Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 13/04/2011

O problema do etanol


Não tinha certeza de como “apelidar” o título do post, mas não posso discordar que o álcool passou de solução à problema. Como assim problema? Bom, o álcool é um produto derivado da cana-de-açúcar, produto que nós brasileiros estamos à quase 500 anos cultivando. A grande solução veio na forma de usufruir da cana-de-açúcar de uma maneira um pouquinho diferente, não só produzir pinga, mel, açúcar, rapadura, mas também produzir o famoso álcool combustível ou etanol (nome politicamente correto). Agora, o etanol não é uma novidade assim de causar espanto, uma vez que essa estratégia de produção começou em meados da década de 70. Naquela época o programa do Pró-Álcool visava “substituir” ou reduzir (talvez caiba mais o verbo “diversificar”) a nossa dependência da gasolina, uma vez que os choques do petróleo tornavam extremamente custoso a importação do produto.  O programa começou bem, foram vendidos milhares de carros movidos à álcool até que… até que o preço do açúcar começou a subir no início da  década  de 80 e o preço do petróleo começou a cair já em meados da década. Assim, os usineiros que já começavam a deixar de produzir álcool pra focar na exportação do açúcar viram o preço da gasolina começar a cair e o álcool deixava de ser competitivo. O programa do governo desandou e parecia que tinha acabado ai a iniciativa brasileira. A tecnologia do carro flex deu novo ânimo à utilização do etanol como combustível dando a opção ao usuário de escolher entre gasolina ou etanol, a depender da competitividade de cada um (“and there was much rejoicing”).

A solução virou problema (para o usuário, não para os usineiros nem para os produtores de cana-de-açúcar, quando esses não são a mesma pessoa) quando a história do açúcar começou a se repetir. Os preços no mercado internacional subiram e mais uma vez os usineiros, agentes maximizadores de lucro, perceberam que era mais negócio exportar açúcar do que produzir etanol. Do ponto de vista da decisão individual, não há NADA de errado em realizar essa mudança (eu faria o mesmo, você não?). Do ponto de vista do usuário, bom, ai é um problema pois fica refém das oscilações do mercado internacional de commodities. O ponto que considero muito importante é o governo ser um agente que não é racional, uma vez que não maximiza nem lucro nem bem-estar social (cogitei que pode ser um agente minimizador de desutilidade e esforço). Esse agente perdido, primeiro, diz que o Brasil é um país que se vale de recursos renováveis na sua matriz produtiva, incentiva as montadoras a produzir os famosos carros flex, incentiva os produtores de cana-de-açúcar a plantar mais e mais (garantindo um % da mistura do álcool na gasolina), incentiva os consumidores a comprar carros flex e, até aqui, tudo anda bem. Agora, quando o incentivo do produtor/usineiros é maior para exportar açúcar do que para vender o etanol, ai a história toda vai pro buraco. Quem é usuários do etanol como combustível para veículos (afinal, melhor explicitar isso do que dizer apenas “usuário do etanol” e dar margem a uma duplicidade não muito saudável) se sente prejudicado. É fato que os preços oscilam, existe uma sazonalidade devido à safras e entressafras da cana-de-açúcar, mas quando os preços disparam, ai já não é esperado que seja normal.

