Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 22/11/2013

Soluções inteligentes para pessoas inteligentes


Me impressiona realmente como as novas soluções para as cidades são inteligente e bem pensadas. A última novidade são os apartamentos de 19m² em SP. Pensem como é inteligente isso, baseado em construções de um país desenvolvido, o Japão, numa das cidades mais modernas do mundo, Tóquio. O Brasil é um país quase sem espaço, assim como o Japão, então adotar práticas de países semelhantes ao nosso é a melhor coisa que fazemos, pois podemos aprender com os outros, não é?

Um breve comparação entre esses dois países é dada na tabela abaixo. O tamanho em Km² é dado na segunda coluna e a população na terceira coluna referente a cada região. A densidade é a divisão da população pelo espaço geográfico, tal que é uma medida de aglomeração. Quanto mais alta a densidade, mais pessoas vivem dentro de 1 Km² (uma faixa de terra de 1.000m x 1.000m). Como pode ser visto, o Brasil é de longe muito mais espaçoso do que o Japão. Na medida em que observamos áreas mais povoadas e/ou mais urbanizadas, a densidade aumenta. Chega-se ao município de SP com 1,5 mil Km² para uma população de quase 12 milhões de pessoas, comparável a Tóquio com quase 10 milhões de habitantes em quase 2,2 mil Km². Não é preciso dizer que a vida urbana oferece muito mais oportunidades sociais do que a vida nem áreas rurais, mas assim como os benefícios, os males também são potencializados.

Tamanho (Km²)

População

Densidade (Km²)

Brasil

8.515.767,05

201.032.714

23,6

Sudeste

924.511,29

84.465.579

91,4

Estado de São Paulo

248.209,43

41.252.160

166,2

Município de São Paulo

1.522,99

11.821.876

7.762,3

Japão

377.873,00

128.057.352

338,9

Tóquio

2.189,08

9.945.050

4.543,0

Solução Inteligente de SP

0,000019

1

52.631,6

A concentração de pessoas no mesmo espaço é claramente um fenômeno que acompanha a urbanização, mas suspeito que do ponto de vista de planejamento das cidades, não existe nada planejado. O enorme apartamento de 19m² vai ter custo do metro quadrado de R$ 14 mil reais (link), ou seja, um preço final de R$ 266 mil. Possivelmente vai ser chamado de “apartamento de 1 quarto” como já vi outros anúncios, mas, brincadeiras a parte, me parece mais 1 quarto de um apartamento. No geral, deveria ser chamado de “studio” ou “Quitinete”, mas acho que o apelo comercial pelo nome não é tão bom. Segundo a reportagem, ainda,

“Estamos acostumados a fazer imóveis com 30m², mas esse projeto foi um desafio para nós”, diz o diretor do escritório, José Ricardo Basiches.

Eu achava que um desafio era transformar  o disquete no pen drive. De qualquer forma, o que mais me assusta é chamar esse tipo de iniciativa de tendência. Vamos aproveitar pra inchar mais as grandes cidades do que elas já estão inchadas. Ao invés de existir soluções de planejamento urbano, o melhor é ter mais pessoas no mesmo espaço mesmo. Um utópico poderia pensar que logo estaremos pagando pra alugar ou comprar uma câmara de dormir e ter espaços comuns de cozinha, banheiro, áreas de lazer, só que isso não é compatível com o sistema capitalista, como conhecemos tendo as liberdades e privacidades respeitadas. Ou seja, cada vez mais estão diminuindo o espaço, vendendo mais caro e chamando isso de solução inteligente. Segundo outra reportagem (link), o tamanho médio dos imóveis nos últimos 5 anos caiu 28% e os preços subiram 124%, ou seja, não é uma escolha morar num lugar pequeno, é quase uma imposição que está “sendo oferecida”.

Dados da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp) mostram que, em 2007, os lançamentos tinham, em média, 102,33 m² de área útil. Em 2012, eram 73,24 m², ou 28,4% menos.

Logo, quem vai morar num apartamento de 19m² só pode ser gênio mesmo, menos de 1/3 do tamanho médio dos lançamentos. Entendo que para muitas pessoas, é isso que vai dar pra comprar com o dinheiro. Entendo também que aumentar limites de uso de FGTS ou de limites de crédito imobiliário vai ter um efeito expressivo nos preços e efeito menor na quantidade, pois é o que  ocorreu no passado. Se isso é tendencia, teremos cada vez mais os empreendimentos imobiliários com espaços reduzidos e aglomerações urbanas cada vez mais densas. É possível de fato ter conforto em espaço tão reduzido? É uma melhoria de qualidade de vida? É uma condição de evolução ou de prisão? Acredito que somente gênios incompreendidos vão de fato achar essa uma solução inteligente, pois eu que sou apenas normal (acho) não consigo ver a beleza dessa iniciativa.

apartamento_quata_630

Apenas para finalizar, em recente reportagem a um jornalista que me perguntou sobre como resolver o problema do trânsito no centro de Ribeirão Preto, uma vez que a quantidade de automóveis aumentou e não havia vaga para todos, foi apresentada a solução de construir mais estacionamentos. Facilitar o acesso dos carros não resolve, só estimula mais carros a continuar aumentando o problema. Soluções de transporte urbano não são pensadas no país, como já sabemos. A proposta alternativa que eu fiz e que o assustou foi a de criar incentivos econômicos a outras áreas mais ao redor do centro, permitindo desinchar a região e promover crescimento e desenvolvimento também das outras regiões. Criar incentivos do tipo “criação de novos estacionamentos” ou “apartamentos de 19m²” não resolve problema nenhum, só estimula uma curta melhora no curto prazo (ou a sensação de melhora) e o retorno do problema potencializado no longo prazo.

Desenvolver o país não é concentrar! Morar em 19m² não é inteligente! Nós não somos o Japão!

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