Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 04/05/2010

Brasil República


Depois de algumas leituras sobre o início do Brasil República, mais especificamente sobre políticas econômicas desse período, percebi que as coisas não mudam mesmo! Se pudéssemos voltar no tempo (ou vir do passado para o futuro), a discussão do setor exportador no Brasil é sempre a mesma: câmbio. No início da década de 1890, recém-declarada a República do Brasil, a situação social e econômica era bastante complexa regionalmente contudo, vou tentar concentrar o post no que diz respeito às ações do setor cafeeiro e suas consequências no país. Adianto também que não tenho a pretensão de em poucos posts descrever a situação completa e detalhada do período, apenas ressaltando o que mais me chamou atenção e compartilhando opinião que pode servir para discussões futuras.

Claramente, é importante fazer alguns comentários (mesmo que rápidos ou superficiais) sobre mudanças importantes na sociedade brasileira. Tendo sido decretada a Lei Áurea no Brasil em 1988, pouco antes da República, que proibia oficialmente a escravidão no Brasil, só restava um tipo de trabalho no país, o trabalho assalariado. Na prática, a escravidão já vinha sendo balanceada aos pouco com trabalho assalariado no país desde 1850, quando da Lei Eusébio de Queiros que proibia o tráfico negreiro e, assim, “obrigando” (no longo prazo) os grandes fazendeiros de café (não só esses, claro) a substituir seus escravos por trabalhadores livres. O fato da base assalariada no país aumentar ao longo da segunda metade do Império até o início da República (e muito mais a partir daí), faz com que a demanda por moeda no país também cresça bastante, assim como a massa salarial total da população e a demanda por bens e serviços (dentre os principais fatos).

Outra característica importante desse período era a adoção do sistema monetário conhecido como padrão-ouro.  Esse sistema era adotado pela maior parte dos países (i.e. países relevantes ao comércio internacional) e era basicamente um regime de câmbio fixo. Os países mantinham reservas sob a forma de ouro e adotavam um valor fixo de suas moedas nacionais.  As variações das reservas baseavam-se no princípio que, quando as nações comercializavam entre si, geravam déficits e superávits e, assim, o ouro financiava as necessidades desses países. As reservas de ouro não ficam todas no país, uma vez que o transporte era extremamente demorado e custoso, de maneira que um país poderia ter reservas em outros países com quem negociavam e administrar suas reservas assim. No geral, as reservas serviam para financiar os resultados da balança de pagamentos (BP) dos países, podendo existir, como adiantado a pouco, países com déficits (e, portanto, exportadores líquidos de ouro) e países com superávits no BP (e, portanto, importadores de ouro, uma vez que esse ouro era adicionado às reservas já existentes).

O padrão-ouro influenciava ainda a oferta interna de moeda, que tem papel importante nessa época. A emissão de moeda devia ser lastreada em ouro, ou seja, a quantidade de moeda disponível respondia por uma quantidade de ouro, que funcionava como garantia e dava valor à moeda. Nesse contexto, um aumento das reservas significava também expansão da base monetária, que levaria à um aumento nos preços (no curto prazo), alterando a relação com os preços internacionais, em prol dos preços dos produtos importados que ficariam mais baratos, pressionaria as importações (no médio prazo), onde o país então gastaria suas reservas em mais produtos externos e, assim, conduzindo  a economia a um reequilíbrio das contas.

Por fim (acho), as oscilações de preço do café (preço internacional e preço recebido pelos produtores, principalmente) por inúmeros motivos (em especial os ligados à oferta do produto) são o foco da maior parte das políticas fiscais, monetárias e cambiais desse período, quase sempre a favor dos interesses do grupo hegemônico do café.

O gráfico abaixo apresenta exatamente o movimento do câmbio durante esse período do Brasil República, de maneira que a análise desse, ao longo dos próximos posts (afinal, um post muito extenso pode se tornar cansativo pra quem lê e pra quem escreve também), deve esclarecer dúvidas e contextualizar melhor o período que aprendemos no colegial como Oligarquia do Café, República do Café com Leite e outros nomes criativos por ai.

Série de Câmbio (1888-1930)

(As duas séries representam a mesma coisa, a primeira mostrando a relação entre a libra esterlina e o mil réis, de maneira que, sempre que está caindo essa relação,  a libra aumenta seu poder de compra em mil réis, é necessário menos da moeda externa para compra a mesma unidade da moeda interna. A segunda série mostra a relação entre o mil réis e a libra esterlina, ou seja, quantos mil réis são necessários para comprar uma unidade da libra, de maneira que, quando sobe equivale a dizer que ocorre uma depreciação cambial. No Brasil hoje em dia é mais frequente usar olhar a segunda série  (Ex: R$/US$, quantos reais são necessários para comprar um dólar), mas antigamente usava-se mais a relação contrária (Ex: US$/R$, quantos dólares preciso ter para comprar uma unidade do real, relação muito usada quando a moeda é forte).


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