Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 15/01/2010

Memórias (Póstumas) da Sociedade Civilizada


Na falta de vocação mas em constante esforço, escrevi esse artigo para o jornal da faculdade em 2004 (ou 2005), juntando valiosos conceitos e idéias aprendidos ao longo da graduação na FEA-USP! Segue abaixo uma versão revisada.

“Apesar da alusão ao ilustre Machado não pretendo nem de longe me igualar ao seu talento. Porém, ouso dizer que a sociedade civilizada morreu (e faz tempo)! Seria essa vítima, então, também, de uma idéia fixa? Antes de continuar, me apóio na concepção do Estado de Hobbes e Rousseau e na filosofia utilitarista de Bentham.

Segundo Hobbes,o homem vive num estado de guerra latente, bellum omnium contra omnes, onde os indivíduos têm direitos a todos os bens que necessitam para garantir o seu sustento. Cria-se uma idéia do individualismo. Porém, existem obstáculos ao acesso à esses bens, uma vez que são escassos, permitindo  então que se instale uma situação de conflito permanente na disputa pelos recuros. Adepto da teoria contratualista, Hobbes defende a racionalidade do homem que o leva a celebrar o famoso pacto social e a submeter-se a dois imperativos básicos, que são: o esforço individual que cada homem deve buscar para alcançar a paz; e a abdicação, também individual, de suas liberdades para tê-la em conjunto e na mesma medida dos demais seres humanos. A sociedade então, regida por um Estado, seria necessária para controlar o instinto violento do homem, civilizar essas disputas por recursos e garantir proteção àqueles que participam do pacto.

De acordo com Rousseau, ao associar-se através de um contrato social, os associados alienam seus direitos à um corpo político (Estado). Esse ato é vantajoso, pois se forma um novo corpo, indivisível e com vontade própria. Assim qualquer dano ao corpo será um dano a todos, e qualquer vantagem ao corpo será uma vantagem a todos, logo ninguém desejará prejudicar os demais. Os indivíduos então obedecerão esse corpo, garantindo a preservação individual, deixando de lado a liberdade natural para obedecer leis e vontades convencionadas por eles mesmos. Isto porque a submissão à autoridade da vontade geral da população como um todo protege os indivíduos da subordinação às vontades de outros pela força e assegura que estes lhe obedeçam pois eles são, coletivamente, os autores da lei. Na passagem do estado de natureza (onde é cada um por si) para o estado civil, o homem muda: o instinto é substituído pela justiça. Qualquer quebra ao compromisso do contrato, implica a uma volta ao estado de natureza. O homem passa a ser moral e racional. Deve então ser objetivo do governo assegurar a liberdade, igualdade e justiça. Porém, quando o Estado falha e não funciona da maneira correta, cessa a autoridade (obediência às leis) sobre o indivíduo.

Deixando o campo político-filosófico, Bentham, assim como Stuart e Mill, difundem o Utilitarismo, teoria que responde todas as questões acerca do que fazer, do que admirar e de como viver, em termos da maximização da utilidade e da felicidade. Neste sentido, o homem é analisado na sua dimensão individualizada numa busca permanente de extrair o máximo de satisfação na utilização de um bem, serviço ou ação. Esses bens, serviços ou ações valem pelo prazer que podem assegurar ao indivíduo. Neste sentido, estabeleceram esses autores uma relação entre riqueza e valor fundamentada na utilidade que a mercadoria/ato proporciona.

Para, então, encontrar a resposta à pergunta inicial, mais uma premissa deve ser assumida: a desigualdade é um fato presente na história do homem. Quando se precisou dos homens para forjar o ferro, precisou-se de outros para alimentá-los. Assim surgiu o trabalho e desenvolveu-se a propriedade. A desigualdade está ligada à propriedade. Mesmo trabalhando tanto quanto o outro, um tem de sofrer (Rousseau)”. Aprofundou-se essa relação com o capitalismo. O liberalismo sublimou as idéias da liberdade e da igualdade como ideologia a ocultar a acumulação de riqueza e tornar viável a ascensão ao poder daqueles que detinham o poder econômico. Nesse sentido, a história econômica, na essência a historia da acumulação e concentração da riqueza, trás consigo a desigualdade e a exclusão e, não distante, a dominação.

Passamos então alguns mil anos de vida em sociedade, aqui estamos, todos reunidos em grandes centros urbanos de produção, consumo e reprodução, sob tutela de um Estado e maximizando tudo. Simplificam-se as relações sociais admitindo a existência de um mercado onde as pessoas interagem, de acordo com suas preferências, tomam decisões racionais e que a soma das decisões individuais atingem um equilíbrio. Política e Economia estão em questionamento. Construímos assim a sociedade em que vivemos e, ao que me parece, está longe de ser civilizada.

Define-se civilidade o “conjunto de formalidades (…) que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia”. Pode, então, existir mútuo respeito, boas maneiras e cortesia na desigualdade?

Chamem, se quiser, de sociedade civilizada aquela “anglo-européia”, sociedade do consumo, que cria um círculo vicioso, que desenvolve tecnologia (e não que isso seja errado) para produzir mais e trabalhar menos e cria mais desigualdade (afinal, nosso desejo último é atingir o ócio). Que carrega o nome do progresso porém melhora as condições de quem pode  e não de quem precisa. Que deseja a paz dentro dos seus territórios, mas não a promove em outras nações; os países que mais vendem armas para o mundo e pertencem a um conselho de “pseudo-segurança”. Money, quanto mais melhor, essa é a lei, lei do dinheiro, a nova lei do mais forte (como era no passado, agora e sempre).

No Brasil a situação é outra. Aqui o pacto-social (se ainda existe) é apenas um suborno (impostos) para um corpo público corrupto e ineficiente (já de longa data). Não espanta que os homens voltem ao seu estado de natureza e auto-preservação, poderes paralelos ao Estado retornando a barbárie. Não existe a civilidade, nem justiça e nem Estado.

Vivemos num mundo cada vez mais desigual e moralmente injusto, num país de impunidade, inseguraça e desrespeito moral! Essa fórmula de maximização individual apenas repete o dilema do prisioneiro: jamais chegaremos a um resultado bom para as partes envolvidas (indivíduos) sem uma coordenação, que os Estados a Política e o Mercado tem se mostrado cada vez mais incapazes de alcançar. Não é uma idéia fixa que matou a sociedade civilizada, mas a natureza intrínseca (gananciosa, egoísta e maximizadora) humana.

“BurRacionalidade”!

Seguimos a lógica de Darwin (esse sim era o mais sábio), onde o mais apto sobrevive. Não existe bem-estar coletivo, existe bellum omnium contra omnes (muda-se somente de armas), existe só a perpetuação da espécie, o estado inicial da natureza. Existe instinto, não racionalidade.”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: