Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 19/02/2014

Estratégias da Política Econômica recente (2)


Conforme foi iniciado no post anterior (post 1 – post 2 – post 3 – post 4 – post 5 ), o foco desse(s) post(s) é entender as motivações, causas e consequências da estratégia do modelo baseado no consumo. A dita “exaustão” desse modelo baseado no consumo acontece muito mais pela falta dos estímulos à produção para atender ao consumo. Para tal, é importante então ver como evoluiu a produção e o consumo nesses últimos anos. Conforme listado, dentre os principais motivadores ou catalisadores dessa política, estão alguns fundamentos principais: (i) aumento do crédito; (ii) política de aumento de salário em termos reais; (iii) políticas sociais; (iv) políticas fiscais; (v) política monetária; (vi) emprego; e (vii) comércio exterior e câmbio, dentre outros.

Desses fundamentos, muitos apresentaram importante melhora no período recente. Além do crédito (post 1 – link) são atribuídos ganhos importantes no que diz respeito ao emprego e à renda. Ora, esses dois efeitos somados dão margem para um deslocamento da curva de demanda bastante mais intenso se agissem separadamente (ver post anterior). O que de fato se observou foi uma política explicita (e importante) de recuperação do poder de compra do salário mínimo, ou seja, ganho real (aumento do salário mínimo acima do aumento da inflação). Além disso, houve sem dúvida um período de estabilidade financeira e crescimento constante, que precedeu a crise iniciada em 2008. Com isso, houve importante melhora das expectativas, do potencial de exportação, dos investimentos, a nível mundial. Isso rebateu na economia brasileira não só pelo lado do setor exportador, mas principalmente pelos produtores que atendem a demanda doméstica, de bens e serviços, o que motivou enormemente a contratação de trabalhadores.

  • Renda

A forma mais fácil (como quase sempre) de mostrar o que queremos dizer, em economia, é algum gráfico ou tabela, então não vou fugir dessa sina. A tabela abaixo mostra na parte da esquerda a política de recuperação do salário mínimo, ganhou força principalmente a partir de 2005. Há duas coisas que devem ser notadas principalmente e acredito que cada um pode escolher por si o que é mais importante: (i) a política de salário mínimo é uma estratégia eleitoreira; (ii) os ganhos reais do salário mínimo indiscutivelmente melhoram a população no curto prazo. Acredito que ambas as afirmações sejam verdadeiras e, melhorar o povo sempre vai ser algo a ser reconhecido. O salário mínimo, que era de R$200 em 2002 chegou a R$724 no início de 2014, em termos nominais. A inflação medida pelo INPC (que mede a inflação das famílias de baixa renda) subiu 110% no período enquanto o salário mínimo subiu 262%. A diferença de 72% é refletida no aumento do poder de compra (CONSUMO, fundamentalmente) da população. Também na economia como um todo houve aumento real de salários, como apresenta a parte direita da tabela. O Rendimento Médio Real Efetivo recebido pelas pessoas ocupadas (medido pelo IBGE) subiu menos do que o mínimo, mas chega a 18% acima da inflação.

Evolução dos Salários

Evolução dos Salários – Dados do Governo Federal e IBGE

O maior problema dessa política está na contrapartida esperada. No geral, aumentos de salário estão associados a aumento de produtividade no trabalho. Se isso não acontece, significa estar pagando sempre mais para alguém que continua fazendo a mesma atividade, no mesmo tempo, sem ganhos de qualidade, por exemplo. Dessa forma, se sustentada por muito tempo, uma política dessas vai gerar apenas aumento de preços. Basta ver que essa política tem sido aplicada recorrentemente nos últimos anos e que os preços (inflação) no Brasil tem ficado acima da meta também nos últimos anos. Reduz-se a igualdade, melhora a situação das pessoas, mas isso é insustentável no longo prazo, pois a inflação em algum momento vai corroer todos esses ganhos obtidos no passado.

No curto prazo, essa medida (apesar de todos os benefícios) é um forte estimulo ao consumo, somando-se aos estímulos via políticas de crédito, no geral.

  • Emprego

Um dos grandes motivadores do aumento do consumo foi também o maior número de pessoas com capacidade de consumo. Além do salário real em alta, as empresas contrataram mais. A RAIS mede anualmente a quantidade de trabalhadores formais na economia e o CAGED mede mensalmente o fluxo de admissões e demissões de trabalhadores formais com carteira assinada. Há uma leve diferença, tal que a RAIS é mais abrangente, mas em termos de tendências, os dois caminham juntos. Como o CAGED é mensal, a atualização é mais rápida. O que se observa é que desde 2003 em diante, foram criados na economia mais de 18 milhões de postos de trabalho, em termos líquidos (mais admissões que demissões). Essa massa de gente toda quer consumir, quer ter qualidade de vida, quer tudo o que passa na tv (como os demais). Agora essas pessoas podem ter o que não podiam, podem adquirir crédito bancário, tem renda, tem emprego, tem sonhos, tem desejos.

Evolução do Emprego

Evolução do Emprego – Dados da RAIS e CAGED

Para se ter uma ideia do impacto ou da magnitude disso, pode-se ver a taxa de desemprego das principais Regiões Metropolitanas no país. Em termos de tendência, há nitidamente uma queda. Essas regiões, sendo representativas em algum grau do restante do país, saíram de um patamar de desemprego de 12%, me média, para abaixo de 6%, com resultado nos últimos meses abaixo até de 5%. O mercado de trabalho está aquecido!

Taxa de Desemprego nas Regiões Metropolitanas

Taxa de Desemprego nas Regiões Metropolitanas

As decisões de contratação e demissão são no geral decisões privadas, mas são fortemente estimuladas pela percepção do futuro da economia. Como já foi visto, crédito e renda estão em alta! As empresas contratam mais pois haverá mais consumidores. Contudo, há aqui um grande ponto de atenção, pois na medida em que começam a faltar trabalhadores qualificados, a única forma de atrair um trabalhador para a empresa é oferecendo um salário mais alto, pois os demais não atendem os requisitos básicos. Começa assim uma briga por profissionais qualificados que é a base de salários. Salários mais altos apenas intensificam o efeito da renda descrito anteriormente. Começa assim uma flexibilidade maior pro profissionais não tão qualificados, que receberão treinamento no trabalho, e por ai segue, tal que a briga por trabalhadores se espalha por todos os segmentos, não apenas dos qualificados quanto também dos menos qualificados. Isso se dá de uma forma mais ou menos organizada em setores organizados (onde há contratos), mas nos serviços, por exemplo, que representam em torno de  60% da economia, há uma miscelânea generalizada e aumento de preços (salário do prestador de serviço = custo + lucro do prestador de serviços). Não é o que se observa?

Enfim, já foram três variáveis que ajudaram a puxar pra cima o consumo no país. Em economia, nos modelos que gostamos de trabalhar (o mainstream), o importante não é consumo é bem estar. Logo, gostamos de inventar fórmulas e modelos econômicos onde o importante é tentar mensurar (de forma objetiva) o bem estar (que é abstrato). Enfim, consumo é uma variável capaz de ser medida e que definitivamente tem impacto positivo no bem estar das famílias, logo, mais consumo significa maior bem estar.

Na continuação dos posts, abordo os demais itens descritos no primeiro da série (post 1 – post 2 – post 3 – post 4 – post 5 ).


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