Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 31/03/2011

Brasil – Uma perspectiva para 2011 (Update Mar/11)


Leia mais: EXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

Já faz algum tempo da última atualização desse blog em relação às expectativas de mercado em (Nov/10) e muita coisa se passou desde então: mudança de presidência, novos ministros, anúncios de cortes de orçamento e elevação dos juros (ok, isso não é tanta coisa assim).A economia brasileira não apresentou grandes revoluções nem mudanças de rumo, apresentando um cenário bastante positivo para  2011, contudo repete-se aqui um ponto já mencionado em posts anteriores, que 2011 não será mais próspero do que 2010 (que era uma percepção errônea de muita gente, já que 2009/2010 foram anos de “crise”). De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 25/03/11, o cenário de inflação acima da meta e juros acima dos 2 dígitos para combater a inflação estão bastante consolidadas para os próximos anos (percepção de mercado e um pouco de palpite meu também). Mantém-se a perspectiva que do ponto de vista de produção e PIB, as expectativas não param de trazer um cenário bastante positivo para o país, com menos otimismo para 2011 e algum rascunho do que pode ser 2012.

O Produto Interno Bruto  de 2010 cresceu 7,5%, num “most impressive” e “outstanding”, podendo incluir também o termo “chinese-like growth” (expressões que os mais otimistas gostam de atribuir). Bom, o ritmo chinês é mais forte do que esse, uma média de 10,9% nos últimos 8 anos (o famoso período Lula) enquanto o Brasil ficou num modesto 4%, no mesmo período (claramente um resultado muito bom, mas impossível de ser comparado com a China). Em 2011, é exatamente esse o resultado esperado para o crescimento do PIB pela pesquisa FOCUS (gráfico 1), o que ajuda a fortalecer o argumento de que o crescimento do PIB potencial brasileiro gira em torno de 4% a 4,5% (que é o resultado esperado para 2013, onde 2012 é de 4,3%). Isto é, crescer acima disso, somente com mudanças estruturais na economia e não do jeito que está! Ou seja, isso quer dizer que um aumento do PIB de 7,5% em 2010 é muito acima do que podemos crescer. O que significa crescer mais que o PIB potencial? Numa analogia, mais jovial, seria tomar uma série de latinhas de energético por algum tempo, sem parar, ou seja, quando acabarem as latinhas você terá não só um problema de saúde se abusar, como precisará descansar bastante, porque o corpo vai sentir falta de um estimulante que não existe mais (que foi o que aconteceu nesses últimos anos, em parte, fazendo uma crítica moderada). Mas qual o problema de crescer acima do PIB que de fato conseguimos produzir sem forçar a barra? Bom, o resultado pode ser visto na inflação (e não há como negar esse fato!).

Em 2008, a inflação (medida pelo IPCA, estatística medida pelo IBGE, e uma das bases para tomada de decisão do COPOM) foi de 5,9%, já acima da meta de 4,5%. Em 2009, considerado ano de crise, o esperado era que as pessoas deixariam de consumir e com isso reduziria a demanda agregada e a pressão sobre os preços. Bom, não foi bem assim, a inflação oficial foi de 4,3%, abaixo da meta para o Brasil, mas ainda acima do que é considerada uma inflação razoável para países desenvolvidos (em torno de 2% a 3%). Como 2010 foi um ano de recuperação (e aqui estou abusando dos jargões econômicos de crise e recuperação e definindo anos específicos para isso), era de se esperar que a inflação viesse mais alta, Somado a isso ainda, 010 foi ano eleitoral e sabe-se que política e economia andam de mãos dadas. A inflação no ano foi de 5,91%, BEM acima da meta na minha visão, e por mais de um motivo, citando apenas por cima: a demora do BC em subir juros (acho que ai tem um dedo de política do alto escalão e de estratégia do BC para fechar um período de 8 anos), a disputa e mudança de presidência das instituições (deixando mais frouxo o combate aos problemas na economia e mais improvável a tomada decisões impopulares), a injeção descontrolada de recursos públicos em obras do PAC  e aumento de funcionalismo público, a facilidade de crédito sem mensuração de risco (pública e privada) e a sempre presente especulação, principalmente no mercado imobiliário, que se me lembro bem foi o setor que provocou a última crise mundial. Dado que as instituições consultadas pela pesquisa FOCUS formam expectativas racionais com base nas informações divulgadas e vão corrigindo suas expectativas ao longo do tempo e também na medida que novas informações vão sendo divulgadas. É preocupante o gráfico que mostra a mediana das expectativas de mercado para o IPCA. No início de 2010, a expectativa era que a inflação de 2011 seguiria dentro da meta. Já em abr./10 começou a subir chegando a 4,8% (já acima da meta). Em ago./10 a escalada começou novamente e não parou mais, chegando a 6% a mediada das expectativas do IPCA em 25/03/11 (gráfico 2). Isso quer dizer um aumento no nível geral de preços de 6%, que deve ser puxado pelos alimentos, energia e serviços, que afetam muito o bolso da população no geral. No mês a mês (gráfico 3), a inflação de 2011 já começou mais alta do que a de 2010, o meio do ano a inflação esperada não parece apresentar resultado melhor do que 2010 e apenas no final do ano parece apresentar alguma melhora. E se o final de 2011 for mais parecido com 2010 (no que diz respeito à inflação), seria uma hipótese razoável? Pode-se dizer que no final do ano há uma aceleração de preços? É o que mostra a inflação em 2010, sendo assim, 2011 pode apresentar uma inflação ainda superior a 6%! Como combater a inflação?!

Essa é fácil (a resposta pelo menos é fácil, não a solução). Há a política monetária e a política fiscal, grosso modo. Do lado monetário da política, note que no gráfico da mediana das expectativas de mercado para o IPCA há também as datas das reuniões do COPOM. Desde a escalada da expectativa de inflação de 2011 em ago./10 (uma vez que a política monetária a ser adotada afetaria muito mais a inflação em 2011 do que 2010, pois muita coisa já estava definida), o BC insistiu em 3 reuniões sem tocar na taxas de juros SELIC (IPCA no gráfico 2, novamente; Selic no gráfico 4). Bom, pois isso afetou sim o final de 2010 que contou com uma sazonalidade mais forte do que a média, por exemplo, nos preços dos alimentos. Com isso a expectativa de 2010 subiu bem e foi de fato do que aconteceu. A expectativa do IPCA para 2011 não parou de subir dado que os agentes de mercado perceberam a “não-ação” do BC (que coincidiu com o período eleitoral!) e, mesmo com a nova presidência do Brasil e do BC, que já aumentou em 2 vezes consecutivas a taxa Selic, parece ainda não ter surtido efeito na inflação esperada para o ano (e isso é preocupante). Opinião minha é que se de fato a inflação esperada está nesse patamar é que há um viés para baixo na expectativa da taxa Selic para 12,25% no final do ano (gráfico 5), podendo ser mais elevada que isso, quem sabe chegar a 12,75% (já que 13% poderia ter um efeito psicológico muito forte). O fato dos juros estarem subindo agora é a base dos argumentos acima que o PIB estava acima do crescimento saudável que o país consegue sustentar, de que a inflação está em nível muito mais alto do que a meta (o que preocupa também é que isso não é uma novidade, ou seja, se existe uma meta, o que faz os resultados serem divergentes da meta? Ela não está sendo buscada? É uma fachada? Eu acredito na seriedade do BC, mas são perguntas que podem ser feitas). Do ponto de vista de política fiscal, essa é bem menos séria (na minha opinião). Alguns anúncios têm sido feitos em relação a cortes de gastos que no dia seguinte são desmentidos, o crédito continua sendo motor (energético) do crescimento, usado pelos BNDES e programas do tipo “minha casa minha vida”, que são positivos do ponto de vista de desenvolvimento de infra-estrutura mas negativos pela qualidade de muitos projetos e pela especulação que está sendo criada por esse motivo, sobretudo no setor imobiliário (e isso vai continuar até pelo menos a realização da copa de 2014 e desacelerando até a realização das olimpíadas em 2016 e uma caixa preta depois disso). O último ponto, já tendo cansado o leitor com tanto texto, é o fato do orçamento no Brasil ser autorizativo (se contrapondo ao impositivo), ou seja, um corte no orçamento não significa que vai ser gasto menos, significa que vai ter menos pra gastar. Qual a diferença? Imaginem um orçamento de R$1bi, que quer dizer que o governo PODE gastar esse dinheiro mas, dada suas eficiências e ineficiências, gasta R$800mi, no ano seguinte o governo anuncia que o orçamento é de R$950mi e no mesmo ano são gastos novamente R$800mi. O que mudou no gasto efetivo? NADA! Num terceiro ano, o orçamento cai novamente, para R$900mi, e o gasto efetivo sobe de R$800mi para R$850mi. Isso quer dizer que foi anunciado um corte no orçamento (que existiu) mas que o que aconteceu de fato foi um aumento dos gastos, logo, o contrário do que era esperado pelo público.

(bonito na foto?)

Sem medidas fiscais (principalmente de controle efetivo de gastos, não de anúncios apenas) ou monetárias (por exemplo, de contenção de crédito ou pelo menos de garantia de crédito de qualidade, para evitar possíveis bolhas), a inflação vai continuar alta, a resposta (espero eu) vai ser aumento dos juros (política monetária que depende do BC e não de decisões políticas, como gostamos de acreditar) e isso vai fazer com que o crescimento do PIB seja ainda mais fraco do que os 4% já esperados. De que adiantou crescer tanto antes pra crescer menos depois? Pra ficar com o índice de aprovação em alta? Pra ficar bonito na foto? Bom, 2011 deve ser um ano abaixo do que o Brasil pode crescer já que 2010 foi “forçado”, a inflação continua alta (de que adianta ter salário mais alto se a inflação está comendo ele?), os juros devem subir para conter minimamente a inflação, isso vai reduzir os investimentos produtivos, mas o povo continua feliz!


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