Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 05/08/2010

Desvendando a economia: demanda por moeda (I)


Todo produto, bem ou serviço em economia, existe pois existe uma demanda por esses (para dado conjunto de preferências sociais e renda). No caso da moeda, não é diferente. Apesar de ser um bem bastante específico e com características diferentes dos outros bens, a moeda também é demandada. Antes de apresentar diferentes modelos de demanda por moeda, acredito que é importante apresentar essas características da moeda, de maneira breve. A moeda pode ser usada como (i) meio de troca, (ii) unidade de conta e (iii) reserva de valor.

  • Como meio de troca, a moeda facilita as transações entre diferentes agentes na economia. O que isso quer dizer? Antes da moeda, as pessoas realizavam trocas de mercadoria diretamente, ou seja, uma mercadoria por outra, trigo por carne ou trigo por roupas, digamos. Se eu tenho uma pequena plantação de trigo e quero comprar carne, não posso recorrer ao vizinho que é alfaiate, pois ele só oferta roupa, ou seja, tenho que achar outro vizinho que oferte carne. Uma vez achado um ofertante de carne, ele só vai negociar comigo se tiver necessidade de trigo, senão, não há motivo para trocar carne por trigo. Caso o ofertante de carne tenha demanda por roupas mas o alfaiate tenha demanda por trigo e não por carne, também não se realizará a troca de produtos, mesmo que um demande algo do outro. Dessa maneira diz-se que é preciso uma dupla coincidência para o escambo ocorrer. Além disso, para ocorrer uma troca, existe uma relação de quanto um produto vale em relação à outro. Por exemplo, 10kg de trigo vale 2,5kg de carne ou 10 peças de roupa. O ofertante de carne não tem 2,5kg de carne, tem um boi inteiro. Como transacionar dessa maneira, caso eu tenha 10kg de trigo apenas, e não todo o equivalente para trocar pelo boi? Ou como trocar o boi por roupa se eu não preciso de tanta roupa, apenas algumas peças? Num mundo onde existem diversas mercadorias, o sistema de preços relativos seria bastante complexo e perderíamos muito tempo para encontrar pessoas que ofertassem o que demandamos e demandassem o que ofertamos, além de ter as quantidades passíveis de divisão e que atendessem as necessidades dos 2. Logo, a moeda evita essa complicação, de maneira que as trocas passam a ser indiretas, intermediadas em termos de moeda e não mais em mercadorias. Eu posso então pagar em moeda para adquirir roupa e o alfaiate compra carne com essa moeda, sem ter que trocar trigo por isso, uma vez que a moeda é aceita como meio de troca (a discussão aqui poderia se estender para outros ativos que servem como meio de troca, como ouro e outras moedas de diferentes países, ou o que faz a moeda ser aceita como meio de troca.)
  • Como unidade de conta, a moeda também resolve o problema acima de expressar os valores de todas as mercadorias em função de outras, ou seja, tanto o trigo, a carne e a roupa podem ser expressos em uma unidade única. Se o trigo tivesse um preço relativo em relação à carne e outro em relação ao trigo, são 2 preços. Em três mercadorias teríamos já 6 diferentes preços relativos, imaginem como fica mais complicado no casos das inúmeras mercadorias no mundo real. Sendo todos os preços expressos em uma unidade única, fica mais fácil também convencionar a moeda como um bem aceito por todos.
  • Como reserva de valor, a moeda pode ser usada para adquirir bens em diferentes momentos do tempo, ou seja, não precisaria trocar imediatamente a moeda por outro bem, mas em períodos futuros. Com isso, o poder de compra da moeda se mantém (num caso com inflação zero, mas mesmo com inflação positiva, ainda podemos usar a moeda como reserva de valor, desconsiderando do valor total inicial o quanto a inflação corroeu/depreciou desse valor).  Dessa maneira, oferta e demanda podem diferir em vários momentos no tempo, nas diferentes transações, ou seja, posso vender um produto hoje e comprar outro amanhã pois a moeda me permite isso. Há espaço também para pensar aqui em pagamentos ao longo do tempo, corrigindo o valor pela inflação (mantendo o valor inicial) e/ou corrigindo pelos juros (remunerando a decisão de não usar a moeda hoje em prol do amanhã).

