Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 12/07/2010

Bobagens econômicas que escutamos


Finalmente, depois de mais de 6 meses (ou mais) escutando quase todos os dias nos intervalos do “Bom Dia Brasil” uma propaganda comercial do SUV (Sport Utility Vehicle) Tucson, resolvi não apenas manifestar indignação mas também compartilhar esse sentimento.

Porque o Tucson é um carro imbatível?

Dentre várias versões do comercial, seguem algumas respostas (que não tem nada a ver com ser imbatível) como “O carro além de ser é lindo,  é um carro alto, tem visão maravilhosa (…)” ou “pode pegar uma estrada tranquilamente pode colocar toda a família” ou “encara a buraqueira”, “passa em alagamento, enchente”. Tem as divertidas como “É espaçoso”, “dá pra deitar todos os bancos” ou “é um carro que eu adoro (algo assim)”. Nenhum desses argumentos torna um carro imbatível, na minha opinião, pois são bastante subjetivos, mas são recursos baseados em sentimentos dos consumidores que exercem um influência positiva na percepção do carro. Como não sou formado em marketing nem psicologia, não vou escrever o post em relação aos argumentos anteriores MAS, como economista, não posso deixar de avaliar o comentário “é um carro que não desvaloriza“, que é dito em uma dessas versões da propaganda.

O que quer dizer “isso não desvaloriza”? Significa, simplificando, que “a coisa” ou “o produto”, vale hoje o mesmo que valia no passado. Uma moeda pode desvalorizar em relação à outra, um produto pode desvalorizar em relação à ele mesmo, no sentido que não vale mais o que valia antes. Seria ainda válido apresentar o conceito de depreciação, que é a perda de valor de alguma coisa devido ao seu uso. Uma máquina deprecia pois, após meses ou anos de utilização, não consegue operar tão bem quanto quando era nova (ah sim, um carro é uma máquina). Necessariamente essa depreciação é uma desvalorização, pois reduz o valor do bem. Ainda pode existir o caso de um bem novo perder valor, como comprar um computador e deixar encaixotado, novinho, sem usar. Com o passar do tempo, a tecnologia evolui e lança novas versões de computadores e mesmo estando novo, o outro computador vai perder valor, vai valer menos do que valia quando foi comprado, com o passar do tempo.

Então como o Tucson não desvaloriza? A não ser que o carro seja um “Transformer”, com tecnologia super avançada  de outro planeta que está sempre se atualizando e sem a gente saber, de maneira a estar sempre com a última tecnologia possível, poderíamos supor que ele não desvalorizasse. Ainda, se for um carro que está sendo utilizado com uma frequencia mínima (e diferente de 0 metros por dia), ele irá sofrer depreciação, por seu uso. Mas apesar da intuição, o mais legal vem agora, que é apresentar os dados reais que não são veiculados na propaganda, mas são de acesso público. A tabela FIPE, da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica, uma das referências mais importantes do país para precificação de carros e de bastante credibilidade, nos traz informações sobre o Tucson.

A tabela acima apresenta dados de referência de Julho/2010. O Tucson 2.0 16V automático 0km custa, quase R$70 mil (claro que esse preço pode variar de loja para loja, depende de condições de compra, acessórios inclusos, mas é um preço médio). Segundo a tabela, um carro ano modelo 2010, já custaria quase R$65 mil, chegando a 8,1% de diferença em relação ao zero Km, que poderia assim ser chamado de …. DESVALORIZAÇÃO! Mas, caso você tenha um Tucson ano modelo 2009, ele já vale hoje pouco mais de R$60 mil, 6% menos do que o ano modelo 2010 e 13,6% menos do que um carro novo. A análise segue nesse linha, de maneira que podemos dizer que o Tucson ano modelo 2005 custa hoje, quase R$43 mil, tendo desvalorizado quase 40% em relação ao carro 0km. Com 5 anos de garantia, o ano modelo 2005 perde mais de 10% de valor em relação a um carro idêntico ano modelo 2006.

No limite, como a inflação cresce, existe uma perda nominal e uma perda real de valor, pois uma mesma quantidade de dinheiro hoje não terá o mesmo poder de compra daqui um ano, os preços sobem. O Tucson tem uma taxa de desvalorização acima da taxa de inflação, de maneira que ainda pode-se dizer que a perda de valor não é só causada pela corrosão de valor da moeda, mas muito mais do que isso. Tomando uma  hipótese bastante tosca (apenas como exercício) vamos imaginar que o carro de R$43 mil, ano modelo 2005, tivesse sido comprado por esse valor exato. Para ser um carro que não desvaloriza, ele teria, no mínimo, que ter apreciado à mesma taxa de inflação, de maneira que o valor dele em 2005 seja o mesmo hoje, em termos de poder de compra. Para fazer isso bastaria trazer a valor presente o preço do carro, corrigido pela inflação. Feita essa análise, o Tucson deveria 0km deveria custar R$ 55 mil, pois se não desvaloriza, todos os carros deveriam ter o mesmo valor.  Como ele vale R$13 mil a menos, é impossível dizer que ele não desvaloriza. Ainda, como ele está custando quase R$15 mil a mais, alguém está pagando mais caro, e esse é o consumidor, e alguém está levando essa bolada, por automóvel vendido (não precisa dizer quem é). O carro sofre uma taxa média de depreciação de 7,8% ao ano, segundo a média das taxas de desvalorização, sendo muito mais elevado no caso dos carros de fabricação mais antiga.

Só posso torcer para que essa propaganda não seja veículada mais, porque além de mentirora, é chata (esse sim é um argumento muito técnico) e se repete a cada intervalo. Poderia também torcer para que os criadores tivessem aula de introdução a economia (caso nao saibam o que é desvalorização) ou, no limite, procurassem o que é esse conceito no wikipedia. No caso de saberem do conceito (que é o que eu acredito mais), que parem de enganar as pessoas, pois tem gente que acredita nessas coisas. Um carro que não desvaloriza é uma grande bobagem econômica mas, se existisse, com certeza seria imbatível!

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