Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 02/08/2012

O problema do Desenvolvimento Sustentável (II)


Após ter sido apresentado (no primeiro post) um pouco melhor os dados que são utilizados, a parte do exercício mental pode ser desenvolvida. Como a idéia desse blog é abordar de maneira fácil e intuitiva algumas das questões econômicas do dia a dia, tomei a liberdade de criar uma analogia, na medida em que explico a questão, tornando também mais agradável a leitura. Para a melhor compreensão do post, é pouco necessária a citação abaixo, mas ainda sim muito ilustrativa!

The first little pig built his house out of straw because it was the easiest thing to do.

The second little pig built his house out of sticks.

This was a little bit stronger than a straw house. The third little pig built his house out of bricks.

(Versão Contemporânea de “The Three Little Pigs”, conto de James Orchard Halliwell-Phillipps de 1886)

Seguinto direto para a apresentação dos dados, na primeira tabela são apresentados os grupos de países por faixa de renda (definição em 2011, High income countries (HIC): renda acima de $12.476; Middle income countries (MIC): entre $1.026 e $12.475; Low Income countries (LIC): abaixo de $1.025 / $ em dólares, dados o banco mundial). A população total de todos os países dentro dessa faixa de renda está na segunda coluna e consolidada ao final (A Pegada Ecológica é calculada apenas para os países com mais de 1 milhão de pessoas, por isso o número é inferior aos 7 bilhões de pessoas). As demais informações da tabela têm como base o ano de 2008, o último ano para o qual foram calculadas as informações para a pegada ecológica. O PIB per capita é a renda média de 2008 de cada grupo de países e o PIB per capita mundial é a média ponderada dos valores acima (não é o PIB per capita mundial do Banco Mundial pois o grupo de países não é o mesmo). A Pegada Ecológica (P.E.) é da última divulgação do Instituto Global Footprint Network , em maio de 2012 (com dados de 2008).

(clique para ampliar)

Dessa forma, considerando os países analisados pela pesquisa, temos uma população total de 6.729 bilhões de habitantes, com renda per capita média de $9.950 dólares/ano (No Brasil, em 2008 a renda média foi de $10.045, o equivalente a quase R$21.000 com uma taxa de câmbio de R$2,00/US$, que está em torno de R$1.700 mensais). O indicador da  Pegada Ecológica Mundial é de 2,7 gha e o indicador de Biocapacidade 1,8 gha (para maiores explicações, leia o primeiro post sobre o assunto: “O problema do Desenvolvimento Sustentável (I)” ou acesse o site: www.footprintnetwork.org ).Com isso, a razão entre os 2 indicadores é de 1,52. Isso significa que a Pegada Ecológica (a pressão ambiental que as atividades humanas exercem sobre o planeta) é 1,5 vez maior do que a capacidade natural do planeta se regenerar. Com isso, é possível dizer que exploramos mais do planeta do que ele pode oferecer, de forma sustentável. Em outras palavras, estamos detonando o planeta. Enquanto houver estoque natural (florestas, petróleo, água limpa disponível, terras e pastos férteis), nós vamos consumindo, mas uma hora isso acaba (é verdade que pode demorar, mas a tendência é essa).

A analogia aqui será simples. Quem não se lembra das histórias dos 3 porquinhos? Suponha (como todo economista que começa um diálogo) que nessa economia existe 3 porquinhos, com os nomes HIC, MIC e LIC, para curiosamente bater com as siglas dos grupos de países. Por uma infelicidade do destino, eles não nasceram nem cresceram em iguais condições (com a liberdade literária que um autor de blog tem, vou exagerar na descrição abaixo, mas é para fins ilustrativos apenas).

 O primeiro porquinho é pobre, vive na lama e no cercado, teve poucas oportunidades na vida, tem baixo grau de instrução e saúde pouco digna, o porquinho LIC; o segundo porquinho teve acesso uma educação básica, uma alimentação descente e conseguiu através de muito esforço prosperar um pouco na vida e adquiriu um padrão de vida melhor, o porquinho MIC; e o terceiro porquinho foi empreendedor, estudou bastante, se alimentou bem, tomou todas as vacinas e estava sempre muito atento às oportunidades que apareciam e ficou rico, o porquinho HIC. Por causa disso, eles hoje têm um padrão de vida muito diferente. O LIC conseguiu construir uma casinha de palha e dorme no chão; o MIC construiu uma casinha de madeira e puxou um gato pra ligar um radinho, uma Televisão, uma geladeira, um fogão e um Playstation 3, tudo na mesma tomada; e o HIC construiu uma casa confortável, com piscina, garagem grande, aquecimento central , TVs LED e Plasma por todo canto, carro luxuoso, sala de cinema 4D, com grandes holofotes acesos à noite no jardim e um majestoso aerogerador (daqueles bem branquinho) pra captar energia eólica (e as vezes o LIC vai lá podar as árvores).

 Para sustentar esse padrão de vida, cada porquinho pode usar sua própria renda (a renda per capita da tabela, por exemplo). Também, cada porquinho pressiona de forma diferente o meio ambiente, para atender aos requisitos do seu padrão de consumo / padrão de vida (assim como na tabela 1). O MIC tem renda per capita 432% maior do que o LIC e o HIC tem renda per capita 505% maior do que o MIC. Mas o MIC pressiona o meio ambiente 68% mais do que o LIC, enquanto o HIC pressiona o meio ambiente 192% mais do que o MIC. A razão o crescimento do PIB e da Pegada mostra que a relação entre os dois indicadores não é linear.

