Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 14/10/2009

Brasil – Uma perspectiva para 2010 (Update Out/09)


Leia também: EXPECTATIVAS DE MERCADO  (Novos Updates)

Desde o último post no dia 03/09 sobre o que será da economia do Brasil em 2010 (link), algumas expectativas mudaram. De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada junto à  do Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 09/10, o cenário para 2010 pode contar com algumas surpresas. O que mais contribuiu na mudança das expectativas foi a última ata  (link) do COPOM (Comitê de Política Monetária) na qual, segundo interpretação de muitos analistas, não há espaço para mais cortes da taxa básica de juros, a Selic, no curto prazo. A taxa Selic já caiu de 13,75% a.a. (meta para qual foi elevada a taxa em 10/09/08) para 8,75% a.a. (na decisão de 22/09/09) e sendo mantida nesse nível na última reunião de setembro.

Apesar do corte de 4p.p. (pontos percentuais), deve-se ter em mente as expectativas futuras da economia. Os itens 26 e 27 da Ata do COPOM trazem que (…) levando em conta, por um lado, a flexibilização da política monetária implementada desde janeiro e, por outro, a margem de ociosidade dos fatores produtivos, entre outros fatores, o Comitê avalia que esse patamar de taxa básica de juros é consistente com um cenário inflacionário benigno, contribuindo para assegurar a manutenção da inflação na trajetória de metas ao longo do horizonte relevante e para a recuperação não inflacionária da atividade econômica (…) Por outro lado, importantes estímulos monetários e fiscais foram introduzidos na economia nos últimos meses e deverão contribuir para a retomada da atividade e, consequentemente, para a redução na margem de ociosidade dos fatores produtivos. Os efeitos desses estímulos devem ser cuidadosamente monitorados ao longo do tempo e são parte importante do contexto no qual decisões futuras de política monetária, que devem assegurar a manutenção da convergência da inflação para a trajetória de metas ao longo do horizonte relevante, serão tomadas. A interpretação foi dos analistas é de que o piso foi alcançado e que o atual cenário já favorece a intensificação da atividade econômica.

Do ponto de vista do governo, há uma outra visão em que, segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, em entrevista à Folha (19/set), ao se referir sobre a Selic sugere  “uma taxa básica de juros nominal de até 7% ao ano, que é o cenário que se prevê para a economia nos próximos 12 a 24 meses“. A notícia não foi bem recebida pois bate de frente com a publicação do BC. Para que a taxa caia para 7% a.a. deveria existir sinais de que ainda estamos num cenário de aprofundamento de crise e, por isso, existiriam motivos para continuar a queda dos juros para estimular a economia. As novas expectativas de mercado sugerem outro cenário. Caso a visão do governo seja a de que teremos uma taxa futura mais baixa, ela não deve acontecer nos próximos 2 anos caso as expectativas estejam certas, nos gráficos abaixo.

A expectativa do crescimento do PIB do Brasil para 2009, faltando agora poucos meses para o fim do ano, desde 02/10 já anda em patamar positivo. Tendo atingido expectativa de -0,73% de queda  em final de maio  pode-se dizer que esse foi o fundo do poço para o que as pessoas esperavam para o futuro da economia brasileira, uma vez que as notícias de redução de IPI de automóveis e produtos de linha branca já haviam sido comunicadas até essa data. Em 09/10 a mediana das expectativas chegou a +0,1%, de maneira que existem agentes conservadores que ainda projetam PIB negativo e outros que já projetam mais do que 0,1% de crescimento para 2009. Para 2010, apenas nos últimos 25 dias, as expectativas para o crescimento do PIB subiram 0,8 p.p., uma forte onda otimista, esperando fechar o ano com 4,8% de incremento de PIB.  Essa notícia, apesar de positiva, pode contribuir para uma inflação mais elevada em 2010 (que é o que parece ser sentimento de muitos analistas), uma vez que o aumento de demanda sempre é acompanhado com o risco do aumento de preços. O gráfico das expectativas do IPCA aponta para uma inflação mais alta (em 2010) nas últimas leituras apesar da inflação desse ano estar bem comportada.

Ao observar a expectativa para taxa de juros, 2009 não traz nenhuma surpresa uma vez que nenhuma política monetária ainda posso afetar significativamente o resultado da inflação no ano. Em 2010 porém a história é outra! A expectativa para meta da taxa Selic fim de período (ou seja, a taxa efetiva vigente ao final de 2010) subiu de 9,25% a.a. (que se manteve razoavelmente constante nos últimos 4 meses) para 10,25% a.a. (apenas nas últimas 2 semanas).  A taxa média no ano de 2010 também começa a subir, sugerindo que o um possível aperto monetário possa se iniciar cada vez mais cedo ou com maior intensidade. Ambos movimentos estão em destaque nos últimos 2 gráficos acima.

Um cenário como esse acontece por alguns motivos: (i) a retomada da atividade econômica tem sido feita com o aumento no nível de utilização da capacidade instalada, que é simplesmente aumentar a produção reduzindo a ociosidade da indústria. Apesar disso, os investimentos ainda não voltaram na mesma força, de maneira a gerar uma expectativa que talvez a capacidade instalada atual não consiga suprir a demanda num futuro próximo (pelo menos até o fim de 2010). Outro motivo é (ii) o aumento dos gastos correntes do governo, principalmente com funcionalismo público e previdência. Esses gastos são gastos fixos e que só tendem a impactar mais as contas do governo, diferentemente de um gasto em investimento com infra-estrutura, que é mais pontual e existe enquanto durar a obra apenas. Esse último motivo, adicionado com a queda na arrecadação do governo em 2009 (incluindo a redução do IPI, que ao meu ver foi uma decisão correta no período de grande incerteza sobre a intensidade da crise), faz com que a relação dívida pública/PIB suba. O gráfico abaixo mostra a evolução da dívida de 50% (2006) para 43,0% (2007), para 36,05% (2008), sendo esse um importante indicador de confiança na capacidade do país que sem dúvida será explorado no ano eleitoral de 2010. Contudo, as expectativas para 2009 e 2010 são de aumento da dívida líquida do setor público, com uma piora razoável em 2009 para 43,6% (patamar acima do ano de 2007). Para 2010, mesmo com aumento esperado do PIB, a relação dívida/PIB pode subir acima do patamar de 2009, o que se pode ver pelas linhas no gráfico que estão ficando mais próximas e possivelmente 2010 ultrapasse 2009.

O que tinha tudo para ser um ano eleitoral positivo para o governo pode acabar se invertendo justo no último ano de mandato. O que resta é continuar acompanhando esses e outros indicadores como emprego, renda,  produção, comércio e câmbio para saber como eles irão impactar nas expectativas não apenas daqueles que respondem à pesquisa FOCUS, mas nas expectativas dos eleitores!


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