Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 05/09/2013

Endividamento das Famílias e Crescimento Econômico


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Foi divulgado pelo BC o endividamento das famílias brasileiras para o mês de junho desse ano. De forma consistente, o resultado bateu mais recorde ao fina do 1º semestre deste ano, quando atingiu 44,8% o endividamento das famílias com o Sistema Financeiro Nacional em relação à renda acumulada dos últimos doze meses . Em relação ao mesmo mês do ano passado, o resultado é 3,8% mais alto, sendo inclusive mais alto do que o resultado do PIB do 2º tri desse ano em relação ao 2º tri do ano passado (quando o endividamento era de 43,2%). O PIB anualizado na comparação dos trimestres cresceu 3,3%. Na prática, isso implica que as famílias brasileiras devem às instituições financeiras cerca de quase a metade do que ganham em 12 meses. A série de endividamento do Banco Central,  que começou a registrar os dados em 2005, está no ponto mais alto. Isso pode ser visto no gráfico ao lado.

Nesse sentido, pode-se imaginar que, quanto maior o endividamento, mais dinheiro foi emprestado às famílias, que deve ter sido usado para financiar imóveis ou bens de consumo, duráveis ou não. Esse estímulo ao consumo foi uma importante estratégia na condução da política econômica do país nos últimos anos. O crédito permite às famílias realizar principalmente compras de bens de preços elevados (carros, imóveis, por exemplo) e ir pagando aos poucos. Serve também para comprar bens de valor menor que, com o aumento do prazo dos pagamentos, resulta em parcelas menores e cria também estímulos ao consumo ao longo do tempo (ainda que no final o resultado do pagamento de juros torne o produto final mais caro). Assim, sendo o consumo das famílias um importante item do PIB nacional (entre 60% e 65%, dependendo da leitura do trimestre), segue uma análise curta do resultado desse indicador com o PIB.

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Nos dois gráficos ao lado, é apresentada, no eixo da direita (em vinho), a taxa do crescimento dos últimos 12 meses do endividamento das famílias (ou seja, em que velocidade o gráfico apresentado acima cresce). O que pode ser visto é que desde 2005 o indicador vem crescendo a taxa positivas mas decrescentes, com 2 picos de crescimento mais elevado, resultado das medidas anticíclicas do governo e quedas da taxa de juros. Nos último meses, contudo, há um ritmo bastante inferior ao ritmo de crescimento que vinha até então. Deve-se claramente atentar ao fato matemático que, sobre uma base de endividamento crescente, o ritmo de expansão naturalmente se torna menor. Contudo, há um certo esgotamento desse tipo de estímulo, que também reduz a expansão do endividamento. Além disso, nos dois gráficos ao lado, também são apresentadas as taxas de crescimento do PIB (esquerda) e do item de Despesa de Consumo das Famílias (direita). É bastante nítida a correlação entre essas duas taxas e a taxa de crescimento do endividamento das famílias. Isso, no fundo, é um reflexo da própria política econômica, que baseada no aumento do crédito, impulsionou o consumo das famílias e o patamar de crescimento do PIB.

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Outra forma de se concluir a mesma coisa pode ser vista no gráfico de dispersão ao lado, com a relação entre as taxas de crescimento do produto e despesas de consumo e endividamento. A relação positiva indica que quanto maior a taxa de crescimento do endividamento (eixo X), maior será o crescimento do PIB e do consumo das famílias (eixo Y, nos gráficos da direita e esquerda respectivamente). Esse resultado está longe de ser um exercício econométrico, mas aponta para resultados interessantes.  Em primeiro lugar, uma parte razoável dessa relação é explicada por essa relação linear. É muito claro que devem existir uma infinidade de outras variáveis que expliquem a variação do produto, sendo que essa é apenas uma delas. No primeiro gráfico, nota-se Y (taxa de crescimento do produto) é resultado de 0,4 X + 0,007. Na última leitura do PIB e Endividamento (12 meses), o crescimento do endividamento foi de 3,8%. Esse resultado sozinho impulsiona o PIB em 2,3% (sendo o oficial de 3,3%). Parte importante do crescimento do PIB desse 2º tri foi impactado pela agricultura, que não tem tanto a ver com esse indicador de endividamento das famílias. Por esse motivo, essa análise é simples, mas intuitiva, pois o resultado aponta na mesma direção do que de fato aconteceu.

No caso do resultado encontrado para as despesas de consumo das famílias, notou-se um crescimento de 2,3% nos últimos 12 meses (índice encadeado vs. mesmo trimestre do ano anterior), dados do SCNT (Sistema Contas Nacionais Trimestrais). Considerando o crescimento de 3,8% no endividamento nos últimos 12 meses, o resultado aponta para um crescimento de 3,1%, ou seja, superior ao encontrado. Dessa forma, aponta-se na mesma direção, mas não na mesma magnitude. Mais uma vez vale a ressalva que seria impossível explicar toda a variação na despesa de consumo das famílias apenas com 1 variável. Nesse caso, uma série de outras variáveis podem ter impactado o resultado final, levando-o a ser mais baixo do que o “predito”. Algumas dessas, caso alguém queira investigar, podem ser atribuídas a menor rendimento real dos trabalhadores (inflação em alta), maior taxa de juros no período recente, redução no ritmo de contratações no mercado de trabalho, redução da confiança no futuro e inadimplência, por exemplo, todas essas agindo a favor da redução do consumo das famílias.

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Se por um lado o aumento do crédito e do endividamento atuaram a favor de um PIB mais favorável, na medida em que aumenta o comprometimento da renda das famílias não se pode afirmar o mesmo. Os dados são da mesma pesquisa do BC, em relação ao comprometimento de renda das famílias com amortização, juros e serviço da dívida (com ajuste sazonal, pelo BC). Diferentemente dos gráfico anteriores, o resultado aponta para uma relação negativa entre crescimento do produto e crescimento das despesas de consumo das famílias em relação ao comprometimento da renda. Assim, quanto maior o comprometimento da renda (parcela da renda que é destinada ao pagamento das dívidas), menor são as taxas de crescimento de PIB e consumo. Ou seja, quanto mais eu aloco minha renda para o pagamento de obrigações adquiridas no passado, menos sobra para o consumo futuro (até que se pague as dívidas). As famílias têm ampliado o endividamento e também o comprometimento da renda, o que explica também o 2º gráfico em relação à redução do ritmo de crescimento do crédito e endividamento das famílias (eixo da direita, em vinho). Isso explica também o esgotamento desse tipo de política, que teve até o momento retornos positivos mas decrescentes, na medida em que aumenta a base. Segundo os resultados, dado o atual ritmo de comprometimento, poderia haver um crescimento da ordem de 5,7% do PIB ou do consumo. Se isso não se verifica de fato é porque existem também outros fatores (alguns já mencionados anteriormente) que explicam e puxam para baixo o resultado.

Em suma, é uma visão breve de um problema complexo. A ideia é contribuir para o debate sobre esse tipo de política econômica e o esgotamento dessa estratégia. Uma reflexão, para quem se interessa pelo tema.


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