Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 17/02/2014

Estratégias da Política Econômica recente (1)


Não é de hoje que os analistas vem criticando a atuação do governo na política econômica do país. Via de regra, sempre irá existir alguém para criticar o governo, seja por motivos políticos, ideológicos, técnicos ou por amolação, independentemente de quem está no poder. Eu espero que possa me incluir muito mais nas motivações técnicas do que na demais, mas fica a cargo do leitor julgar. Boa parte das críticas recente sobre as políticas ou estratégias econômicas adotadas podem ser agrupadas dentro do que os especialistas chamam de “modelo de crescimento baseado no consumo”. Há também críticas que não são direcionadas ao modelo de crescimento, mas o foco desse(s) post(s) é entender motivações, causas e consequências de tal estratégia (post 1 – post 2 – post 3 – post 4 – post 5 ).

Dentre os principais motivadores ou catalisadores de tal política, estão enraizados alguns fundamentos principais: (i) aumento do crédito; (ii) política de aumento de salário em termos reais; (iii) políticas sociais; (iv) políticas fiscais; (v) política monetária; (vi) emprego; (vii) comércio exterior e câmbio. Isso não quer dizer que houve interferência ou estímulos do governo de forma direta ou indireta para o desempenho desses fundamentos, com vou tentar descrever ao longo do post. De uma forma ou de outra, cada um pode fazer suas próprias análises e tirar conclusões com base no que pretendo expor. Por bem ou por mal, quem está no comado do país é a Dilma e uma crítica à política adotada é uma crítica a quem está no comando, que é quem tem poder de mudança ou influência em muitos dos fundamentos.

A questão do modelo de crescimento baseado no consumo depende fundamentalmente de estímulos, mas não apenas ao consumo. A dita “exaustão” do modelo baseado no consumo acontece muito mais pela falta dos estímulos à produção para atender ao consumo, que ninguém parece ter avisado ao governo ou que ninguém no governo nunca estudou economia.

De forma muito breve, com base no que é aprendido nas aulas iniciais de qualquer curso de economia, apresento um gráfico de oferta e demanda abaixo. A oferta (S, “supply“) é positivamente inclinada e a demanda (D, “demand“) é negativamente inclinada. O cruzamento da oferta e da demanda defini o equilíbrio do mercado e determina simultaneamente preço e quantidade. De forma leiga, para uma determinada quantidade de produto (ex: manteiga), dada uma determinada disposição a pagar dos consumidores, haverá um preço P1 (no gráfico) em que toda manteiga (Q1) será vendida. É um esquema bastante simples, mas funcional, para determinação de preços de mercado, sob condições de concorrência. Suponha agora que o governo crie incentivos para comprar manteiga (como por exemplo: uma linha de crédito para manteiga, aumento dos salários acima da inflação), estimulando assim o consumo. Isso faz com que as pessoas estejam mais dispostas a comprar manteiga no supermercado, aumentando assim a demanda. Isso faz com que a curva (reta) D1 se desloque para direita, para D2. Com a demanda maior, os produtores de manteiga (que não tiveram nenhum incentivo), os produtores podem aumentar os preços e o que de fato acontece é um novo equilíbrio no mercado em P2 e Q2, ou seja, mais consumidores comprando a um preço maior, pois tem mais renda ou crédito para pagar os preços maiores. Acontece que a curva S não se modificou, pois não houve incentivo nenhum aos produtores. O resultado final é um consumo maior e preços mais elevados (inflação). Imagine agora essa situação se repetindo indefinidamente, logo pode-se intuir que o consumo é crescente assim como os preços, correto?

Oferta e Demanda – Exemplo (Fonte: Pindyck, Microeconomia)

O grande problema é que não se pode consumir indefinidamente mais por alguns motivos, que estão presentes no gráfico: PREÇO e QUANTIDADE. O primeiro deles é que pode não haver mais produtos disponíveis para se consumir. O que fazer? Numa economia aberta, é possível importar, onde a lógica de oferta e demanda também vale. No Brasil estamos importando cada vez mais, não é o que vemos? O outro problema desse aumento exagerado do consumo são os preços, que nada mais é do que a conhecida inflação. Logo, quando há uma aceleração forte do consumo, há uma aceleração forte nos preços, ainda mais em condições de oferta constante. Os preços no Brasil, serviços de transporte urbano, serviços domésticos, construção, alimentação, turismo, está tudo bastante mais caro, não é? E com um agravante, é que continuam sendo reajustados e puxados pra cima, por motivos de que tudo está subindo, não é? Isso cria uma indexação e uma inércia que ficamos anos para conseguir nos livrar, mas a mente das pessoas não muda e num cenário de inflação moderada é desses jeito mesmo que as pessoas agem. Ou seja, o aumento de preços tende a se agravar num cenário desses.

Do ponto de vista prático, vejamos alguns dos estímulos pelos quais, implicitamente ou explicitamente, passaram a economia brasileira:

  • Crédito

O total de crédito do sistema financeiro, computadas as operações com recursos livres e direcionados, alcançou R$2.715 bilhões em dezembro de 2013, acumulando expansão de 14,6% no ano, comparativamente a 16,4% em 2012. A relação crédito/PIB atingiu 56,5%, ante 53,9% no final de 2012, relação que ficou em torno de 30% até o ano de 2005, quando houve uma mudança de tendência. No gráfico abaixo, há apenas os créditos por municípios (Estatística Bancária por município, ESTBAN). Essa é uma importante evolução, que capacitou indubitavelmente a condição de acesso dos brasileiros aos mercados.

Operações de crédito aos setores público e privado

Operações de crédito aos setores público e privado                                          ESTBAN (Estatística Bancária por Município)

Não é ruim o crédito crescer, mas há que se entender que crédito e dívida andam juntos, o que aumenta o perfil de endividamento da sociedade brasileira. Não vou discutir se o crédito crescendo é bom ou ruim, pois isso vai depender muito de como é a concessão desse crédito e dos efeitos colaterais de cada modalidade. Do ponto de vista prático, acho que isso motivou as famílias a consumirem mais, a terem mais bens e serviços que antes não tinham acesso e isso é bom! Essa foi uma estratégia clara do governo, aumentar o crédito, que foi possível devido a estabilidade e fundamentos macroeconômicos e solidez bancária no país (para os que não acham que os banco são sólidos, vejam os lucros desse ano ou de anos anteriores). A afirmação de que é uma estratégia clara do governo pode ser comprovada com base nos dados de estatísticas bancárias, disponibilizadas pelo Banco Central. Nas duas tabelas abaixo pode-se ver o total das operações de crédito no país por instituição financeira e algumas das modalidades mais importantes. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal (instituições públicas com inferência do governo na gestão) somam mais de R$ 1,1 trilhão, ambas a frente das instituições privadas, concentrando mais de 45% das operações de crédito no país. O Banco do Brasil é líder em quase todas modalidades apresentadas, com exceção dos financiamentos imobiliários, onde a CEF se destaca. Alguns outros bancos privados, como Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, etc. também seguiram as políticas e ampliaram o crédito, de forma que o sistema bancário todo ampliou a oferta de crédito.

ESTBAN - Estatística Bancária por município

Operações de crédito por modalidade,                                                   em R$ – ESTBAN, BCB

ESTBAN - Estatística Bancária por município (participação por modalidade)

Participação das instituições Financeiras por modalidade de crédito,              em % da coluna – ESTBAN, BCB

Sem dúvida, nota-se uma clara expansão do crédito no país nos últimos anos e com uma indiscutível presença dos bancos públicos. Tenho a plena consciência que isso melhorou (e muito) a vida de diversos trabalhadores, famílias, estudantes, aposentados que passaram a consumir mais e melhor. O ponto de destaque está na ferramenta de estímulo ao consumo. O exemplo prático pode ser dado pelo mercado imobiliário, em que houve alteração de limites de uso do FGTS, já que durante anos o Sistema Financeiro de Habitação (SFH) possuiu limite de R$ 300 mil. Em fevereiro de 2005, o teto foi elevado para R$ 350 mil. Em março de 2009, o teto foi ampliado novamente para R$ 500 mil (quando lançou o Minha Casa Minha Vida). No ano passado subiu para R$ 750 mil.

Quer uma explicação para os preços de imóveis? O valor limite de R$750 mil é 2,5 vezes os R$ 300 mil, pegue um apartamento que antes valia R$ 200 mil e multiplicado pelo menos valor, vale hoje R$ 500 mil. Some a isso as facilidades de crédito (menor taxa de juros, ampliação dos prazos e maior demanda e melhor capacidade de pagamento dos consumidores) e você tem um imóvel de R$ 600 mil, R$ 700 mil, faz sentido? Claro que essa política especifica foi responsável pelo aumento do crédito imobiliário, melhorou o déficit habitacional, deu um boom no emprego e na renda do setor de construção civil e atividades relacionadas (moveis, eletrodomésticos, serviços de acabamento, etc.), mas foi também responsável pelo aumento dos preços nos imóveis. Adicione um pouco de especulação imobiliária e cria-se o caos.

Enfim, nos próximos posts devo abordar os demais fundamentos citados anteriormente, para continuar a prover os elementos da análise das estratégias da política econômica recente (post 1 – post 2 – post 3 – post 4 – post 5 ).


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