Publicado por: Flávio Samara | 20/02/2010

Ultrapassagem pelo acostamento


Em conversa com um amigo sobre o ato de conduzir o carro pelo acostamento das estradas a fim de evitar os congestionamentos, cheguei a uma conclusão curiosa, digamos: utilizar o acostamento vai contra a teoria econômica.

Nas primeiras aulas de “Introdução à Economia”, geralmente com o auxílio de um avançadíssimo Power Point (irrelevante, mas serviu como desabafo), aprendemos conceitos básicos dos manuais de como os agentes respondem a incentivos afim de maximizar lucro ou minimizar custo esperados.

Na situação descrita no primeiro parágrafo, vemos que diante de um congestionamento o agente do caso (motorista), de acordo com a teoria econômica, calcularia racionalmente os custos envolvidos em percorrer a estrada obedecendo às regras ou em optar pelo acostamento. Se a teoria fosse correspondente com a prática, não deveria haver carros trafegando pelo acostamento. Explico:

O custo esperado pode ser expresso pelo valor monetário associado à escolha feita e a probabilidade das consequências associadas a esta escolha ocorrerem.

custo esperado=p(y).c(y) – onde “p(y)” é a probabilidade e c(y) é uma função de custo.

Por exemplo: aguardar no congestionamento traz o risco de gasto maior de combustível e do carro “ferver”. Portanto, o custo em valores monetários esperado seria igual à chance de cada acontecimento vir a ocorrer e o seu respectivo valor (custo do litro de combustível, custo do conserto do motor do veículo, etc).

custo esp (1) = p(maior consumo de combustível).c(R$/L) + p(carro “ferver”).c(R$ total do conserto)

Agora, para fazer sua escolha, o agente deve comparar seu custo esperado de trafegar pelas regras com o custo esperado de cortar pelo acostamento. Pela própria natureza da situação, podemos assumir que a probabilidade de acidentes é maior com o carro trafegando pelo acostamento. Para simplificar, vamos assumir que este é o único custo para o agente neste caso:

custo esp (2) = p(acidente).custo(?)

Pois é. Como vamos quantificar o custo de um acidente? Podemos incluir aí gasto com conserto do automóvel próprio e de terceiros, eventuais gastos com processos na justiça e outros. Mas e se houver vítimas fatais? Por menor que seja a probabilidade disto ocorrer, por mais próximo de zero que p(acidente) possa ser, como vamos quantificar o valor de uma vida humana? É justo dizer, então, que, pelo menos em termos monetários, a vida humana tem um valor infinito.

Portanto: custo esp (2) = infinito, se p(acidente) > 0. E desta maneira: custo esp (2) > custo esp (1).

Se formos jogar os ganhos avaliados para cada escolha (chegar em casa mais rápido), ainda sim caímos na mesma situação. O ganho de horas não justifica o custo infinito.

O que podemos concluir? (ironic mode on) Ou que qualquer um que trafegue pelo acostamento é um homicida desprovido de humanidade ou (ironic mode off) que simplesmente os agentes não conseguem sempre avaliar os custos de maneira racional. Não tô chamando nenhum motorista de burro, antes que comecem a tacar pedras.


Responses

  1. Você não está considerando o que o motorista pode ganhar por chegar mais rápido. Se ele está indo ao trabalho, ele pode ser demitido se chegar atrasado naquele dia, por isso o custo dele perder o emprego pode ser maior do que os custos esperados dos supostos prejuízos. Andar pelo acostamento pode ser justificado, do ponto de vista econômico.
    Gostei desses textos que colocam coisas do cotidiano do ponto de vista econômico. Entrei aqui procurando um texto de contas nacionais, mas acabei parando aqui. Tenho um texto sobre furar fila e suas implicações num blog que escrevo… http://naturedrunk.blogspot.com/2011/09/corrupcao-e-fila-do-bandeijao.html‎

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