Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 14/04/2009

Por que ninguém acerta durante a crise


Durante os últimos meses, diversas perguntas foram feitas a respeito da crise financeira: “quanto tempo irá durar?”, “qual o fundo do poço?”, “quanto dinheiro mais será necessário para salvar os bancos e empresas?”, “o que mais é necessário para sair da crise?” e muitas mais. Para responder a essas indagações muitos economistas fizeram previsões de curto prazo, tentanto estimar os indicadores de niveis de atividade, de produção industrial, de crédito e comércio entre outros. Outros estão tentando explicar até onde a crise vai bater e, depois de uma inflexão, voltar a se recuperar. Alguns mais otimistas prevêem esse momento para o meio de 2009, outros para o fim do ano e há os que  estimam que a atividade economica apenas irá se recuperar o ano que vem. Quem está certo e quem está errado? Não há como saber.  O porquê disso é muito simples: não há ninguém no mundo que tenha passado por uma crise dessa natureza e, para superar os desafios atuais, as soluções e ferramentas  não serão as mesmas que as utilizadas para sair da grande depressão de 1929.

“People tend not to be able to anticipate a future they have never personally experienced.”¹

Os economistas geralmente se sentem mais confiantes para prever resultados pois estão munidos não apenas de informações que saem a todos momentos e boa capacidade analítica de juntar informações diferentes para construir um cenário, mas também pois sabem manusear muito bem seu famosos e sofisticados modelos. Mas o que são os modelos de fato? Eles são, de maneira simples porém direta, uma combinação de variáveis (com dados históricos) e premissas (sobre o futuro) que, condicionadas à algumas hipóteses, tentam imitar a realidade.  Ao estimar por exemplo qual será o PIB do Brasil ou do Chile ou qualquer outro país no proximo trimestre, basta adicionar um pouco do resultado da produção industrial passada e comércio, uma pitada de séries de crédito, alguns indicadores de antecedentes (consumo de energia elétrica industrial, vendas de papelão ou embalagens entre outros), temperar com um pouco de comércio exterior e adicionar o setor público. Soa como uma receita? Assim são feitos os modelos! Cada um escolher quanto colocar de cada ingrediente para decidir o sabor e ‘voilà’! Tem-se assim um modelo e um resultado a ser defendido. Existem os modelos simples e os mais complexos, mas nenhum deixa de ser um modelo.

No caso dos modelos matemáticos utilizados pelo mercado financeiro, os modelos que avaliam risco são os que ganham grande destaque, entre eles os VaR (Value-at-Risk).  O economista Nassim Nicholas Taleb, com o título de professor distinto de engenharia do risco do Instituto Politécnico de Nova Iorque, tem uma extensa crítica sobre os modelos VaR, sendo considerado atualmente como um dos poucos economistas pertencente ao grupo dos que acreditavam  na bolha do sub-prime e das crescentes especulações que culminariam na atual crise. Taleb escreveu um livro, “The Black Swan“, que deverá ser tema de um próximo post nesse blog.

“Taleb says that Wall Street risk models, no matter how mathematically sophisticated, are bogus; indeed, he is the leader of the camp that believes that risk models have done far more harm than good. And the essential reason for this is that the greatest risks are never the ones you can see and measure, but the ones you can’t see and therefore can never measure.”¹

A consequencia prática de se usar modelos baseados em fatos ocorridos no passado para prever o futuro é que o futuro é incerto, ou seja, há sempre os famosos intervalos de confiança dos modelos (ex: em 95% das vezes é isso o que acontece, mas e os outros 5%, como mensurar?). Não se sabe como será o dia, o mês ou o ano que vêm. Se fosse assim, não estaríamos agora mergulhados em uma crise economica (que com certeza faz parte dos 5% que o modelo não cobre). Ela é resultado também da incapacidade de modelos matemáticos em estimar resultados futuros (pura e simplesmente porque os dados usados são dados do passado), e da confiança dos agentes em achar que os modelos não erram. Logo, se por acaso muitos agentes econômicos começarem a acertar mais os números, é um sinal de que estamos saindo da crise e voltando à normalidade.


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