma qualidade de vida superior. A diferença entre a renda do mais rico e do mais pobre não tem importância alguma contanto que o mais pobre tenha uma renda boa tanto faz se o mais rico tem uma renda um milhão de vezes maior.

  4. Adorei, com esse post aumentei ainda mais os meus conhecimentos!!!

  5. valeu pela explicação, ajudou muito.
    Grato.

  6. Muito bem explicado meu amigo Guilherme, me deu um norte para aprofundar meus conhecimentos quanto a questão das contas nacionais.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 758 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: