Publicado por: Flávio Samara | 26/11/2009

Refletindo sobre a concentração de bares em São Paulo


Em uma conversa casual com uma nutricionista, foi ventilado um estudo feito por profissionais desta área sobre a concentração de bares em São Paulo. A conclusão do estudo era que os bairros caracterizados por um menor poder aquisitivo, apresentavam o maior número de bares em suas regiões. O restante da conversa foi de esforço em encontrar uma razão econômica para isto.

Felizmente, a teoria econômica possui uma ferramenta perfeita para o serviço: a curva de indiferença. Nada mais é do que dispor dois bens diferentes em que o indivíduo deve optar por certa quantidade entre ambos. As diferentes combinações destes dois bens resultam na chamada curva de indiferença, em que a satisfação material da pessoa (ou sua utilidade) é indiferente para com outras combinações que compõe a curva. Existem diversas curvas de indiferença no mesmo gráfico, demonstrando que a quantidade total de bens pode variar diante de mudanças na renda disponível da pessoa ou pelos preços dos produtos. Abaixo segue um exemplo.

Não acredito que seja necessário descrever a natureza que é a atividade de um bar. Ou boteco, para os mais íntimos. Apenas clamo pelo fantasma de Adam Smith para relembrar a lei da oferta e da demanda. Se existe uma alta concentração de bares, é porque existe uma demanda que vai de encontro com esta oferta de estabelecimentos.

Porém, aí chegou o momento que me segurou por mais tempo que pensava. Mesmo quem não é frequentador já pode imaginar que os produtos etílicos vendidos nestes estabelecimentos são mais caros do que se fossem adquiridos, digamos, em um supermercado. Razões são diversas, como custos comuns do setor de serviços (salários de funcionários, aluguel, etc.) que acabam incidindo no preço final do produto vendido, também o menor poder de barganha do vendedor com o fornecedor (diferente de uma cadeia de supermercados) e também o mini-monopólio que o bar detêm (se seus amigos escolheram aquele lugar, você está sujeito aos preços de um único vendedor).

Então, considerando o menor poder aquisitivo e a escolha entre os bens “bar” ou “supermercado”, faria mais sentido os indivíduos optarem por uma maior quantidade de “supermercado”, não justificando a maior demanda de bares nessas regiões em particular. Maior sentido faria se houvesse a concentração nos bairros de maior poder aquisitivo, teoricamente falando. 

Entretanto, como diria o Criador, houve a luz. Talvez o escopo em que o bem “bar” estava sendo retratado estava muito pouco abrangente para a situação real. O ato de ir a um bar não pode ser visto somente pelo ponto de vista de tomar umas. Também é uma atividade social e se encaixa como uma opção de lazer. Então além de comparar o bem “bar” com o bem “supermercado”, que seria simplesmente igualar ofertantes de bebidas, pode-se também comparar o bem “bar” com o bem “cinema”, considerando ambos como ofertantes de lazer. A escolha por “cinema” se deve pela referência que este possui como opção acessível de lazer. Aí a curva de indiferença consegue explicar a concentração de bares.

Ao optar pelo bem “cinema”, o indivíduo está sujeito a pagar uma entrada próxima de R$ 20 em São Paulo. Visto que este é o preço médio que se encontra nas grandes redes como Cinemark e Kinoplex. Ao mesmo tempo, uma garrafa de cerveja de 1 litro pode ser comprada por menos que R$ 5. Conheço um lugar em que vendem a Original e Serramalte por R$ 3,90 , mas não vem ao caso neste post. Abaixo pode-se ver uma representação gráfica das escolhas de um indivíduo onde ele opta por uma maior quantidade do bem “Bar” em detrimento do bem “Cinema”.

Havendo este padrão de preferências nos bairros de menor poder aquisitivo, justifica a existência de uma maior oferta do bem “Bar” em reposta a esta demanda.

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Responses

  1. Não entendi bem o argumento. O fato de existirem curvas de indiferença, apenas, não garante demanda alguma. O que justificaria o par ordenado no último gráfico seria a tangência com a restrição orçamentária do pobre (que, imagino, seria diferente da do rico).

    Ou perdi algo?

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  2. Caro Claudio,

    A demanda já existe, visto a conclusão da pesquisa apresentada no início do post (da concentração de bares). A curva de indiferença foi utilizada para demonstrar um processo de escolha do indivíduo e ilustrar o raciocínio de uma possível justificativa para os resultados encontrados por esta pesquisa.

    Da restrição orçamentária, ela poderia fazer parte do gráfico, só não achei que seria necessária pois estava fazendo uma comparação entre a escolha de dois bens e não entre diferentes restrições monetárias.

    Consegui explicar direito?

    Abs,
    Flávio

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