Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 20/08/2009

Novas estratégias de negociação


Diante de uma economia “recuperada” (se é que esse termo pode ser usado ao se tratar de uma economia que cresceu expressivos 7,1% no primeiro semestre de 2009 em relação ao mesmo período de 2008), a China volta mais uma vez seus olhos para questões que estavam na sua agenda antes do início da crise. Segundo a World Steel Association, a China foi responsável por 37,6% do 1,3 bilhão de toneladas de aço produzidos em 2008, tendo o Japão e a Coréia do Sul contribuído com 8,9% e 4,0%, respectivamente, e somando mais de 50% da produção mundial esses três países asiáticos. Apesar disso, esses países possuem escassos recursos minerais para produção de aço (dada a sua capacidade produtiva), justificando assim a forte participação desses países no comércio internacional.

Como a muito tempo vinha acontecendo, as negociações de minério de ferro, insumo vital para produção de aço, eram conduzidas pelas três grandes mineradoras, Rio Tinto, Vale e BHP Billiton com esses países. Nos últimos anos, a expectativa otimista mundial em relação à economia e a fome chinesa por produzir mais e mais (influenciada também pelos investimentos estrangeiros) fez com que todos fechassem os olhos para o preço proposto pelas mineradoras, aceitando qualquer aumento de preço sem dicussão (ver gráfico abaixo de preços de contrato e no mercado spot do minério de ferro).

Preços - Minério de Ferro

Preços - Minério de Ferro

Dessa maneira, todos os outros players do mercado mundial acabavam por balizar suas negociações também nessa primeira rodada com os chineses, japoneses e coreanos (processo também conhecido como benchmark). No ano de 2008, antes da crise, os preços médios de contrato dispararam mais de 60%, sendo que no mercado spot os preços começaram a subir muito antes e atingiram patamar muito mais elevado.

As últimas notícias em torno dessas negociações são de incerteza quanto ao futuro. A China, em um jogo de poder econômico e político, acusou e prendeu no mês de julho 4 funcionários da Rio Tinto de espionagem industrial e corrupção, que resultaram em ganhos de US$100 bi no últimos 6 anos (apesar das receitas totais da empresas somarem pouco mais de US$ 160 bi no mesmo período, sendo menos de um terço disso receitas do minério de ferro, segundo a “The Economist“).

Por trás dessas acusação, está não apenas a briga por redução de preços ainda mais forte do que o corte de 33% acertado com japoneses e coreanos , mas também à não realização de um investimento na Austrália por parceria da Chinalco (mineradora estatal chinesa) com a Rio Tinto, na casa de US$ 20 bi, tendo à última se juntado com a BHP Billiton para tal, abandonando a Chinalco.

O que muda com isso tudo? As negociações estão perdendo o caráter de contratos anuais para contratos de curto prazo (6 meses, 3 meses,…) ou até mesmo operando apenas através do mercado spot. O oligopólio das mineradoras encontrou um oligopsônio de siderurgicas, forte e controlado pelo governo chinês. A interferência do governo nas negociações com acusações sem provas ou com poucas evidências, o desrespeito às leis de direitos humanos que impede um julgamento transparente e o interesse pela liderança político/econômico no plano mundial pode se espalhar por muitos outros setores além do siderurgico. Caso a China queira começar uma onda de mais acusasões contra empresas multinacionais com presença no país e se apropriar de tecnologia ou alegar proteção de interesses de nacionais, não há muito o as empresas possam fazer diante de um gigante como esse e não há muito o que se esperar dos países que fizeram da China a fábrica de tudo no mundo. Claro que esse discurso é exagerado, mas é um exercício que precisa ser feito e levado em consideração.

Antecipando os problemas que uma situação como essa poderia causar, a China se antecipou e anunciou a sua estratégia: comprar, comprar e comprar. O país é hoje dependente de recursos minerais e energéticos e alimentos para sustentar a economia interna e o setor  exportador. Porque não comprar as empresas fora do país para poder assim garantir seu suprimento? Não falta dinheiro para uma economia com US$2 tri em reservas, que apesar de estar nadando em dólares prefere agora ter bens mais palpáveis e depender menos das especulações sobre o futuro do dólar.

O futuro? Não seria de admirar que empresas chinesas comprassem empresas brasileiras e nós, ao invés de fornecedores, passaríamos a consumidores. Um simples exercício seria pensar, num exemplo bastante exagerado mas não impossível, a compra da Vale  por alguma estatal chinesa que passaria a abastacer primeiramente o mercado chinês e secundariamente o mercado brasileiro, com minério de ferro extraído aqui. Tão dificil assim de imaginar?

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Responses

  1. Apenas uma correcao, a producao mundial e de 1,3 bilhoes de toneladas e nao milhoes.

    Uma boa analise, porem deve-se considerar o fato de o governo brasileiro ser o maior acionista da Vale, o que dificultaria tal transacao, ao contrario da Ambev ha ahguns anos atras.

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  2. Feita a correção!

    Concordo que a Vale não será comprada pelos chineses, mas qualquer empresa que atue no setor de commodites agrícolas/metálicas/energéticas, a princípio, corre esse risco, uma vez que dinheiro não é problema. A China precisa é dos recursos físicos e com a decisão política/economica centralizada, tudo fica mais fácil.

    Uma análise interessante foi publicada no Estadão, no dia 26/07/2009, com o título “Cuidado: estatais chinesas vão comprar tudo”, por Alberto Tamer.

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