Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 26/02/2010

Recuperação dos preços das Commodities


Um assunto que esteve em pauta, de maneira generalizada, nas discussões mundiais de inflação, até última crise econômica, foram as commodities. A definição de commodity (commodities, no plural), segundo o dicionário Houaiss da língua portuguesa é:

“1. qualquer bem em estado bruto, ger. de origem agropecuária ou de extração mineral ou vegetal, produzido em larga escala mundial e com características físicas homogêneas, seja qual for a sua origem, ger. destinado ao comércio externo; 1.1. cada um dos produtos primários (p.ex., café, açúcar, soja, trigo, petróleo, ouro, diversos minérios etc.), cujo preço é determinado pela oferta e procura internacional; 1.2. qualquer produto produzido em massa”

Em economia, esse termo é amplamente usado. Outra característica das commodities é que seu preço é determinado em função do seu mercado como um todo. Generalizando, são produtos básicos (ou seja, mais usualmente usados como alimentos ou insumos e matérias-primas para outras atividades) ou com pequeno grau de industrialização (por exemplo, o aço é um produto já industrializado da atividade siderúrgica, mas praticamente negociado como commodity; ou o óleo de soja, já processado da soja, mas também transacionado como commodity) que tem características uniformes ou quase uniformes (ex: minério de ferro 40% ou 66%, indicando grau de pureza do minério), usualmente produzidos ou extraídos em larga escala e por muitos produtores. Os  produtos cultivados, como cereais, frutas, legumes, verduras, também chamados de  “in natura”, são considerados “soft commodities” enquanto os produtos de extração mineral são considerados “hard commodities”. Em média, esses produtos são negociados e tem preços (cotações) definidos internacionalmente, impactando bastante a balança comercial de vários países, dependendo das relações de oferta e demanda interna e externa por tais produtos.

Tendo isso em mente, fica mais fácil apresentar os gráficos abaixo. O Fundo Monetário Internacional (FMI) apura esses dados de commodities e trabalha com índices de preços agregados de diversas commodities. A motivação desse post veio na verdade depois de artigo publicado no Estado (21/02/10 – Europa e China disputam matérias-primas), onde é bastante nítida a preocupação de países da Europa Ocidental (que têm poucos recursos naturais) e de países ávidos por crescimento, como a China, também pobre em matérias primas.

Devido à demanda (para reservas estratégica ou demanda efetiva para produção) desses e outros países e a relação com a oferta por parte das nações em desenvolvimento (mais ricas em matérias-primas), resulta o preço das commodities, no tempo, que também pode ser representado em forma de índice. Segundo seguem os gráficos abaixo, em ordem, o “Fuel and Non-fuel Commodities Index” representa a evolução dos preços de todas as commodities, incluindo alimentos, metais e energia, principalmente. De 1992 até 2002, o índice de  preços (com base=100 em 2005) se manteve razoavelmente estável, não superando muito a casa dos 60 até que, a partir de 2003 começo a crescer em ritmo bastante acelerado, acima das 2 casas decimais. De Jan/07 até Jul/08, índice de preço subiu 94%, praticamente dobrando o valor, tendo crescido mais de 60% de jan/08 até jul/08. Do seu pico (Jul/08) até o vale recente (Fev/09), tivemos a tal crise econômica e financeira, que ajudou a rever o nível de preços que as commodities atingiram. Esse pico contribuiu para diversos efeitos na economia mundial, como por exemplo: as empresas  brasileiras exportadoras de commodities ficaram muito contentes, o preço do petróleo atingindo patamares históricos; a Vale sendo benchmark de preços de minério de ferro também reajustando muito seus preços (e os chineses pagando); e os exportadores de grãos e carnes enfrentando dificuldades para atender a grande demanda de mais pessoas (principalmente dos países em desenvolvimento,  entrando no mercado consumidor e tendo acesso a mais produtos, substituindo dietas ricas em carboidrato por ricas em proteína), pressionando não apenas os preços dos alimento diretos, mas de outras commodities agrícolas que perdiam terreno para colheitas mais lucrativas, reduzindo a oferta das anteriores.

Com a crise, veio o reajuste de preços inflados, caindo drasticamente os índices de commodities. Esse efeito aconteceu não apenas porque a demanda também reduziu (por aumento do desemprego, da incerteza na manutenção de renda e emprego, por falta de crédito para consumir/produzir), mas também porque a especulação em cima das commodities diminuiu. Contudo, e agora vem o mais importante, a recuperação dos preços das commodities e o resultado disso nos índices é bastante nítido.

O “Food Index“, que tem forte peso dos cereais, dos óleos e proteínas vegetais e das carnes, está 5,2% em jan/01 do que a média de 2009 e acima também da média do ano de 2007, quando começou a disparar, quase atingindo o segundo nível mais alto da história do índice e deve caminhar nessa direção. O “Agricultural Raw Materials Index“, apesar da queda de preços em 2009, o índice voltou à normalidade em jan/10 e pode voltar a subir, uma vez que a madeira (associada ao preço da celulose) e o couro (associado ao preço das carnes) podem ambos terem preços mais fortes esse ano. O “Metals Index” já voltou a apresentar a mesma curva que na última subida, que começou em 2004 e com níveis de preços perto do patamar médio de 2007, quando os preços desses já estavam bastante inflacionados. O cobre, o alumínio, o níquel e o minério de ferro são os itens mais importantes do índice. Esses dois últimos índices compõem o “Industrial Inputs Index“, que está num nível muito próximo ao de jan/07, quando se intensificou a alta geral nos preços mundiais. Por fim, o “Fuel Index” que é composto basicamente por itens de energia, petróleo, principalmente, gás e carvão, também está acima do nível médio de preços de 2007, crescendo na casa dos 2 dígitos desde 2003 (com exceção de 2009) e é sempre grande alvo de especulações, devido à incertezas de oferta (devido à OPEP) e crescente demanda sem vista de grandes mudanças tecnológicas que substitua esses produtos como principais na matriz energética mundial.

Ao ver isso, minha opinião é que a normalidade já retornou ao mercado de commodities, no que diz respeito a preço. Logo, se há uma demanda reprimida ainda por causa da crise, na medida que a atividade econômica mundial retome níveis médios de crescimento de 3% (acima dos 0% em 2009), os preços serão pressionados novamente, para cima do patamar de hoje, retornando ao cenário de 2007, onde: vários BCs mundiais elevaram juros para combater a inflação; onde vários especuladores de curto prazo apostaram nas commodities muito mais do que em empresas sólidas ou títulos de governo seguros; onde os endividamentos de empresas e pessoas podem explodir (já que o juros atual está estimulando demais os empréstimos), onde decisões de investimentos hoje gerarão capacidade futura num cenário que pode ser de contração da demanda, prejudicando ainda mais empresas, renda, emprego; onde culminou na maior crise das últimas décadas.

Acredito que aprendemos (um pouco) com a crise, mas a conjuntura atual pode estar se aproximando da conjuntura de 2007, quando, analisando ex-post, se iniciou vários dos sintomas de que tinha uma crise vindo por ai…


Responses

  1. Interessante, mas qual é a fonte dos ´gráficos???

    Curtir


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: