Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 29/07/2012

O problema do Desenvolvimento Sustentável (I)


Virou moda discutir desenvolvimento sustentável, então resolvi tentar desenvolver um raciocínio (em 2 posts), antes que ele me fugisse da cabeça. Não sei até que ponto a análise é válida (já que nem todo mundo precisa concordar), mas acho que pensando em grandes números é um exercício mental bastante válido e que pode ser melhor detalhado com o tempo. Contudo, antes desse raciocínio, acredito que convém uma explicação sobre as informações que vou utilizar. A ideia é apresentar uma análise  com dados referentes à última divulgação da Pegada Ecológica (publicação de  2012, com dados até 2008) e dados de PIB (fonte: Banco Mundial), que seguirá em um segundo post.

Primeiramente, convém explicar o que é a Pegada Ecológica (ou “Ecological Footprint” em inglês), ainda que de maneira breve. Existe um instituto que é responsável pela mensuração e divulgação da Pegada Ecológica, o Global Footprint Network (site). Segundo a descrição encontrada no próprio site,

The Ecological Footprint has emerged as the world’s premier measure of humanity’s demand on nature. It measures how much land and water area a human population requires to produce the resource it consumes and to absorb its carbon dioxide emissions, using prevailing technology“,

ou seja, é um indicador que tenta mensurar qual a demanda humana, ou exigência humana, sobre o meio ambiente, considerando o nível de atividade em que estamos, para atender ao padrão de consumo atual (com a tecnologia atual). É de certa forma uma maneira de medir o fluxo de ativos ambientais que usamos/necessitamos para sustentar nosso padrão de consumo. Esse indicador é medido em termos de hectares globais, ou seja, uma medida de área (equivalente a 10.000 m²).

Além da pegada ecológica, é calculado paralelamente um indicador de biocapacidade, que reflete, em hectares globais, a regeneração (natural) do meio ambiente. A diferença entre o hectare e o hectare global é que o hectare global considera apenas áreas produtivas do planeta. Um exemplo seria que áreas desérticas não são consideradas na composição dos índices, mas áreas em oceanos (que são utilizadas para pesca) são consideradas, tanto para calcular a demanda quando a biocapacidade dos oceanos, uma vez que se não pescarmos os peixes, eles tendem a aumentar naturalmente a sua “população”.

Se a razão entre a pegada ecológica e a biocapacidade do planeta for igual a 1, implica que a exigência humana sobre os recursos do meio ambiente é reposta na sua totalidade pelo planeta devido a sua capacidade natural de regeneração. Se for maior do que 1, a demanda humana é superior à capacidade do planeta se recuperar e, se for menor do que 1, o planeta se recupera mais rapidamente do que detonamos ele. Esse cálculo é, na sua origem, feita para os países, para que considerando todos os países relevantes (com população acima de 1 milhão de pessoas), possamos então pensar no planeta. Logo, há muitos países que apresentam a demanda ambiental muito acima da capacidade própria de suprir suas atividades/necessidades. Duas coisas podem acontecer a partir disso:

  1. Como existe um estoque de recursos ambientais, um desequilíbrio entre o que está sendo demandado e a capacidade de suprir essa demanda, considerando uma economia fechada, por exemplo, pode ocorrer temporariamente, reduzindo o estoque desses recursos. Claramente, quando não houver mais estoque, vai dar problema! Em que sentido? Não dá pra atender um certo padrão de consumo se não existe insumos para produzir o que está sendo demandado. É como querer comer 2 peixes mas só ter 1 no prato (no embalo do exemplo da pesca). No caso de considerarmos os desequilíbrios entre países, há uma solução, o comércio internacional. No caso de considerarmos um desequilíbrio planetário, não existe essa possibilidade, ou seja, reduzem-se os estoques até quando der.
  2. Devido ao comércio internacional, os países podem reduzir a pressão sobre seus estoques de ativos ambientais e podem “importar” ou suprir sua demanda via outros países. Como funciona? Por exemplo, os EUA querem tomar suco de laranja, mas não tem o suficiente para atender a demanda interna. Isso pode ser resolvido via importação de laranjas, ou do suco em si, do Brasil ou qualquer outro país. Assim, existe um impacto ambiental (ou exigência de ativos ambientais) dos EUA que acontece de fato no Brasil, nesse exemplo. A pegada ecológica considera a existência desse comércio e  atribui essa pressão como sendo americana e não brasileira. Um dos motivos que torna interessante esse indicador como indicador de sustentabilidade ou indicador exigência ambiental para atender a um determinado de padrão de consumo é levar em conta essas pressões que são de um determinado país, mas acontece em outro, atribuindo a pressão ao país em que o consumo está sendo realizado. O Japão é um exemplo claro de um país que conseguiu reverter o processo de desmatamento, por exemplo, e inclusive voltando a reflorestas áreas desmatadas. Isso não quer dizer que eles pararam de consumir madeira ou celulose, significa só que estão buscando em outro lugar, em algum país com legislação e proteção ambiental mais frágil (consegue pensar num país?). Bom, isso é bonito e faz muito sentido a existência do comércio internacional, mas quando consideramos o planeta como um todo, só vale o primeiro ponto e desequilíbrios têm que ser corrigidos em algum momento (ainda não fazemos comércio com a Lua ou Marte).

