Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 21/07/2010

A insustentável exuberância do PIB


Em mais uma tentativa bem intencionada de descrever assuntos econômicos de grande repercussão, já tendo publicado o mesmo post em inglês (The unbearable exuberance of the GDP – 13/06/10), agora segue a tradução (no sentido inverso do que é esperado, e é claro também que a tradução não vai ao pé da letra). O assunto é a evolução do PIB brasileiro e o resultado “exuberante” (segundo Lula)  no primeiro trimestre de 2010.

O Brasil tem se destacado como uma econômica emergente e isso devido principalmente à estabilidade macroeconômica adquirida e a taxa de crescimento do PIB. O que significa estabilidade macroeconômica? Primeiramente, desde a transição da moeda brasileira para o Real (em 1994), o grande medo do retorno da inflação foi reduzindo aos poucos e está sobe controle (mesmo que acima da meta, pode-se afirmar que está sob controle, no sentido que não está explodindo, como era no passado). Depois de alguns anos de taxa de câmbio fixa (ou quase-fixa, se pensarmos em bandas cambiais bastante próximas), em torno de 1:1 a relação R$/US$ (estratégia econômica que requeria enormes quantidades de US$ por parte do governo para atender toda a demanda do mercado, tendo então que queimar reservas internacionais e privatizar as estatais em troca de mais dólares para bancar a brincadeira até a reeleição do sr. FHC), de maneira que o Brasil foi quase que obrigado a quebrar a paridade 1:1 por falta de reservas (reservas em julho/98: US$70.210 mi; em março/99:US$ 33.848mi). Apesar disso, essa política foi necessária para o combate da inflação (o que pode ser questionado é a duração da política) e, desde 1999 temos uma política de câmbio flexível (ou flutuante), que levou o real a um valor mais próximo de 2:1 (R$/US$) e tem oscilado mais ou menos nesse patamar (simplificando os últimos 10 anos). Com o câmbio flexível, as chamadas “forças de mercado” é que definem qual a taxa de câmbio (com alguma interferência do BC, de tempos em tempos, seja para estratégia de acumulo de reservas ou para outras estratégias, como segurar o valor do câmbio, sem que o mercado tenha em conta quando ocorrerão essas operações. A segunda característica da estabilidade macroeconômica é a política de meta de inflação, alinhada com políticas de outros países, que persegue uma meta de inflação (conhecida e anunciada para todos) através de política monetária, via taxa de juros Selic, por exemplo. A última característica do chamado “tripé de política econômica” é o superávit primário (superávit antes do pagamento do serviço da dívida pública), garantindo que o país pudesse honrar com o pagamento de juros da dívida (já que não temos um histórico tão positivo de pagamento das obrigações financeiras). De maneira curta, a estabilidade macroeconômica e políticas econômicas sérias desde o plano real permitiram que os investidores voltassem ao país (e garantiram maior estabilidade e previsibilidade para os investidores nacionais), de maneira a investir não apenas em mercado acionário, mas também viabilizando investimentos físicos, tornando mais relevante o planejamento das empresas (devido à menor incerteza na economia), permitiram aumentar o poder de compra da população em geral (particularmente os mais pobres) e deu muita credibilidade internacional ao gigante que estava “deitado eternamente em berço esplêndido”.

O que dizer então do desempenho do último PIB? Dado o cenário de estabilidade, o controle da inflação permitiu o relaxamento das restrições de crédito (devido ao aumento da renda real e menor risco de inadimplência), os gastos do atual governo com políticas sociais (que era necessário, mas não de maneira tão confusa), os gastos do atual governo com a contratação de servidores públicos [uma festa de gastança, por assim dizer, inchando o “não tão eficiente em todos os seus segmentos” setor público, (posto dessa maneira para não cometer injustiça com algumas áreas ainda eficientes), uma vez que o governo acredita que um peso maior do estado na economia é melhor], a modernização do parque industrial [especialmente durante o período anterior à depreciação (antes de Lula), permitindo importações de bens de capital e tecnologia], o crescimento do IED, investimento externo direto (devido à maior confiança na economia brasileira e seu potencial de mercado doméstico), o intenso fluxo de dólares advindo das exportações do agro-negócio (também contribuindo para o acúmulo de reservas internacionais e reduzindo o risco de enfrentamento de crises), sendo estes apenas alguns itens que contribuíram para o desenvolvimento econômico desde a implementação da nova moeda (R$). Tudo isso foi possível por causa da estabilidade macroeconômica (a base desse resultado econômico positivo) e também devido à políticas fiscais expansionistas (o “empurrãozinho” que faz o PIB crescer acima da sua taxa de crescimento natural).

Apenas depois disto posto é que podemos analisar o último resultado do PIB brasileiro. Em 2010, o PIB do 1ºTri cresceu 2,7% em relação ao 4ºTri de 2009. A taxa “anualizada” (que é uma taxa composta, que significa qual é o ritmo de crescimento econômico no caso do crescimento de 2,7% se sustentar por 4 trimestres consecutivos) é de 11,2%. É importante lembrar que a taxa saudável (natural) de crescimento é em torno de 5% ao ano, de maneira que a taxa saudável de crescimento no trimestre é de 1,23%. TODO O CRESCIMENTO ACIMA DE TAXA NATURAL EXERCE PRESSÃO INFLACIONÁRIA e muito provavelmente será combatida via política monetária (sendo elevação da taxa de juros a principal ferramenta). O crescimento dito “chinês” de 9% (YOY – year over year – variação em volume em relação ao mesmo período do ano anterior) é sobre um período de recessão (em 2009) e não é NADA sustentável, sendo apenas uma simples e ingênua operação matemática que precisa ser melhor anualizada.

Para gráfico apresentado abaixo, não tenho pretensões de dar nenhuma perspectiva setorial ou me estender na composição do PIB, apenas fazer uma análise do produto agregado.  O IBGE divulga o índice de volume (1995=100), representado no gráfico (considerando apenas os resultados dos primeiros trimestres dos anos). Analisando o PIB desde 2003, é fácil perceber que ele caiu em 2009 e voltou a crescer em 2010. A taxa anual de crescimento do PIB mostra que de 2005 a 2008,  a taxa de crescimento tem se acelerado e isso é um reflexo do “empurrãozinho” do governo (tradução: elevação dos gastos públicos). Devido à recessão de 2009, quando o PIB do 1º Tri caiu 2,1%, o resultado de 2010 foi de 9% sobre 2009 (segunda linha). Na terceira linha, está apresentado o crescimento do PIB do 1ºTri de 2010 em relação ao ano de referência na coluna, ou seja, 9% de crescimento do 1ºTri-2010 em relação ao 1ºTri-2009, 3.3% de crescimento ao ano do 1ºTri-2010 em relação ao 1ºTri-2008 ou 4.3% de crescimento ao ano do 1ºTri-2010 em relação ao 1ºTri-2004. Essa visão é coerente com a percepção da taxa de crescimento natural da economia brasileira em torno de 5% (um melhor palpite seria dizer menor do que 5%). Claro que não se pode simplesmente realizar uma projeção linear dessa taxa para os próximos anos, mas é razoável assumir que taxas de crescimento acima de 5% vão causar aumento de preços. É por esse motivo inclusive que o BC já começou uma política de aumento de juros, 2 pontos nas últimas três reuniões (28/04; 09/06 e 21/07) e há mais aumentos por vir, fazendo com que nossa taxa real de juros seja a maior do planeta.

Brasil - PIB 1º Tri

Eu recomendaria que a análise desse tipo de divulgação fosse feita com algum olhar crítico e não simplesmente olhando o que está escrito em jornais e dito na televisão. Muitos resultados do governo Lula estão bastante inflados e devem causar problemas no futuro. O lado positivo (não para mim, mas para o atual presidente) é que esses problemas futuros vão afetar apenas o próximo governo, de maneira que ele conseguirá manter os 80% de popularidade até o final de mandato. O discurso do crescimento chinês em um trimestre é muito bonito para quem não sabe que a China apresenta esse crescimento a taxas anuais (não é a mesma coisa que dizer “taxa anualizada”, é uma taxa real que já aconteceu) e há pelo menos 30 anos, enquanto a nossa não é particularmente sustentável nem mesmo durante 1 ano inteiro. Tão exuberante, tão insustentável.


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