Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 28/03/2010

Entendendo as Contas Nacionais (III)


Para aqueles que conseguiram chegar até aqui no ávido intuito de entender as Contas Nacionais, tendo já passado por uma Economia Fechada sem Governo e por uma Economia Aberta sem Governo, fica faltando adicionar o governo nesse exemplo, de maneira a nos aproximarmos mais da realidade.

A Conta do Governo passa a incluir os Créditos e Débitos desse setor com o resto da economia, ou seja, as fontes de renda e utilização da mesma, por parte do governo, como segue na tabela abaixo.

Economia Aberta com Governo

O que muda na conta da produção? Do lado direito, há agora o consumo do governo (22), que é fonte de receita por parte das empresas. Desse lado temos a demanda total por bens e serviços. Note que desse lado já se evidencia uma famosa identidade macroeconômica onde: a demanda total por bens e serviços (é também quase o PIB, faltando apenas uma transformação algébrica), que vamos chamar de “Y”, o Consumo Pessoal é conhecido por “C”, o Consumo do Governo conhecido por “G”, a FBCF e a variação de estoques são “I” e as exportações de bens e serviços é conhecida por “X”. No caso de subtrair as importações , conhecida por “M”, de ambos os lados, chegamos à demanda nacional (ou interna) por bens e serviços (ou o conhecido PIB, pela ótica da demanda) e, evidenciando assim, a famosa identidade Y=C+I+G+(X-M). Do lado esquerdo, começa a lambança, com a inclusão do governo. (lambança porque o blog não precisa ser sério pra ser educativo!).

Os itens da primeira tabela, a partir das importações até os lucros retidos, já foram apresentado anteriormente mas, há novidades! O item (16), Outras receitas correntes do governo são geralmente atribuidas às taxas (taxas não são impostos, mas é uma forma de tributação), participações acionárias e/ou dividendos, multas e/ou aluguéis, que são pagos pelas empresas e serão, como veremos mais a frente, receita do governo (que então entrará do lado direito da conta do governo). O item (19), Impostos diretos pagos pelas empresas menos transferências totais recebidas pelas empresas, é na verdade o saldo líquido de outros 2 itens. Os impostos diretos (15.2) são uma parte dos impostos (15), que são pagos por empresas e famílias, de maneira que, na conta da produção, está apenas o que é pago pelas empresas ao governo. O mesmo vale para as transferencias feitas para empresas (17.2), que é parte das transferencias totais (17), pagas pelo governo às empresas e famílias. Os itens 20 e 21, também representam um saldo, impostos indiretos menos subsídios, sendo o primeiro uma obrigação das empresas e o segundo uma fonte de renda, então, entra com sinal contrário nesse lado da conta. Note que pode-se também adicionar dos 2 lados os subsídios e transferências, de maneira que ambos fiquem do lado direito da tabela, mantendo ainda as identidades contábeis.

Depois de dois parágrafos maiores que o último post (quase), vamos para segunda tabela “T2” na conta da apropriação. Note que vários itens já foram explicados mas outros são novos. A adição da renda líquida enviada ao exterior (12) garante que a conta se refira ao “interno” e não ao “nacional”, que diferencia o PIB e o PNB. O PIB considera a produção interna, que inclui a produção de empresas estrangeiras no país e desconsidera produção de empresas brasileiras no exterior (logo, há um vínculo com a localização da produção) e o PNB considera a nacionalidade do capital. Soma-se ainda do lado direito as transferências do governo (itens 17.1 e 17.2), e soma-se o saldo dos impostos diretos menos as transferencias (de maneira a ter a renda a preços de mercado). Inclui também o item (16) ,as outras receitas corrente do governo (que é renda para familias), apesar de também ser um gasto das familias que pagam a remuneração por fatores de produção ao governo e, por isso, está também do lado direito. Do lado esquerdo, mantendo a igualdade contábil, temos a adição (15) dos impostos diretos totais (por parte dos indivíduos e empresas). Esse lado esquerdo representa a utilização da renda bruta interna mais transferencias. Note que de ambos os lado há o item de impostos diretos pagos pelas empresas, que não altera a igualdade mas resulta em patamar diferente caso não estivesse ai, assim como as outras receitas correntes do governo e RLEE.

Na terceira tabela temos a Conta do Governo. Do lado direito, as fontes de renda do governo, que são: (15) impostos diretos, (20) impostos indiretos e (16) as outras receitas correntes. Do outro lado está a utilização da renda do governo, que é usada no consumo do governo (22), para as transferências (17) e subsídios (21) e o saldo do governo em conta corrente (18). Em uma  situação onde o consumo, transferências e subsídios é maior do que a receita total do governo, o saldo do governo será negativo e ajustará a identidade contábil. Um governo que gasta mais do que arrecada, tem déficit em suas contas ou, no caso contrário,  tem superávit. Esse item é muito importante na Conta de Capital, entrando do lado direito. No fundo, esse item é a poupança do governo (que pode ser negativa ou positiva) e, junto com a poupança interna e externa (saldo do BP em transações correntes), dá o patamar da poupança total. Um déficit do governo em conta corrente reduz a poupança total e, logo, reduz os investimentos (variação de estoques e FBCF). A conta do setor externo permanece inalterada nesse sentido.

No próximo post, apresento como isso é divulgado no caso brasileiro, pelas Contas Nacionais do IBGE.

que muda na conta da produção? Do lado direito, há agora o consumo do governo (22)
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Responses

  1. Por quê algumas contas estão trocadas, tipo, a depreciação está na conta de apropriação, sendo que no livro, a nova contailidade socal, a contrapartida da conta deprciação está na conta de capital, do lado debito.

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    • Eu escrevi esse post com base no livro “MACROECONOMIA” dos autores Mario Henrique Simonsen e Rubens Penha Cysne, a 4ª edição (2009). É um pouco diferente sim do livro da nova contabilidade social, mas é um livro excelente e por isso tomei como base esse material.

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  2. Muito boa a série de posts sobre contas nacionais!

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  3. Aristone, a conta apropriação do livro da Paulani tem como objetivo gerar como saldo a poupança líquida, portanto não tem depreciação. Na conta capital a depreciação fica desagregada pois o oquilibrio iguala poupança bruta ao investimento bruto. No esquema do simonsen, ele toma o caminho de realçar a depreciação como renda das famílias proprietárias. Claro essa renda tem como destino repor os equipamentos desgastados. A depreciação assim como os lucros retidos tem como destino, a grosso modo, financiar o investimento bruto das empresas, complementado pela poupança disponível no mercado financeiro (conta capital). A diferença portanto é uma questão de estilo, livre arbítrio dos autores. É um modelo teórico.

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