Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 24/04/2014

Inflação + X% ?


Esse post é uma provocação, uma brincadeira, com alguma intuição de economia. Dito isso, vale também a máxima que “toda brincadeira tem um fundo de verdade”. Assim pretendo mostrar aqui algumas “contas de padaria” (sem desprestigiar claro as padarias modernas com máquinas registradoras, mas relembrando o tempo de quando as contas eram feitas no papel e “por cima” por assim dizer.

Em outras palavras, esse não é um post técnico e chato, mas uma aproximação (sujeita a críticas) e passível de erros e contribuições de melhoria. A provocação do post está no X da questão, como já está mencionado no título. De uns tempos para cá, vencemos o problema da inflação (acho). Criamos a URV, o Real e fizemos uma transição de sucesso para uma moeda mais estável e preços controlados. Muitos colheram os frutos da estabilidade da moeda (uns mais do que outros) e com alguns compromissos macroeconômicos assumidos (tripé: câmbio flexível, meta de inflação e superávit primário), o Brasil prosperou.

“Depois da tempestade, veio a bonança” e depois, pensando em ciclos, vem a tempestade novamente. Desde 2006 que a aplicação do reajuste do salário mínimo obedece à regra de INDEXAÇÃO de recomposição da inflação (medida pelo INPC) e um adicional equivalente à taxa de crescimento do PIB de 2 anos antes. Assim, volta-se a indexar preços na base da economia (jogada genial, sqn!). Fazendo a analogia com o futebol, é como substituir um jogador que está desempenhando mal por um outro com fôlego novo e, na segunda substituição, voltar o jogador anterior e tirar o novo.

A política de valorização do salário mínimo é importante? É! É sustentável? NÃO! Mas como elegemos sempre gente muito boa, tornamos LEI essa fórmula. Pela lei 12.255/10, “o inciso II preverá a revisão das regras de aumento real do salário mínimo a serem adotadas para os períodos de 2012 a 2015, 2016 a 2019 e 2020 a 2023″. Pela lei 12.382/11, oficializamos na lei a indexação.

A partir dai a base e todos os demais passam a ter um modelo mental que o reajuste deve ser de inflação + X %, e fica tudo indexado. É de fato uma ideia excelente pra quem é pouco produtivo e tem pouca qualificação melhorar de vida (já o governo também falha em dar  escolaridade). Mas serve para o país? No curto prazo, pode ser que sim (no caso de quem é beneficiado, mas no longo prazo não vale).

  • EXERCÍCIO

É possível fazer um exercício simples a partir de alguns dados que temos disponíveis. Suponham, apenas suponha (como os economistas geralmente começam suas explicações), que:

  1. Exista um país com uma população estimada de 202,4 milhões de habitantes, muito próximo da população do Brasil.
  2. Exista também uma pesquisa nacional de amostra de domicílios em que sejam constatados 93,915 milhões de trabalhadores, formais e informais (que equivale a 46,6% da população).
  3. Exista uma pesquisa de emprego do Ministério do Trabalho e Emprego desse país que, na última sondagem de emprego anual, registre 47,459 milhões de empregados formais (que equivale a 23,4% da população). O restante, pela diferença, seriam empregos informais.
  4. Um instituto de pesquisa desse país constate que cerca de 48,2 milhões de habitantes têm rendimento referenciado no salário mínimo, sendo 21,4 bilhões beneficiários do INSS desse país fictício. Os restante são trabalhadores.
  5. Em torno de 17% do emprego formal pertence a alguma sindicato ou categoria de classe, como mostram pesquisas sindicais do país.
  6. Cerca de 14 milhões de famílias, ou 50 milhões de habitantes, recebem algum tipo de bolsa do governo do país.
  7. Os demais habitantes sejam apenas denominados “demais” e não se enquadrem em nenhuma das anteriores.