Tendo isso em mente, pulando a história do desenvolvimento dos metais precioso aceitos como moeda para o papel moeda aceito de forma generalizada pelas pessoas, podemos pensar em como a moeda é demandada (admitindo que já exerce as características/funções acima). Surgiram diversos modelos de demanda por moeda ao longo do tempo, pretendo apresentar alguns.

Ainda seria prudente dizer que, dentro da teoria tradicional, existem três motivos principais que justificam a posse (demanda) de moeda: (i) motivo transação,  na medida que as pessoas usam a moeda para realizar gastos e pagamentos habituais; (ii) motivo precaução, pois as pessoas guardam dinheiro para eventos aleatórios (seja comprar um guarda-chuva num dia de chuva ou um sorvete num dia de muito sol); e (iii) motivo especulação, na medida que a moeda é considerada um ativo financeiro alternativo frente a outras aplicações financeiras que envolvem risco e retorno. os itens (i) e (ii) representam demanda de moeda para transações enquanto o item (iii) representa a demanda para efeito de portfólio, e os modelos de demanda por moeda giram em torno desses motivos.

Como qualquer bem, a demanda por moeda pode ser definida em função da renda e preço. Contudo, a moeda não determina o poder de compra que, no fundo, é o que é importante, ou seja, o quanto eu consigo adquirir de bens em função do valor da moeda que tenho, mas em função também do nível geral de preços. Assim, representemos a demanda por moeda como (M/P), onde “M” é a moeda (em inglês, M de “money demand”) e “P” o nível de preços. Como dito antes, a demanda por moeda é função positiva da renda “Y” (quanto mais renda, maior a necessidade por moeda) e função negativa do preço da moeda, que é a taxa real de juros “r” (quanto maior a taxa de juros, mais custoso é ficar com moedas em mão pois posso aplicá-la e ter um rendimento futuro maior a depender de “r”, ou seja, reduz-se assim a necessidade da moeda em circulação).

O primeiro modelo que surge é a Teoria Quantitativa da Moeda (TQM) apresenta a equação MV=PT (de maneira que “M” é a quantidade de moeda; “V” é a velocidade da circulação da moeda; “P” é o nível geral de preços; e “T” o número de transações. Segundo a abordagem de Fisher (Irving Fisher (1911), The Purchasing Power of Money), a equação também é conhecida como “equação de troca” e possui algumas características como: “V”, a velocidade da circulação da moeda, é constante no tempo e é função de fatores tecnológicos e institucionais e “Y”, que é o produto, é constante no curto prazo. Logo,

Ainda nessa abordagem, Fisher assume que a demanda por moeda é uma função do nível dado de produto (P*Y) e leva em consideração a dicotomia clássica que as variáveis nominais afetam apenas variáveis nominais e não reais. Assim, políticas monetárias, digamos, emissão de papel moeda, como já vimos em alguns momentos na história de nosso país, aumentam o estoque de moeda na economia, ΔM, e impacta diretamente o nível de preços em igual proporção, ΔM=ΔP, que nada mais é que a inflação!!!!! Nesse modelo, M é considerado apenas como meio de troca e não há nenhuma influência da taxa de juros sobre a demanda da moeda.

Ainda em relação à TQM, há a abordagem de Cambridge, que apresenta um tratamento diferente de Fisher, onde a moeda é não apenas “meio de troca” mas também é “reserva de valor”. O que difere também é que “V” não é mais constante pois há outros ativos que afetam o desejo de manter moeda em mãos, como por exemplo títulos que remuneram à uma taxa “r”. Dessa maneira, apenas uma parte do nível de produto nominal (P*Y) será demandada, digamos que uma proporção k. Assim, Md= k*P*Y (Md=demanda por moeda) e esse resultado se aproxima bastante da equação anterior:

O coeficiente k é conhecido também como coeficiente de Cambridge (ou coeficiente marshalliano) e pode ser interpretado como a retenção média de moeda em relação à renda nominal (P*Y). Nessa abordagem, uma mudança na taxa de retorno dos ativos pode alterar k (1/V).

Essas são apenas algumas equações que ajudam a entender alguns movimentos da demanda da moeda. Em próximos posts, apresento outros modelos mais conhecidos dentro da literatura economia.

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Responses

  1. muito boa a explicação…

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  2. Muuuuuito bom esse wordpress!
    Bem didático, explicativo, gostei!
    Parabéns! :)

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