Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 31/10/2012

Brasil – Uma perspectiva para 2012/2013 (Update Out/12 – parte 1)


Leia mais: EXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

A última atualização desse blog em relação às expectativas de mercado (em Jan/12) apresentou poucos dados finais da economia em 2011, mas  agora já temos todos os indicadores consolidados. Para desanimo dos mais otimistas que chegaram a falar que o Brasil crescia a taxas chinesas, nada como uma boa dose do remédio “tempo” para ver que isso não era verdade. Se uma andorinha não faz verão, um ano de PIB forte não faz economia chinesa. O que parecia a retomada do crescimento pós-crise de 2008, parece não ter se consolidado. A economia não está assim superaquecida como se acreditava (com crescimento de 5% ou 5,5% como o governo já tentou sustentar) e, aparentemente também está abaixo do seu potencial. O cenário de crescimento para 2012 é pífio e fica muito pior se lembrarmos de todas as medidas de estimula já adotadas pelo governo, que torna o resultado ainda mais pífio. Dessa forma, conseguimos  ainda perceber uma mudança de foco do Banco Central sobre como conduzir a economia (dando mais peso para o produto do que para a inflação, como é o caso americano, por exemplo). Até o momento, sem grandes impactos aparentemente, pois estamos muito distante do PIB Potencial (O contraponto é dizer que se não fossem as políticas adotadas, o resultado seria ainda pior, mas não pretendo fazer esse exercício no post). De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 26/10/12, o cenário de inflação (expectativa de 5,45%) se mantém já a muito tempo acima da meta (4,5%) mas já em patamar inferior ao teto de 6,5% e juros fecham o ano abaixo dos 2 dígitos (7,25%) que talvez não seja a taxa de juros necessária para combater a inflação (mas a taxa que estimula a economia). Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém (5,4% para 2013 e 5,24% para 2014), com convergência para meta no médio prazo (segundo o governo) e a taxa de juros que deve oscilar dentro da casa de 1 até 2014, mas indicando subida de até 9% no último ano (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção de mercado sobre vários indicadores econômicos).

  • PIB

Como tem sido praxe, é importante mostrar ao leitor que existem muitas maneiras de se olhar números. Geralmente, economistas, jornalistas e políticos, usam os números que mais convém, logo, a ideia de apresentar uma série de dados referentes aos mesmos números vai na direção de conscientizar e tentar ser transparente nas análises (sem tirar coelhos da cartola, como diz o ditado). A tabela parte de 2009, ano ainda fortemente influenciado pela crise de 2008, mas foca na análise de 2010 para frente (não que a crise não esteja mais presente, mas a crise mundial atual não é a mesma de 2008, pois outros elementos permeiam os debates). O Brasil parecia se recuperar rápido da crise e, ainda que 2009 tenha sido um ano fraco (crescimento negativo de -0,3%, que pode-se dizer que é praticamente uma estabilidade, ao invés de crescimento negativo), em 2010, ano de recuperação da crise, o PIB do Brasil cresceu 7,5% (segunda a última divulgação em 02/09/2011) e tudo ia muito bem. Como já apontado no post anterior, em 2011, aparentemente tudo voltou ao normal e a taxa de crescimento de 7,5% ( que era uma taxa irreal para nossa economia), reduziu para 2,7%. A expectativa para o crescimento do PIB para 2012, contudo, é de 1,54% (expectativa FOCUS em 26/10/12, ver gráfico), o que confirma o argumento que não estávamos crescendo 7,5% ao ano e foi algo bastante pontual. Estão na tabela abaixo os resultados que foram divulgados com o PIB até o 2ºSem. de 2012, pelo IBGE (colunas à esquerda em azul) e outros que não foram divulgados mas que enriquecem a análise (colunas à esquerda em vermelho).

De modo geral, pode-se ver na tabela que a parte destacada de verde para amarelo representa uma desaceleração da taxa de crescimento do PIB, com os resultados já apurados. O resultado acumulado ao longo do ano mostra que o PIB de 2012 até o segundo trimestre cresceu 0,6%, e que considerando os últimos trimestres essa taxa de crescimento vem caindo, trimestre após trimestre. O mesmo pode ser dito das outras possíveis análises, visto facilmente pela graduação das cores. Nos últimos quatro trimestres, a economia também desacelerou e cresceu apenas 1,2% em relação aos quatro trimestres anteriores. O que isso quer dizer? Quer dizer que as taxas elevadas de 2010 eram bastante elevadas e resultado matemático da recuperação da crise. Isso quer dizer que não teve crise e não teve crescimento forte em 2010?! Claro que não, mas o que se revela mais importante ao analisar o crescimento econômico do ponto de vista da dinâmica que realmente importa não são as variações ao longo dos anos, mas um crescimento sustentado de longo prazo. As oscilações são inevitáveis, mas, por exemplo, ao considerar o crescimento no trimestre em relação ao trimestre anterior (com ajuste sazonal) e o mesmo anualizado, podemos perceber que as taxas de crescimento são bastante baixas, para um país que acredita ter uma taxa de crescimento potencial em torno de 4%. No último trimestre, o crescimento de 0,4% com ajuste sazonal frente ao semestre anterior implica em uma taxa anualizada de 1,6% (ainda baixa). Dada essas visões, acredito eu, podemos criar um intervalo para uma eventual estimativa do PIB potencial do Brasil entre 2% e 4%, com uma média em torno dos 3%. Não adianta dizer que o PIB não é maior só por causa da crise internacional, que inibe as exportações pois o período anterior à crise também não era um período normal, se fosse não existiria crise.

 Dessa maneira, ao observar as expectativas de mercado da pesquisa Focus, o resultado da taxa de crescimento esperada para o PIB é de 1,54% e 4,0% para 2012 e para o biênio 2013/2014. O resultado para 2013/2014 me parece superestimado por 2 motivos: (i) acredita-se que esse seja o produto potencial do país; e (ii) a proximidade com a Copa do Mundo (e das Confederações, já no próximo ano), que pode haver grande liberação de recursos para infraestrutura (atrasada). As projeções do FMI são de 1.47% e aproximadamente 4% nos mesmos anos, em linha com as expectativas do FOCUS e abaixo do crescimento mundial, projetado em 3,3% para esse ano (para 2013, projeção de 3,6%). As projeções do governo para o ano que vem também sugerem um crescimento do PIB da ordem de 4%, mas aparentemente a afirmação do ministro Fernando Pimentel (MDIC), sugere que já estamos a 4% em termos anualizados, tal que devemos então esperar um crescimento de algo em torno de 1% no terceiro trimestre frente ao segundo trimestre de 2012. Acredito que é bastante difícil sugerir que o crescimento potencial do PIB possa ser de 4,5% ou 4% (condicional à demanda externa, pois impulsiona as exportações). Mais fácil seria argumentar que o PIB potencial é em torno de 3,5% ou 3% e que qualquer oscilação disso viria do setor externo, dado que nosso mercado interno é bastante sólido. Caso a demanda interna esteja muito aquecida, será necessário importar, que é o que vem acontecendo, e isso reduz o PIB, mas vale lembrar que se estamos importando, é porque a indústria nacional não é capaz de ofertar seus produtos a preços competitivos, algo a se prestar atenção.

Uma forma fácil de pensar em crescimento de longo prazo é olhar as taxas de crescimento do país por um período maior de tempo. O gráfico ao lado mostra que, tomando o ano de 2007 como base, considerando a crise e o ano pós crise e os anos posterior. Assim, a taxa de crescimento de 5,2% é o crescimento de 2008 frente a 2007. A taxa de 3,7%, em 2011, é a taxa de crescimento de 2011 frente a 2007, mas expressa em termos anualizados, como se fosse 4 anos seguidos crescendo à mesma taxa (obs: no período que o PIB cresceu pouco mais de 15%). Logo, a projeção de 2012 puxa a taxa de crescimento anual acumulada nos últimos anos para 3,3%, talvez mais em linha com o PIB potencial do país.

E por fim, em relação ao PIB, abrindo por setores na economia, pode-se ver como é volátil o PIB da Indústria e da Agropecuária. Em azul são dados efetivos, enquanto os tons de vinho são projeções tiradas das expectativas da mediana do crescimento por setor. Em 2012, esses 2 setores parecem estar puxando para baixo o PIB, enquanto o setor de serviços, mais sólidos e principalmente voltado para o mercado interno, deve crescer 2,36% em 2012. Também ao olhar os números para 2013/14, note que as taxas de crescimento de todos os setores são muito parecidas. A observação é mais uma crítica, pois, vendo que o PIB setorial varia bastante entre os anos e setores, não parece fazer sentido que eles cresçam na mesma taxa. Pode por um lado parecer preguiça dos agentes que preenchem a pesquisa, de não estar pensando nesse biênio. Por outro lado, principalmente no caso da agricultura que está sujeita a inúmeros fatores de ordem climática, de condição de preços dos produtos que muitas vezes são negociados internacionalmente para só depois pensar na safra, de crédito e etc, pode ser muito mais difícil fazer projeções. O mesmo poderia ser dito para a indústria, que pode depender do financiamento de longo prazo para construção de novos empreendimentos, expansão das plantas atuais e aquisição de máquinas e equipamentos. Me parece mais que ainda não estão pensando em 2013/14.

(continuação na parte 2…juros e inflação)

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