Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 08/05/2009

A crise pós-crise


Resumindo a crise econômica e financeira (na minha visão das coisas), basicamente o que aconteceu foi o seguinte: aquelas agências que forneciam os “paper rating’s” (papéis ou notas de risco) para os países, bancos, empresas e outras modalidades de aplicação financeira, estavam completamente erradas nas suas avaliações  (cabe o termo “viajando na maionese”). Enganaram a gente, enganaram as empresas, enganaram o povo da bolsa e também à eles mesmos. Os operadores do mercado financeiro (popularmente conhecido já como “o povo da bolsa”) acharam que os caras que forneciam os Rating’s estavam certos e ficaram muito (muitoooo!) empolgados. Essa empolgação disseminou, como uma gripe, e nem a OMS, nem a OMC, nem o FMI e nem o Banco Mundial tomaram precauções dessa vez, nada de máscara cirúrgica. Pessoas comuns no mundo inteiro (incluindo eu) começaram a febre de investimento nas bolsas, fundos e amplificou-se as especulações e a onda de confiança e otimismo.

Os preços (de tudo) começaram a subir já que todo mundo ficou empolgado com as bolsas subindo, e mais pessoas, que estavam ganhando dinheiro,  começaram a consumir mais (aumento de demanda mais rápido do que aumento de oferta). Aumentou-se, assim, a captação de recursos por parte dos emprestadores de dinheiro, já que mais dinheiro  estava vindo  dos investidores  e dos lucros crescentes das empresas (que também passaram a investir em modalidades financeiras, fora do “core” dos negócios), gerando então maiores recursos para crédito. Então se facilitaram as condições de aprovação de crédito e fecharam-se os olhos para ver para quem estavam emprestando. Crédito fácil e para todos, oba! Com a demanda por bens e serviços crescendo (já sentindo o aumento de  preços, como rege a lei da oferta e da procura e já sabendo que a oferta não crescia no mesmo ritmo), as empresas lucravam mais (dado que “lucro = preço*quantidade – custos”). Mesmo que cresçam os custos (já que os insumos de produção também foram reajustados), eles não crescem na mesma proporção da receita (pois os salários, componente importante do custo, são rígidos no curto prazo). Crescendo os preços dos produtos, cresce a receita (preço*quantidade vendida) e, assim, aumenta o lucro das empresas, ou seja, mais viesado para aumento de preços e menos para aumento de volume. Desde 2005 notava-se esse “oba-oba”,  em espiral pra cima.

Depois disso, no meio de 2007, vários bancos começaram a apresentar resultados ruins nas carteiras de crédito relacionadas às hipotecas de residências nos Estados Unidos (e em outros países também, como Reino Unido). O famoso sub-prime, começou a apresentar problemas, gerando grande desconfiança nos agentes, explosão de inadimplência (por causa daquelas viajadas na maionese das agências de Rating (não estou dizendo que é fácil dar uma nota de risco, mas o erro teve um impacto violento) e também por péssimas avaliações de risco na hora de conceder crédito para alguém adquirir um imóvel. Ora, se eu sou um cara que tem dinheiro pra investir e estava com dinheiro no sub-prime, antes que o barco afunde, eu pulo pro outro. Dessa maneira, intensificou-se a procura por outros ativos que pudessem render mais do que o sub-prime. Vários investidores migraram para o mercado de ações e principalmente os mercados futuros de commodities (minério de ferro, níquel, petróleo, milho, soja, trigo, carnes, leite…). Logo, os preços desses produtos negociados internacionalmente também aumentaram (preços que foram também repassados para economias domésticas), adicionando mais a pressão (especulativa, nesse caso) na demanda desses produtos, já que havia pressão por parte do aumento do consumo.

Resultado do jogo: algumas pessoas começaram a perceber que estavam realmente gastando mais e endividaram-se para manter o padrão de consumo; outras perceberam a mesma coisa mas tiveram reação diferente (ou pois não queriam se endividar, ou pois já estavam afogadas em dívidas), reduziram o consumo. As empresas então perceberam que os consumidores estavam reduzindo consumo e reduziram também sua perspectiva de vendas, ou seja, reduzindo o consumo de insumos para produção. Como esses movimentos são mais rápidos do que a velocidade para ajustar oferta, acumulou-se estoques por toda parte. Nesse momento muitas pessoas já haviam percebido que tinham a renda disponível mais baixa (salário igual e preços mais altos significam renda disponível mais baixa), em vários países os Bancos Centrais já tinham agido aumentando taxa de juros para controlar inflação (não só no Brasil!), o que foi levando à uma restrição na liquidez do crédito. Esse era o cenário econômico logo ANTES DA CRISE FINANCEIRA.

Um belo dia, um banco disse: “ops” e percebeu que estava mal das pernas e que podia quebrar. Outros disseram o mesmo e a percepção do mercado de que poderia haver uma quebra em diversos bancos assustou todo mundo, uma falha sistêmica que, se um banco quebrasse na Inglaterra poderia comprometer um pequeno negócio na Índia, já que com a globalização, tudo está interligado. Quando os bancos todos perceberam que teriam o mesmo problema, a crise financeira começou, foi a percepção de que não se podia confiar nas instituições financeiras, as próprias instituições não podiam confiar umas nas outras, fechou-se a torneira das linhas de crédito para pessoas e empresas, nacionais e internacionais, piorando ainda mais aquele cenário macroeconômico que já existia antes da crise de crédito. Dai cai o consumo (por falta de dinheiro para conseguir manter o padrão de vida ou por medo de perder o emprego, então se corta o supérfluo), cai a expectativa de vendas, dai produção, que faz cair o emprego, que faz as pessoas deixarem de ter renda pra gastar e aumenta mais ainda o medo de perder o emprego, e voltamos na espiral, no sentido contrário agora.

Dado esse circo, as pessoas voltam-se para quem pode tomar alguma decisão para melhorar isso tudo, os famosos (e em bastante evidência atualmente) governos federais. Será que eles saberão tomar decisões importantes para ajudar as economias a se recuperar?


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