Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 19/10/2010

Poder de compra e câmbio


Ah, o câmbio no Brasil…

Essa acalorada discussão (que não é única e exclusiva do Brasil), está tirando o sono de muita gente: dos exportadores, que vêem seus produtos com preços menos competitivos no exterior, frente a outros países como a China por exemplo; dos importadores, que ficam acordado para fechar negócios com a China, uma vez que o consumo no Brasil está bombando e não deve reduzir o ritmo de expansão tão cedo; dos consumidores, que passaram a ter acesso a inúmeros bens eletro-eletrônicos (celulares, computadores, etc.) a preços cada vez mais baixos (importados, em grande parte) que agora ficam plugados ao invés de dormir; dos especuladores, porque pra especular não pode dormir no ponto; dos economistas, que ficam inventando e reinventando medidas e dando palpites sobre o que o governo deveria fazer e quais as causas do câmbio sobrevalorizado; do governo, que tem que lidar com todos acima; e meu, que tenho insônia naturalmente.

O fato é: o Real está muito valorizado! Quanto? Todos sabem e tem números diferentes, o que equivale a dizer que ninguém sabe! Contudo, há esforços importantes para se determinar o quanto e, um desses esforços, segue a linha da paridade do poder de compra (PPC ou PPP em inglês, purchasing power parity).  Segundo definição do FMI (What is a “purchasing-power-parity (PPP)” exchange rate?) , a PPC entre 2 países é uma taxa de conversão entre as moedas envolvidas, como a taxa de câmbio. Essa taxa ,contudo implica na conversão de quanta moeda do país 1 seria necessária  para se adquirir a mesma quantidade de bens no país 2. Por exemplo, se para comprar um boné no país 1 custa $10 e no país 2, o mesmo boné (idêntico), custa $30, a PPC desse país é de 3 (ou 1/3, a depender do referencial). Normalmente essa PPC é medida em unidades de dólar, de maneira que se podem calcular diversas PPC entre países, dado os preços dos produtos em dólar. (Para mais informações sobre PPP, leia: “PPP Versus the Market: Which Weight Matters?“)

O exemplo mais real e bastante utilizado é o que a “The Economist” calcula: o Índice Big Mac. O “Burgernomics” (como é chamado também) é calculado usando a PPC e satisfaz a idéia de que um dólar deveria comprar a mesma quantidade de produto em qualquer outro país, sendo todas as comparações expressas em dólar. Para definir essa “quantidade de produto”, deve-se ter em mente que o produto deve ser o mesmo nos países analisados. Nesse sentido, “The Economist” compara preços de Big Mac’s, uma vez que é um produto vendido em todos os lugares do mundo e uniforme (características idênticas em todos os lugares). Sem a premissa de que os bens devem ser uniformes, idênticos e transacionáveis, é impossível calcular a PPC. Comparando a PPC com a atual taxa de câmbio entre países, é possível indicar se o câmbio está desvalorizado ou sobrevalorizado (expressos em relação ao dólar). Abaixo segue a última pesquisa do Índice Big Mac (14/10/10 – The Big Mac index: An indigestible problem), com as taxas de câmbio de 13/10.

Na primeira coluna estão os países, seguida do preço do Big Mac em cada economia expressos em dólar. Nos EUA o Big Mac custa US$3,71 enquanto esse preço no Brasil equivaleria a US$5,26. Como chegar nesse número? A quarta coluna traz uma relação das moedas em cada país e na quinta coluna a taxa de câmbio. Há algumas maneiras de se olhar a taxa de câmbio e elas variam ao redor do mundo. No Brasil costumamos dizer que a taxa de câmbio é de R$1,68/1US$, que me diz que preciso de 1,68 reais para comprar 1 dólar americano (ou que 1 dólar compra 1,68 reais), que está na quinta e sexta coluna. Poderia também dizer (na sétima e oitava coluna) que com um real eu consigo comprar apenas 0,597 dólares. Por exemplo na comparação dólar/euro, é muito mais usual trabalhar com a relação de $1,385 (sétima coluna).   Na oitava coluna apresento o preço do big mac na moeda local, dada a taxa de câmbio. No Brasil, o preço médio de um sanduíche desses é de 8,81 reais.

A análise importante aparece na coluna 3 e na coluna 10. O gráfico ao lado apresenta essa comparação. Parando para pensar um pouco, se o preço correto em reais do big mac é de R$8,81, dada a taxa de câmbio de $1,68, chego ao preço de US$5,46 para o Big Mac no Brasil. Esse preço é 41,8% mais caro do que se eu estivesse comprando Big Mac’s nos EUA. Poderia pensar que é melhor e mais barato para mim ir comer nos EUA do que no Brasil, se não fosse o preço da passagem. Mas digamos que eu pudesse pedir big mac’s dos EUA e eles serem entregues no Brasil. Tá, vai chegar frio, mas e se fosse um Iphone? Ou qualquer outro produto que seja possível esse tipo de analogia? Nesse caso haveria espaço para operações de arbitragem. Na medida em que a oferta de produtos no Brasil aumentasse, o seu preço diminuiria e, na medida em que eu reduzisse a oferta nos EUA (que estou desviando para o Brasil, uma vez que é mais lucrativo), a menor oferta levaria à um aumento de preços nos EUA. Essa situação se manteria até que o preço nos 2 países fosse igual (estou desconsiderando todas as barreiras à importação/exportação como tarifas, licenças, frete etc., para simplificar a análise). Dessa maneira, é possível afirmar que o real está valorizado e mensurar, 42%. Se a taxa de câmbio do Real em relação ao dólar estivesse 42% mais elevada (R$2,37/US$1), o Big Mac custaria o mesmo que nos EUA, US$3,71 e não haveria arbitragem.

A grande discussão então que existe é que o Real está forte e que a taxa de câmbio deveria desvalorizar. Nesse sentido, se tivéssemos uma taxa de câmbio dessas,  um produto nacional que custa R$100, custaria US$42,11 (câmbio de $2,37), ao invés dos atuais US$59,70 (Câmbio de $1,675). O produto seria 29,5% mais barato! A que custo? Bom, todos os importados (que já representa 20% da pauta de consumo nacional, ver reportagem do Estadão “Produtos importados já respondem por um quinto do consumo nacional” – 16/10/10) teriam o impacto dos 42% de preço mais elevado, que multiplicado pelos 20% da pauta de consumo e os 70% do peso de preços livres (preços não-administrados, que exclui gasolina, energia elétrica, remédios, transporte e outros itens de preços administrados) equivale a uma inflação de 5,9%, adicional à atual taxa de inflação! Se não for exatamente isso, gira em torno disso. Ora, inflação mais elevada requer uma política monetária mais apertada, ou seja, aumento de juros (!!!!!!), que não é bom pra ninguém, pois encarece o crédito e desestimula o investimento. Quem ganha? O setor exportador e o setor interno que tem que competir com a indústria estrangeira. Quem perde? Todo os resto. (para mais informações sobre Preços Administrados – FAQ)

Agora existe um outro racional que nunca é feito e que, na minha opinião é o que deveria ser levado em consideração. Voltamos ao argumento de que o Big Mac nos EUA custa US$3,71. Se a taxa de câmbio é de R$1,675/US$1, o preço do big mac no Brasil deveria ser de R$6,21, e não R$8,81. Por que o preço não é esse? Como reduzir esse preço? Qual a carga de impostos internos  e estrutura fiscal que faz com que o preço seja mais elevado? Qual a estrutura de legislação trabalhista que encarece a mão-de-obra no Brasil? Qual o custo do transporte dos insumos de produção,  produtos intermediários e finais? Porque temos que depender de uma estrutura viária que foi estratégia da década de 70 e desde então ninguém mais pensa em estratégia para o país? Porque ninguém mais pensa nisso? Cadê os incentivos de longo prazo para as indústrias nacionais (exemplo: abaixar o IPI e elevar só tem efeito de curto prazo, por mais efetivo que seja, a não quer que o governo abra mão dessa receita para sempre).  Onde está a inovação que é crucial para desenvolvimento de tecnologia e produtos mais competitivos? Porque não pensar que o câmbio está correto e que o preço em reais é que deve ser corrigido?

Acredito que o câmbio está sim valorizado, mas não acredito que seja a magnitude do Índice Big Mac, afinal não é o único bem na economia. Além disso, acredito que os itens acima como carga tributária, burocracia, legislação trabalhista, falta de investimentos físicos e em P&D (pesquisa & desenvolvimento), custo de frete e tudo aquilo que colocamos no balde de “CUSTO BRASIL” é que vai levar à mudanças no longo prazo. Acreditar que brincar de aumentar IOF ou impostos sobre importação vai resolver o problema é ingenuidade, só tem efeito de curto prazo, a não ser que seja pra ser levado a sério, tacar IOF nas nuvens e não em 6%, tacar alíquotas no máximo permitido pela OMC. Mas isso é bom? Não, é totalmente contra o caminho da globalização. Imagina se todos países resolvem fazer isso.

Talvez há mais lições a serem tiradas do Índice Big Mac do que normalmente são divulgadas. Essa mesma análise vale pra China, Malásia, Rússia, etc., países na outra ponta da tabela. Essas distorções de câmbio são mundiais, cada país com seu próprio conjunto de problemas, análises e soluções.

rodutos importados já respondem por um quinto do consumo nacional

Produtos importados já respondem por um quinto do consumo nacional

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Responses

  1. Bacana o seu blog!!
    Depois volto com mais calma pra ler o post.

    Cumprimentos!

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  2. muito bom…foi de grande proveito para mim…parabéns pelo excelente trabalho.

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  3. […] Você sabe o que é o “Fator Big Mac” (Big Mac Index)? Usado por economistas em todo o mundo, ele leva em conta quantas horas uma pessoa precisa trabalhar para comprar um Big Mac em seu país. O sanduíche brasileiro sempre esteve entre os cinco mais caros do mundo, tendo estado em primeiro lugar várias vezes. Saiba mais sobre o Big Mac Index no blog Economia e Finanças Fáceis. […]

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  4. Voce ainda acha que a taxa de cambio deveria desvalorizar? Temos que considerar a inflacao …..

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    • Essa é uma boa pergunta… o que se deve pensar é que não tem uma resposta certa, apenas pontos de vita… isso porque o câmbio mais desvalorizando contribuiria para aumentar a inflação, ao contrario do papel que teve até agora, segurando um pouco a inflação pois os importados estavam entrando mais barato no Brasil, mas isso valeu principalmente para os eletro/eletronicos… A inflação hoje foi mto pressionada por alimentos, serviços e transportes (combustível e também tarifas públicas).
      Acho que o câmbio tem uma papel marginal, pois o que sobe na inflação são coisas que não tanto a ver com o câmbio em si… Mas uma taxa de câmbio mais elevada (desvalorizada) pode fazer com que diminua o ritmo de consumo de importados ou que ao consumir o importado a renda disponivel caia e assim diminui também o consumo de outros bens… Pra resolver o problema da inflação temos que atacar o que está contribuindo para causar inflação, como ganhos saláriais acima do ganho de produtividade (é quase como se as pessoas tivessem mais dinheiro sem merecer), lucros excessivos em alguns setores onde o consumidor é que sai perdendo, as expectativas de inflação que contaminam a inflação de hoje, o BC que abriu mão de leve em combater seriamente a inflação, o crédito fácil e sem grande análise pra saber o perfil de quem está tomando o crédito… enfim, vale pensar essas coisas, com certeza tem muito mais a se discutir, mas é sempre uma questão de ponto de vista….

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  5. […] Nitidamente, quem mais sofre com esse aumento de preço acelerada e fora da realidade é o proletariado médio, que de modo nenhum possui seus salários em paralelo com o desenvolvimento do preço dos apartamentos na planta a venda, marginalizando esta enorme fatia dos brasileiro do alcance a moradia de padrão. Mesmo que os preços estejam perseguindo o boom da riqueza, ainda sim esta demasiadamente extraordinária a capacidade de compra do povo tupiniquim. […]

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