Publicado por: Flávio Samara | 14/03/2010

O PIB de 2009


Aproveitando o gancho do ótimo post do Guilherme (logo abaixo) tratando sobre metodologia das Contas Nacionais, um rápido comentário sobre as Contas Nacionais de 2009 que foram divulgadas nesta última semana.

De acordo com o IBGE, a economia brasileira retraiu 0,2% no ano de 2009.

Começar olhando pela ótica da oferta:

Os setores Agropecuário e Indústria retraíram bastante, sendo o PIB salvo pelo setor de Serviços. Grande parte da retração nos dois primeiros setores deveu-se ao ambiente externo muito pouco amigável. A queda da demanda em si e a perspectiva negativa que isso traz para o empresário afetam a produção presente, com menores vendas, e a produção futura, através da expectativa futura de vendas. Desta maneira, investimentos nos setores também caíram (veremos mais adiante) e ambos terminaram por retrair mais que 5% em 2009. 

O setor de Serviços, por outro lado, registrou crescimento no último ano. Este setor se demonstra muito mais dependente da demanda doméstica. E a brasileira se mostrou bastante resistente à crise, diante da contínua queda da taxa de desemprego e alta nos salários reais, permitindo a manutenção do consumo das famílias (veremos mais adiante).

Agora, pela ótica da demanda:

Os Investimentos foram a grande retração da demanda interna (Consumo Famílias + Consumo Governo + Investimentos), caindo 10% ante uma expansão de 13% no ano retrasado. Esse componente do PIB possui uma natureza volátil, pois varia devido, entre outra coisas, de acordo com as expectativas dos empresários sobre as vendas futuras, que devem remunerar o dispêndio atual no aumento da capacidade produtiva e o risco implícito neste aumento do empreendimento. Se os empresários possuem alguma dúvida acima do aceitável para eles sobre a possibilidade de conseguir vender tudo que pretendem produzir, os investimentos retraem. É o tal do “espírito animal” observado por Keynes.

Por outro lado, o Consumo das Famílias seguiu em expansão. Lembra-se da expansão no setor de Serviços, mais sensível à demanda doméstica? Pois é. Essa expansão deveu-se a continuidade da melhora no mercado de trabalho, onde, neste caso, a rigidez da legislação trabalhista serviu para ajudar a economia, o que é muito irônico.

As retrações nas exportações corroboram com a tragédia que foi 2009 para vários países (mais informações logo abaixo). E as importações, também com queda registrada, foram bastante atingidas pela contração das compras de Bens de Capital, ou seja, insumo para investimentos. E o Consumo do Governo, bem, esse aí nunca para de crescer…

Perspectivas que o número trouxe:

Deve ser o clichê econômico mais amado pela imprensa dos cadernos de economia. “O PIB é como olhar pelo retrovisor”. E realmente, o maior teor das notícias é dado no fato que em 2009 o Brasil retraiu. Em termos absolutos, foi realmente um número péssimo. Mas nada como olhar para os vizinhos para perceber que o nosso jardim não é tão feio ou que o nosso carro não está tão velho:

Fonte: Folha de São Paulo

Ah, nada como a relatividade. As economias maduras (EUA, Europa, Japão) foram as mais atingidas pela crise. Faz a retração brasileira parecer brincadeira de criança. Já a China, o que dizer? China se crescer abaixo dos 8% é praticamente uma recessão, dado o tamanho de sua população. E crescimento econômico é uma ferramenta política acima de tudo, algo que traz aceitação ao regime de partido único que lá existe.

E alguns componentes e comparações do PIB brasileiro jogam um otimismo sobre o ano de 2010. Como a recuperação dos investimentos, o setor doméstico mais prejudicado pela ótica da demanda, no 4T09 em comparação com o 3T09 e o 4T08, pelo fato de ser, como já dito, um componente com um olhar no futuro. E nessa mesma linha, também é muito positiva a recuperação da Indústria, pelo lado da oferta.

Os riscos

Permanece o risco de que a atual recuperação global (as exportações aqui voltaram a crescer marginalmente) seja temporária e as economias maduras voltem a registrar contração em suas atividades. E isso levar a uma contaminação da economia doméstica.

E por outro lado, no caso da continuidade da recuperação, permanecem os riscos antigos para a economia brasileira: carência de investimentos em infra-estrutura e educação, que traz gargalos que aumentam custos de transportes e falta de mão-de-obra qualificada, e a necessidade de reformas como a tributária, trabalhista e previdenciária.

Mas, pelo menos para 2010, as perspectivas são positivas em matéria de crescimento.

 


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