Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 28/03/2011

O custo da preocupação


Retomando a atividade do blog (que andava meio ignorado pelos seus criadores), o mais sensato seria começar com um post menos analítico e mais aplicado ou ligado ao dia-a-dia. O tema do “custo da preocupação”, se feito um exercício mental, pode dar margem para muitas interpretações e inúmeros exemplos. Abaixo, segue um relato fictício onde qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência ( e para garantir a coincidência, os nomes das pessoas envolvidas foram preservados, vamos chamá-los de “Simon” (S) e “Blume” (B), que são agentes racionais que maximizam sua utilidade dada suas preferências e restrições orçamentárias).

Durante uma viagem entre São Paulo e Ribeirão Preto (que dura na média pouco mais de 3h, dentro do limite de velocidade), já na chegada a calorenta cidade, “Simon” resolveu ligar para casa apenas tranquilizar a família e dizer que a viagem tinha sido boa, sendo já noite no momento. O exemplo de Simon não foi dos melhores, uma vez que ainda estava dirigindo, dando carona para Blume, quando tirou o celular do bolso e fez a chamada que iria mudar sua noite. Como Simon é estudante, tem celular pré-pago e não gosta de falar muito para não gastar os créditos e, como o pai de Simon não é estudante, ele não tem esse problema. Simon querendo apenas avisar que a viagem tinha sido boa, que estava deixando Blume em casa e que dai iria para seu “apê”. Ligou e foi bem direto ao ponto. Apesar disso, o pai de Simon ainda queria conversar, dizer que o Rogério tinha marcado o gol de número 100 e saber se na segunda-feira teria aula, saber se tinha muito caminhão na estrada e se já estava em casa (sendo que Simon já havia dito antes que estava dirigindo). Simon impaciente disse que depois entraria no Skype e conversaria, mas que estava dirigindo e não podia falar muito (claro que também por ser estudante e ter celular pré-pago). Ao desligar, recebeu uma mensagem de sua operadora no celular dizendo que aquela ligação (que durou 2min. e 4 seg.) tinha custado R$5,74 e que ainda restavam R$2,32 dos seus créditos. “Putz, tudo isso”, pensou Simon (e pensou também a restrição orçamentária de Simon), que comentou com Blume. “-Cara, acabei de gastar mais de 5 conto pra essa ligação! Poxa, só para avisar que tinha chegado bem” – disse Simon. Blume, esperto e agente maximizador de utilidade, perguntou por que não esperou mais 10 minutos e chegaria em casa e usaria o Skype. De fato, um bom argumento, mas Simon disse que era só pra dizer que estava tudo bem e tranquilizar a família (ou seja, há uma racionalidade também, mas informação assimétrica por não saber ao certo o custo da ligação interurbana pra SP).

“- Blume, poxa cara, acabei de gastar R$5,00 para tranquilizar lá em casa, mas falei pouco mais de 2 minutos. Caro né?!”. A conversa então seguiu nessa linha. “-Não sabia que custava isso pra uma conversa rápida, por isso liguei, mas se soubesse, de fato, acho que esperaria um pouco mais, chegaria em casa e usaria o Skype, que não custa nada!” – disse Simon (mas claro que o Skype custa, no mínimo a assinatura de internet que cai no final do mês ou o pacote de dados do celular ou a rede wi-fi de algum restaurante/shopping, sempre tem alguém bancando o serviço, é o que eu teria dito a Simon se eu o conhecesse, mas isso não é o foco do post.)

“-Quanto você pagaria então? Qual o valor que você seria indiferente entre ligar ou não ligar?” – perguntou Blume. “-Hummm, não sei, uns 2 reais?!” – disse Simon. Mas qual seria o valor que os pais de Simon estariam dispostos a pagar para saber que estava tudo bem, que não teve acidentes na estrada, que o carro não furou o pneu e por isso demoraram mais para chegar, que tinham parado num Graal (ou outro) para comprar uma água, que não tinham sido assaltados, sequestrados? Qual o custo da preocupação?! (Nesse caso a preocupação de Simon, que queria apenas avisar seus pais, de Blume que também queria dizer aos seus pais que já estava em Ribeirão e das famílias que sabiam que Simon & Blume pegariam estrada num país em que muitas pessoas morrem por falta da atenção de outros motoristas).

Seria possível modelar isso? Fazer um modelinho, estimar parâmetros e mensurar o custo da preocupação? Quais hipóteses deveriam ser assumidas? Quais variáveis deveriam ser testadas? Idéias?

 

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