O ponto principal desses dois pontos é mostrar que países podem apresentar desequilíbrios entre a pegada ecológica e a biocapacidade própria, que pode ser coberto por outros países tal que o saldo possa até ser zero (ou a razão entre os 2 indicadores ser igual a 1), mas que o planeta tem uma limitação que não pode ser coberta dessa maneira. Os números apresentados a seguir são de acesso público e podem ser obtidos na página do Instituto (Global Footprint Network, site), assim como o último relatório com os dados por país e maiores informações sobre a metodologia utilizada na construção dos índices. A tabela abaixo mostra os resultados divulgados em 2012 (calculados com dados até 2008).

Posto isso, então fica mais fácil apresentar os dados referentes a esses 2 indicadores e qual a razão entre eles. A pegada ecológica, medida em termos per capita, com dados até 2008 (último cálculo disponível), indicou um valor de 2,7 hectares globais (gha). Esse número sozinho diz pouco, mas indica que são necessários 2,7 gha (ou 27.000 m²) de área produtiva para atender a exigência de cada indivíduo no planeta. As dimensões que esse indicador incorpora incluem, basicamente, alimentação (considera área produtiva para agricultura, pecuária e pesca em rios, lagos e oceanos), habitação e ocupação (área necessária para suportar as construções físicas feitas pelo homem, melhor exemplo, as cidades), exploração de florestas (considerando também o uso da  madeira para fabricação de celulose e uso como combustível, além do uso da madeira em si) e geração de energia (considerando principalmente a emissão de CO2, convertida em qual a área de floresta necessária para absorção do gás, podendo assim ser expressa também em termos de área), uma vez que energia é insumo fundamental em qualquer atividade produtiva e uma proxy muito usada do tamanho do indústria ou crescimento industrial.Apesar do número em si ter um valor pouco intuitivo, esse número torna-se mais interessante e intuitivo quando usado para fins de comparação entre os países. Nesse sentido, suponha que um país A tem a pegada ecológica (ou pressão sobre o meio ambiente) de 2 ou 3 gha, que pode ser 2 ou 3 vezes maior do que um país B, que tem a pegada ecológica de 1 gha. Assim, a pressão ambiental desse país A para atender o padrão de consumo dessa sociedade é mais elevada do que no país B.

Em igual proporção, a biocapacidade do planeta em termos per capita, por sua vez, indica valor de 1,8 gha. Isso que dizer que a capacidade de autorregeneração do planeta por pessoa é inferior à demanda ambiental, valendo então o primeiro caso, de diminuição dos estoques ou ativos ambientais. Da mesma forma, quando realizamos análises comparativas entre os países, um país C pode ter uma capacidade de regeneração superior em “x” à um país D. Mais uma vez, tomando um planeta Terra como um todo, pode-se pensar em 1,8 gha como uma biocapacidade per capita média para o planeta.

A razão entre esses 2 indicadores, a pegada ecológica e a biocapacidade, é de 1,52. Isso quer dizer que precisamos de em torno de 1,5 “planetas Terra” para atender o atual padrão de consumo, o que não me parece sustentável e indica claramente um desequilíbrio. No gráfico que segue abaixo, pode-se ver a evolução dessa razão, desde os anos 60. De 1975 em diante, a razão se tornou superior a 1, indicando o desequilíbrio no sentido de demandar mais do que o planeta é capaz de oferecer de maneira sustentável. No post seguinte “O problema do Desenvolvimento Sustentável (II)“, é contemplada a análise proposta pelo título do post e vale-se desse indicador de sustentabilidade e relacionando com a renda per capita (ou PIB per capita) dos países.

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