Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 25/10/2009

O Colapso: Desafios de Montana, EUA (III)


Como já diz o ditado “onde há fumaça, há fogo!”. Os problemas ambientais de Montana vão além da mineração e estão intimamente ligados. Com o início das atividades mineradoras, na década de 1880, iniciou-se também a atividade de exploração da madeira. O corte de árvores (principalmente pinheiros) se fez necessário, num primeiro momento, para sustentação das minas (ex: vigas) e para construção de moradias dos novos habitantes da região. Depois, uma nova fase de intensificação da atividade se deu por conta do boom imobiliário depois de 1945.

Trimotor trailing spray

Nós economistas (não é exclusividade nossa, eu sei!), logo no início da faculdade aprendemos a maximizar e minimizar funções de produção, no sentido de otimizar custos e lucros e extrair o melhor resultado. Foi isso que aconteceu em Montana, com a ampla utilização do pesticida DDT (mais informações sobre o Dicloro-Difenil-Tricloroetano), no combate aos insetos e com intuito de fazer proliferar de maneira uniforme árvores (que teriam a mesma idade então) e maximizar a produção de madeira. Uma vez feito isso, é mais fácil derrubar todas as árvores de uma região do que selecionar quais arvores devem ser derrubadas, já que são elas, na grande maioria as arvores que cresceram na mesma época e da mesma espécie. Qual o problema de derrubar uma floresta de pinheiros, alguém poderia se perguntar. Um raciocínio que pode ser feito, sem grandes esforços, é: (i) as árvores provêm sombra, proteção aos  (ii) animais e (iii) ao solo (mantém o nível do solo estável com suas raízes e absorvem água que em excesso podem causar erosão) e, ainda, existe o argumento daqueles que acham que a floresta é uma bonita paisagem (argumento bastante válido em um estado que vive do turismo devido às belezas naturais). Sem as árvores começam, os problemas constatados que “a temperatura da água dos rios, que não mais con­tavam com a sombra das árvores, subiu acima dos níveis ótimos para a reprodução e sobrevivência dos peixes; a neve em terreno sem sombra e despojado derretia mais rapidamente na primavera, em vez de liberar gra­dualmente a água necessária para a irrigação das fazendas durante o ve­rão; em alguns casos, aumentou o transporte de sedimentos e piorou a qualidade da água fora uma paisagem menos atrativa. As respostas à esse tipo de prática foram leis ambientais que pregavam a proteção de espécies ameaçadas, proteção da água limpa e manejo das florestas para múltiplos propósitos além da atividade madeireira. Muitas madeireiras fecharam e muitos empregos foram perdidos (a meu ver, a perda de emprego é uma conseqüência negativa para os trabalhadores, mas positiva para a sociedade em geral. Deve-se sim ter em conta que mudar de profissão é bastante difícil numa sociedade que não tem muitas opções de atividades e tem um impacto forte em toda estrutura familiar, devendo então existir uma contrapartida por parte do governo para não criar um problema social).

Problema resolvido? Não! Tendo essas novas leis algum impacto que incentiva as madeireiras a vender as propriedades para que possam derrubar árvores em outro lugar (já que essa atividade vai continuar existindo, é só pensar em todos os derivados da madeira que usamos no dia-a-dia), é importante também que hajam compradores. Muitos empreendimentos imobiliários buscam especialmente propriedades em frente à rios e lagos, são belas propriedades que os mais afortunados estão dispostos a pagar por qualquer preço, tornando assim o futuro da atividade madeireira incerta no estado.

Residências de Montana

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Agora então está tudo resolvido? Não de novo! Devido à equivocadas políticas de proteção ambiental, que tinham inicialmente como objetivo maior a proteção do meio ambiente, os problemas de Montana vão mais longe. Não apenas as mudanças climáticas mas também a ação humana causa resultados inesperados. A primeira ação é devido à intenção das madeireiras em maximizar a produção de árvores para corte posterior realmente contribui para que, durante um período, a paisagem pareça mais densa e mais bonita. A segunda ação humana foi a política de extinção de incêndios do Serviço Florestal dos EUA.  O objetivo de “Apagar todos os incêndios até as 10 da manhã seguinte ao dia em que o incêndio foi identificadoplane_fire_controlteve bastante eficácia, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, devido à “disponibilidade de aviões de combate a incêndios, e um sistema de estradas expandido para os caminhões de bombeiro, e tecnologia de combate a incêndios mais desenvolvida” do que antes, fazendo com que a área incendiada diminuísse em 80%. Ótimo, assim as florestas e animais ficam mais protegidos, assim como as pessoas e suas residências, certo? Ótimo!? Essa situação fez com que a densidade das florestas aumentasse de 75 para 500 árvores por hectare, multiplicando por 6,6 também a quantidade de material combustível.

Os incêndios naturais, anteriores a ação humana (provocados por raios por exemplo), tinham ação importante na manutenção da estrutura da floresta, uma vez que as árvores mais antigas são mais altas e mais resistentes ao fogo, enquanto o bosque abaixo delas é rapidamente consumido, evitando assim longa exposição do fogo às outras arvores e confinando o incêndio ao chão. O intervalo entre um incêndio natural e outro mantinha os bosques se renovando e queimando, num ciclo, enquanto nada acontecia com as árvores mais velhas. Numa situação onde a atividade de extração da madeira se concentra nas árvores mais velhas e mais resistentes (melhor madeira), intensificam a proteção das arvores mais jovens.

montana_fire11 (…) quando um grande incêndio finalmente irrompe em uma floresta repleta de árvores jovens, seja devido a raios, descuido humano ou (…) incêndios criminosos, as árvores jovens densas e crescidas tornam-se uma escada para que o fogo chegue à copa das árvores. O resultado é, às vezes, um inferno incontível no qual as chamas erguem-se a até 120 metros no ar, e pulam de copa pa­ra copa atravessando grandes espaços vazios, atingindo temperaturas de 1.100ºC, ma tando o banco de sementes de árvores no solo, e que pode ser seguido de deslizamentos de terra e erosão maciça.

Mas o que a economia tem a ver com isso? No Leste dos EUA, região mais úmida, as árvores mortas apodrecem mais rapidamente do que no seco Oeste, onde há cada vez mais árvores mortas como gigantescos palitos de fósforo. Numa situação ideal, o Serviço Florestal administraria e restauraria as florestas, as desbastaria, e removeria os sub-bosques densos através da poda ou de pequenos incêndios controlados. Mas isso custaria mais de mil dólares por acre. Considerando os 100 milhões de acres de florestas do Oeste dos EUA, o custo total chegaria a 100 bilhões de dólares (algo como o mesmo custo de se realizar 2 vezes a copa do mundo de 2014 e as olimpíadas de 2016 no Brasil). Nenhum político ou elei­tor quer gastar tanto dinheiro. Mesmo que os custos fossem mais baixos, a maioria do público suspeitaria da proposta como apenas uma desculpa para a volta da atividade madeireira em sua bela floresta. Em vez de um programa regular de gastos para a manutenção de nossas florestas em con­dições menos suscetíveis a incêndios, o governo federal tolera florestas in­flamáveis e é forçado a gastar dinheiro inesperadamente sempre que acon­tece uma emergência de incêndio – p.ex., cerca de 1,6 bilhão de dólares para debelar os incêndios que queimaram 16 mil km2 de florestas no verão de 2000”. Como conciliar esses interesses políticos/sociais/economicos? Os moradores de Montana não são muito fãs, por motivos obvios, da política de deixar queimar as florestas, mesmo sabendo que muitas vezes realmente não há como controlar o fogo. Aqueles que tem residencias nas areas selvagens e no meio das florestasdevem saber o risco que correm no caso de um incendio e nao devem colocar pressão no combate ao fogo simplesmente para salvar seus proprios interesses. Ao mesmo tempo, também nao querem ter que gastar dinheiro (indiretamente na forma de impostos para o governo, que poderia reduzir o material combustivel). Esse jogo vai bastante além da economia, mas no fundo tudo tem a ver como nós queremos ter nossos recursos administrados, mitigando os riscos.




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