Suponha agora que ou invés de existir apenas um porquinho HIC, um MIC e um LIC, exista 3 nações de porquinhos, com porquinhos  idênticos aos 3 porquinhos descritos, cada um dividido entre os grupos apresentados (e surpreendentemente com o mesmo nome da sigla dos grupos). São aproximadamente 6,7 bilhões de porquinhos, sendo 1,29 bilhões de LIC’s, 4,39 bilhões de MIC’s e o restante de HIC’s. A renda total desses porquinhos chega a 66 trilhões de dólares, sendo que os HIC’s tem quase 58% da renda total e vivem muito bem e os LIC’s possuem pouco mais de 2%, mas representam população superior aos HIC’s. A Pegada Ecológica total é a conta do indicador em termos per capita multiplicada pelo números de pessoas (ou porquinhos), assim como o indicador de Biocapacidade (onde estou considerando apenas o total, que representa a biocapacidade média planeta Terra). A área necessária total para atender a demanda humana ou para suportar o padrão de consumo atual é de 15.698 hectares globais (para explicação sobre gha ou hectare globlal, ver primeiro post) enquanto a área que o planeta é capaz de autorregenerar é de 11.948 gha. Esses dados aparecem na segunda tabela (abaixo).

(clique para ampliar)

Se assim for, tanto a Pegada Ecológica quanto o PIB exprimem, cada qual a sua maneira, uma medida de padrão de consumo: sendo a primeira em termos de exigência sobre o meio ambiente para atender as atividades produtivas demandadas; e a segunda, o poder de compra em si, que é como se paga a demanda.

Num cenário de melhoria de vida dos porquinhos, digamos que 10% dos porquinhos miseráveis melhorem de vida e ascendam ao grupo intermediário, ou seja, alguns LIC’s viram MIC’s. Suponha também que 10% dos MIC’s melhoraram de vida (ganharam na loteria, investiram no setor imobiliário nos últimos anos ou se tornaram exportadores de commodities, lembrando que os dados até 2008 pegam pouco da crise mundial). Esses 10% de MIC’s agora pertencem aos HIC’s. Essa simulação é feita na tabela abaixo. Com isso, já que a renda média de um porquinho HIC (na primeira tabela) é de $37.128, a renda total desse grupo sobe para $54,815 trilhões e a Pegada Ecológica para 8.263 gha (Obs: claro que o novo HIC tem renda per capita ao entrar mais baixa, mas o HIC que já pertencia ao grupo também pode melhorar de vida e a média no final se mantenha a mesma, é uma suposição para pode fazer a análise. Ou seja, quando um novo HIC entra no grupo, puxando a média pra baixo, todo o restante pode melhorar só um pouco, para puxar novamente a média para cima, tal que volte ao patamar anterior. Vale o mesmo para os outros grupos e para a Pegada Ecológica).

(clique para ampliar)

Nesse sentido, o crescimento médio da renda é de 21,3%, saindo de $9.950 para $12.070, em termos per capita. A área total requerida para suportar o nível de atividade que atende esse novo padrão de consumo dos porquinhos também aumenta (considerando que é claramente uma melhoria de qualidade de vida, consequência de um padrão de vida mais elevado e acesso a mais bens e serviços). Assim, torna-se necessário 10,9% a mais da utilização de hectares globais, de 15.698 para 17.416. Em termos per capita isso representa 2,99, superior ao 2,70 antes da melhoria de vida dos porquinhos. Contudo, isso não implica em uma melhoria da capacidade de autorregeneração das áreas do planeta. Pelo contrário, uma utilização mais intensa das áreas indicaria que a capacidade de se recuperar naturalmente do planeta Terra seria reduzido. Ao invés de reduzir, sob este argumento, o indicador, não se pode negar que a tecnologia pode ajudar o planeta a se recuperar, contudo não há nenhuma grande revolução que tenha impacto significante em vista. Por isso, é razoável e coerente manter o número de 1,8 gha per capita.

Dessa forma, a razão entre a nova Pegada Ecológica e a Biocapacidade é de 1,69. É necessário então 1,69 planetas Terra, 10,9% a mais do que antes, para suportar esse novo padrão de vida. Melhorar de vida é bom, todo mundo quer, possibilita acesso a novos mercados, produtos melhores, mais saudáveis, mais tecnológicos, mais sofisticados, serviços melhores, inúmeras possibilidades melhores! Mas consumir mais, demandar mais, querer mais, também pressiona o meio ambiente. Quando um país fica mais rico, ele pode comprar mais e isso culmina no aumento das atividades produtivas, que, segundo a Pegada Ecológica, pressionam o meio ambiente.

Nesse sentido, como ser sustentável? Os porquinhos mais ricos são os que mais utilizam os ativos ambientais, que o próprio planeta é incapaz de repor (sem contar aqui os recursos não renováveis) e todos os porquinhos LIC’s e MIC’s querem fazer parte dos HIC’s. Não me parece que o padrão de vida dos HIC’s seja algo que possamos dizer “sustentável”, mas é onde todos querem chegar.

A conta simples que inicialmente me motivou a escrever esses 2 posts foi a seguinte: da primeira tabela, a pegada ecológica per capita dos HIC’s é de 5,6 gha. Se todo mundo tivesse essa mesma pegada, considerando que a biocapacidade é a mesma (não tem porque mudar), a razão entre esses 2 indicadores seria de 3,15 : 1. Isso quer dizer que temos 1 planeta e consumimos 3,15 planetas, reduzindo o estoque de ativos ambientais que demorou milhões de anos para se formar, um saldo líquido de 2,15! Até onde dá pra isso continuar? Qual o limite? Vamos esperar chegar no limite?

Vale a pena pensar sobre isso, já que nessa história nem precisa de lobo mau!

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