Assim, pode-se representar a distribuição da população desse país em :

divisao_pop

Agora vem a a brincadeira. Algumas dessas categorias tem poder suficiente ou são incumbidas de representação ou interesses políticos, tal que consigam reivindicar (por elas próprias ou por terceiros) aumento nas suas rendas. Ai que começa um tal de “INFLAÇÃO + X%” para reposição salarial ou de benefício, afinal, ninguém quer perder.

  • SIMULAÇÃO

Vale dizer que pra simulação tentei usar dados que estão disponíveis e informações de acesso público. Assim:

  • Num período de pouco mais de 10 anos o salário mínimo teve valorização REAL de 72,3%. Isso também impacta os beneficiários da previdência.
  • Segundo pesquisas sindicais, o ganho real médio que conseguiu ser negociado foi de 1,5% a.a.
  • O valor médio da bolsa nesse país sofre reajuste médio igual ao Bolsa Família.
  • Os demais segmentos tem apenas manutenção do poder de compra, ou seja, não perdem com a inflação e nem ganham.
  • A inflação inicial é igual à meta de 4,5%. Existe um limite superior de 6,5%.
  • Existe uma parte do aumento de preços que pode ser coberta com aumento de oferta, tal que os preços não subam tanto.

Dado isso tem-se:

  • Ano após ano, os reajustes são feitos com base na INFLAÇÃO do ano anterior + X%. O X% é tomado com base em informações que de fato aconteceram no país fictício.
  • Nas últimas colunas, o aumento de oferta acumulado que foi capaz de segurar a inflação num patamar de 6,5% foi de 30,2%. A PIM-PF, pesquisa de produção física, foi, no período, de 29,3%.
  • A inflação acumulada no período, ano a ano, nas últimas colunas, chega a 6,3% ao ano (a.a.) no período. Ao mesmo tempo, o que foi observado é que a inflação medida pelo IPCA, acumulada e expressa em termos a.a., chega a 6,4%.

simulação 1Essa simulação parece aderir à realidade desse país. Caso não houvesse, por exemplo, essa política de salário mínimo (ressalto, por exemplo), a inflação nesse país seria contida mais. Por “politica de salário mínimo” quero dizer que não haveria o X%, apenas a recomposição da inflação, que por si só já tem um impacto na inflação devido a outras categorias. Um contingente enorme de pessoas não teria o tal dos 72,3% de aumento real, mas não perderia poder de compra. Isso também impacta em como as demais categorias se comportam. Supondo isso, a inflação que antes saia de 4,5% poderia chegar a 2,65%.

simulação 2

Um nível de inflação mais baixa também é benéfico para os reajustes nos anos seguintes, pois a base é mais baixa. Há uma série de benefícios associadas a patamares de inflação mais baixo, principalmente o que leva as pessoas não se viciarem a pensar sempre em indexar seus rendimento a INFLAÇÃO + X%

Salários também são preços! Logo, quando sobem demais, com certeza vão se apresentar de uma forma indireta nas métricas de inflação: IPCA, INPC, IGPs, IPCs,…. Os salários devem subir de acordo coma produtividade dos trabalhadores, isso é uma visão bastante comum na economia. Só dar mais pra uma pessoa que produz a mesma coisa não contribui com o país. Essa pessoa terá mais dinheiro para gastar num ambiente em que a produção não muda.

Exemplo: Zézinho ganha X e compra 10 unidades de Y. Luizinho ganha Z e compra 10 unidades de Y. Agora Zézinho ganha 2X e Luizinho também ganha 2Z, mas só existe 20 unidades de Y para comprar. Eles mantém a sua intenção de ter a mesma coisa que tinham antes. Então Zézinho vai gastar os 2X e Luizinhos os 2Z para comprar as mesmas 10 unidades  de Y (cada). O que custava X custa agora 2X e o que custava Z custa agora 2Z, para os mesmo 2oY de produtos na economia.

O que é isso? Inflação! Não parece muito próximo do que estamos presenciando no país? Vale a reflexão!


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: