Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 11/10/2009

O Colapso: Desafios de Montana, EUA (II)


A pergunta que poderia ter sido feita no post anterior e que está relacionada ao blog seria: mas o que a economia tem a ver com isso? Alguns  dos problemas identificados anos depois por fazendeiros de Montana, próximos à mina de Butte é que seus rebanhos de gado começaram a morrer. Os rejeitos tóxicos contaminaram os animais, causando grandes perdas econômicas para esses fazendeiros, que nada tinham a ver com a mina. Aa empresas mineradoras, identificando o problema, passaram a construir tanques de decantação para conter essas substancias tóxicas. Essa solução já é adotada por muitas empresas, mas algumas ainda continuam a explorar sem essa responsabilidade.

“Hoje, nos EUA, uma empresa que abra uma nova mina é obrigada por lei a adquirir uma apólice através da qual uma empresa de seguros independente se compromete a pagar os custos de limpeza da mina caso a empresa de mineração venha a falir. Contudo, muitas minas têm custos de limpeza final maiores do que o valor do seguro, enquanto as minas mais antigas não foram obrigadas a fazer nenhum seguro”(página 55 – 4ª edição)

Como proceder? Muitas empresas mineradoras são pequenas e podem até falir caso tenham que limpar uma mina, que nesse caso não resolve o problema uma vez que os custos de limpeza dos materiais tóxicos são tão elevado. As grandes empresas com enormes departamentos jurídicos se isentam da responsabilidade uma vez que não foram eles que poluíram inicialmente, também não colaborando para a resolução do problema. Os governos preferem não assumir também a limpeza uma vez que os custos e o período de limpeza ultrapassam o mandato individual de uma pessoa e os contribuintes preferem que o dinheiro seja gasto em outras atividades.

De fato, os problemas atuais de resíduos tóxicos de Montana têm muita relação com a maneira em que se praticava essa atividade no passado, incluindo a responsabilidade do governo, que permitia que os mineradores agissem da maneira que agiram. Apesar de tudo, o público também é em parte responsável, pois, no final do dia, as empresas têm que respeitar as leis, as leis são feitas por representantes do povo, deputados, senadores, que são eleitos. Dessa maneira, uma pressão pública que pressione os políticos a votarem leis mais rígidas fará com que as empresas tenham que se comportar de maneira diferente. Abaixo seguem 3 exemplos que ilustram comportamentos distintos:

1 – Berkley Pit – Butte (MT, EUA)

Berkeley Pit

Berkeley Pit

O caso do Poço de Berkeley (Berkeley Pit, google maps) é bastante famoso. As minas da região de Butte eram, na maior parte, subterrâneas. Em 1955 uma empresa de mineração de cobre “Anaconda Copper Mining Company” começou a cavar uma mina em céu aberto (foto ao lado). A mina possui hoje cerca de 2km de diâmetro e 540m de profundidade (+1,5 o tamanho da Torre Eiffel ou o tamanho do Taipei 101, no sentido oposto, obviamente). Hoje, cerca de metade desse buraco está preenchido com água extremamente ácida (ph=2,5) e com diversos resíduos tóxicos como arsênico, cádmio, zinco e ácido sulfúrico. Em 1982-83 a mina foi fechada, deixando o problema a céu aberto e com enormes riscos dessa área contaminada atingir os lençóis freáticos da região e o Rio Clark Fork, afluente do importante rio Columbia. A ARCO (Atlantic Richfield Company) comprou a Anaconda em 1972 e na sua visão não é justo que ela seja responsabilizada pelos danos causado pela antiga empresa. Na visão dos governos estadual e federal, uma vez adquirida a empresa Anaconda, a ARCO também adquiriu as obrigações da mesma. O custo de limpeza está estimado em mais de US$1bi, tendo a ARCO já gasto muitos milhões de dólares para Montana para recuperação desses prejuízos ambientais.

2 – Milltown Dam – Milltown (MT, EUA)

Milltown Dam

Milltown Dam

A represa de Milltown MT foi criada em 1908 no rio Clark Fork, com o objetivo de gerar eletricidade principalmente para algumas serrarias da região, que por sua vez forneciam madeira para sustentação das minas subterrâneas de cobre de Montana. Ao longo do tempo e de algumas inundações da região, os sedimentos tóxicos resultantes da mineração foram se acumulando na represa, ao todo, mais de 5 milhões m³ (equivalente a mais de 1800 piscinas olímpicas) em sedimentos nocivos. Durante o inverno de 1996, o acumulo de gelo quase rompeu por completo a velha represa. O que vazou de sedimentos foi responsável pela morte de 2/3 das trutas arco-íris do rio, um dos símbolos do estado. Em 2003, a Agência de Proteção Ambiental aprovou uma proposta de remoção da represa. Em 2007 a Envirocon começou a remover os sedimentos e criou um canal paralelo para ajudar na limpeza do rio. Em 2008 o canal foi aberto. O custo total da limpeza deverá ultrapassar US$120 milhões, pagos com dinheiro dos contribuintes através de Fundos Nacionais destinados à atividades de conservação ambiental, da ARCO e outras empresas privadas.

3 – Mina Zortman-Landusky (MT, EUA)

Landusky Mine

Landusky Mine

As primeiras evidencias de existência de ouro na região,por volta da década de 1880 foram na forma de ouro de aluvião, ou aquele ouro encontrado na superfície, bastante parecido com o caso de Minas Gerais. A exploração do subsolo intensificou-se com os processos de lixiviação com cianeto. A mina de Zortman-Landusky começou a ser cavada a céu aberto e explorada apenas a partir de 1979, utilizando então as novas técnicas de lixiviação com cianeto. O cianeto facilita a retirada de outro do minério de ouro (que inclui terra, rochas e outros metais) de maneira que a cada 50 toneladas de minério processadas através desse processo, pode-se obter 30 gramas de ouro. Para tal, é feita uma pilha de minério dentro de um tanque e adicionada uma solução de cianeto, reagindo com o ouro e depois é recolhida em um outro tanque, de onde é bombeada para uma instalação de processamento para a extração do ouro. Muitas vezes os resíduos da solução de cianeto contendo metais tóxicos é espalhada sobre pastos ou florestas. O cianeto é a mesma substância usada em câmaras de gás nos EUA para os condenados a morte e nas câmaras de gás nazistas, logo, bastante tóxico. Não apenas na mina de Zortman-Landusky, mas também em outras minas, as paredes dos tanques são relativamente finas, uma vez que as rochas e os minérios ficam sendo jogados para uma lado e para outros por máquinas, podendo danificar o tanque ao longo do tempo. Além disso, outro problema que pode acontecer  é ilustrado pelo caso da Mina de Zortman-Landusky: durante uma grande tempestade o tanque de lixiviação transbordou, fazendo com que a solução se espalhasse no ambiente já. Além disso, sob o risco de inundação da mina, os proprietários receberam permissão para despejar o excedente da solução de cianeto nas redondezas para evitar que os tanques se rompessem. As consquências de um processo mal feito foi a formação de gás cianídrico (o gás da câmara de gás), colocando em risco a vida os funcionários da empresa. A empresa mineradora Pegasus faliu em 1998, abandonando a mina a céu aberto. O seguro da empresa não conseguiria bancar os mais de US$4o milhões para cobrir os custos de limpeza da mina, restando ao governo de Montana e ultimamente aos contribuintes, que pagam seus impostos, se responsabilizaram financeiramente por isso.

Esses três casos representam apenas uma ínfima parte dos problemas, uma vez que essa atividade de mineração envolve a exploração de muitos outros metais através de muitos outros processos e em diversas áreas do mundo. Sendo Montana considerada parte de um país desenvolvido, pode-se imaginar os problemas com resíduos tóxicos nos países em desenvolvimento, onde as instituições e a ciência são mais fracas para evitar esses desastres e os governos menos ricos para solucionar os problemas.


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