O que fazer em casos como esse? Há algumas estratégias: (i) já que os usineiros preferem exportar açúcar do que produzir etanol, pode-se diminuir o percentual da mistura de álcool na gasolina, assim o preço da gasolina não precisa subir devido às especificidades do mercado de açúcar, liberando mais insumos para a produção de açúcar, tornando a gasolina mais vantajosa ainda e deixando os postos de gasolina com estoque de álcool sobrando. Assim eles não vão poder aumentar o preço da gasolina e não vão vender etanol…. a não ser que abaixem o preço (afinal os postos de gasolina também abusam nos reajuste dos combustíveis, basta apenas um mercenário aumentar o preço que os outros seguem, isso quando eles não combinam de fazer isso ao mesmo tempo). Com isso a gasolina fica mais competitiva mas, existe o problema da gasolina ser mais poluente que o etanol, logo, um problema de coordenação que o governo tem que interferir. Se essa não é uma estratégia boa, podemos pensar em (ii) estoques reguladores. Essa idéia eu já não acredito ser das melhores já que o governo não seria capaz de executar isso de maneira eficiente porque o governo não é eficiente mesmo. A idéia vai no sentido de acumular etanol nos períodos de safra, quando os preços caem, em grandes reservatórios e nos períodos de entressafra quando os preços sobem vender esse estoque, segurando o preço. Isso criaria uma especulação muito grande, agentes ficariam pressionando até que os estoques acabassem e assim a estratégia não daria certo, afinal a decisão de produzir etanol ou açúcar ainda não foi resolvida. Outra solução (iii) seria a transformação do etanol em commodity (produtos produzidos em larga escala, por diferentes produtores mas com características homogêneas, cotados em mercados mundiais). Assim as cotações (preços) seria muito mais transparentes, é uma estratégia que é defendida por muitos por ser uma solução que passa pelo mercado e reduz o poder dos produtores/usineiros nacionais (não encara o problema dos donos de postos de gasolina, mas joga alguma pressão neles). Assim cria-se um incentivo para que outras grandes empresas que já atuam na área dos combustíveis intensifiquem a atuação nos biocombustíveis, ampliando assim a oferta (uma vez que o grande problema não passa de uma questão de oferta e demanda). Bom, a intenção é boa, mas ai o etanol sofreria não apenas com as oscilações do açúcar mas também com as do petróleo ( já que é um produto substituto em alguma medida, um aumento da cotação do petróleo tornaria o etanol mais competitivo, logo é de se esperar que aumente a demanda e com a expectativa do aumento da demanda, como no curto-prazo as estimativas de produção não mudam muito, ou seja, a oferta não vai subir de um dia para outro, faz com que seja esperado também um aumento de preços lá na frente e com isso as pessoas antecipam esse aumento, resultado prático: sobe o preço do petróleo, sobe o do etanol). Há um ponto positivo entretanto que é o fato do problema da sazonalidade das safras e entressafras serem balanceados com produção nos dois hemisférios do planeta, que possuem as estações opostas e assim sempre ter safra em algum canto do mundo e assim os mercados internacionais poderiam produzir, exportar ou importar na medida que precisarem. Particularmente acho que isso faria o preço do etanol subir no curto prazo e achar um “patamar de mercado” com preços mais elevados do que temos hoje. Uma última estratégia (iv) que posso pensar é a mais polêmica, pois conta com interferência do governo nas decisões privadas (que pdoe criar um desincentivo à produção, mas que pode ser amenizado com outros incentivos), que seria a determinação por lei de um % da colheita destinada à produção do etanol, de maneira a manter os preços em níveis aceitáveis e com muito menos oscilação (pra mais ou pra menos). Isso permitiria também que nos momentos de baixa de preços de açúcar os usineiros destinassem mais produção para o etanol, abaixando o preço para o usuário, tornando o etanol mais competitivo e assim aumentando a demanda, de maneira a não fazer o preço cair  mas não cair tanto, mantendo a lucratividade dos produtores/usineiros.

O que penso é o seguinte: se nos momentos de dificuldade dos produtores dada as condições de mercado internacional, clima, pestes e outros problemas de lavoura, o governo os ajuda aumentando % de etanol na gasolina (e isso favorece a todos), nos momentos de bonança o governo deveria retirar esses incentivos, senão tem gente que está sempre ganhando e outros que não estão, no caso, a maioria, não só os usuários de veículos, mas se vocês pensarem que quase toda produção nacional é transportada por rodovias, sobe os preços dos produtos (aumento de custos), sobe os preços dos serviços (já que as pessoas prestadoras de serviços precisam de mais dinheiro para manter o padrão de vida, aumentando assim o preço dos seus serviços), sobe a inflação pra todo lado, dado o spillover na economia. Mas o governo não sabe bem o que faz mesmo, é tudo muito complexo que é melhor deixar como está, minimizando esforço e desutilidade.


Responses

  1. A visão do Marcos Sawaya Jank também é interessante

    http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110413/not_imp705543,0.php

    Marcos Sawaya Jank é PRESIDENTE DA UNIÃO DA INDÚSTRIA DA CANA-DE-AÇÚCAR (UNICA)

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