Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 28/05/2014

Brasil – Uma perspectiva para 2014/2015 (Update Mai/14)


Leia maisEXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 23/05/14, o cenário de inflação (expectativa de 6,47%) se mantém não apenas acima da meta (4,5%) mas praticamente no teto de 6,5%, os juros fecham o ano em 2 dígitos (11,25%, acima da taxa de juros quando da última eleição presidencial) e possivelmente ainda não seja a taxa de juros necessária para combater a inflação. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém (6,0% para 2015 e 5,5% para 2016), com convergência para meta no médio prazo (segundo o governo) enquanto a taxa de juros que deve oscilar dentro da casa de 2 dígitos ainda nos próximos anos, indicando talvez um taxa de 1 dígito em 2018 (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção de mercado sobre vários indicadores econômicos). Nesse cenário, as projeções de PIB não passam de 2% em 2014 nem 2015, mas quem sabe em 2016.

  • PIB

pib_anual_20140526Essa semana sai o PIB do primeiro trimestre e provavelmente incorporando a revisão de 2013. De uma forma ou de outra, desde o ano passado que as previsões do PIB tem sido recorrentemente ajustadas para baixo. Na medida em que as coisas se tornam mais claras, vemos que o potencial de crescimento não era tão bom quanto pensávamos. Se por um lado há margem para que os economistas errem projeções (afinal, economia não é uma ciência exata), por outro há que se reconhecer todo o esforço em identificar o que puxa para cima ou para baixo os resultados do PIB e qual a tendência. Nesse sentido, espera-se para 2014 um resultado mais fraco do que 2013. Pior do que isso é que 2015 também não se apresenta com uma perspectiva positiva de crescimento (que ainda que apontando crescimento positivo, é um resultado fraco). Quem sabe em 2016 poderemos ter algo um pouco melhor, mas ainda sim as últimas revisões.

  • Juros

selic_efetiva_mes_20140526

 

No caso dos juros, é interessante olhar antes qual o movimento de montanha russa dos últimos anos. Só para contextualizar, no lindo e bonito período de crescimento pré crise, o PIB estava em patamar acima de 3% ao ano (média) e a preços (inflação) estavam subindo (aqui inclui-se também os salários que é o preço do trabalho, que também estava subindo). Assim, os ganhos de remuneração eram superiores à inflação (que era puxada pelo aumento dos salários, ou seja, vinha com uma defasagem). Sabendo desse problema, os juros (Selic) foram se elevando, se elevando até chegar em 13,75% a.a. no final de 2008 e início de 2009. Era o auge da crise e das incertezas mundiais. Logo, o que se seguiu para manter a atividade econômica aquecida e evitar o risco da recessão, corretamente, o BC entrou numa importante rota de queda de juros (ainda que a inflação não estivesse assim tão confortável), para evitar uma piora na economia do país. Os juros despencaram para 8,75% a.a..

Passado o período de turbulência maior e vendo que o Brasil dependia muito mais de fatores internos do que externos, com sólida posição em reservas, as incertezas se reduziram e os problemas de antes voltaram ao patamar que vinham antes da crise. Ou seja, a inflação que estava em alta continuava em alta, pressionada por (i) reduzida capacidade da oferta interna em acompanhar a demanda, (ii) políticas salariais sem responsabilidade, (iii) baixa oferta de mão de obra qualificada (que pressiona duplamente os salários), (iv) gastos fiscais em alta, dentre outras. Solução? Combater a inflação em alta com política monetária, ou seja, aumentando os juros. Funciona nos livros texto de economia que é uma maravilha, mas quando os 4 itens enumerados acima não dão sinais de enfraquecimento, de nada adianta a política monetária. É como querer puxar o manche do avião com piloto automático ativado e travado. A trajetória já estava dada e os juros não teriam o efeito na magnitude esperada.

Com isso em mente, a atual gestão deve ter aberto um livro texto de “Introdução a Economia” e decidiram que era bom então baixar os juros, pois estimula o crescimento apesar de tolerar um pouco mais de inflação. No mesmo período (final de 2011) tomou posse um novo presidente do BC. Para quem se lembra, na época, a presidente afirmava que os juros iam cair e foi o que aconteceu. Deu margem para muita especulação sobre a interferência do executivo na pseudo-autonomia do BC. Seja isso verdadeiro ou falso, o fato é que os juros entraram novamente em queda livre nesse período, saindo de 12,5% a.a. para 7,25% a.a. no final de 2012. Resultado concreto é que o crescimento continuou muito fraco, a geração de empregos se reduziu bastante e a inflação acelerou. Muita gente na época já alertava para isso. Diferentemente de antes em que o crescimento econômico e salarial superava os efeitos negativos da inflação, com o crescimento baixo as mazelas da inflação superam os ganhos econômicos, ou seja, há um desconforto da população agora com a alta dos preços. Solução? Aumentar juros novamente (sem resolver ainda alguns dos itens enumerados acima, com a demanda agora pressionando um pouco menos), como aparece no gráfico acima.

Assim saímos dos 7,25% a.a. para chegar em 11% a.a. no meio de 2014. Acho que alguém abriu novamente o tal livro de “Introdução a Economia”. A presidente chega numa taxa de juros mais elevada do que quando assumiu o mandato e descobre que forçar as decisões para se chegar onde quer (top-down) é menos efetivo do que criar estímulos para que as mudanças aconteçam e as pessoas possam tomar suas decisões sobre qual a melhor forma de trilhar seus caminhos. Somados a isso, a sociedade exige mudanças, cobra melhorias (bottom-up). O estilo gerencial da presidente entra em conflito com os anseios sociais. Isso também é resultado da economia crescendo menos, já que o negativo de decisões erradas são maiores do que os ganhos, nos últimos anos.

selic_final_anual_20140526Com isso em mente, olhar para frente não é mais animador. Espera-se uma manutenção dessa taxa de juros até o final do ano, possivelmente chegando a 11,25% a.a. no final de mandato. Seja 0,25% a.a. para mais ou para menos, não foge desse patamar. De forma pouco otimista, projeta-se ainda um aumento dos juros para 2015, que chegaria, segundo as expectativas de mercado, a 12,00% a.a.. Em 2016, quiça, os juros caem, mas a trajetória das expectativas desde o final de 2012 é de revisões com tendência de alta, como mostra o gráfico acima.

  • Inflação


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Se os juros não estão lá apontando para um cenário positivo, grande parte disso é explicado pela inflação. Com exceção de janeiro, em que a inflação em 2014 veio abaixo do mínimo do intervalo das expectativas, fevereiro, março e abril vieram não só mais elevados, mas até ultrapassando o máximo das expectativas. Para os próximos meses, é esperada uma inflação acima do que veio no ano passado. Em ano de copa vai ser muito mais difícil segurar aumentos de salário de categorias que tem impacto na inflação, principalmente transporte urbano. Logo, o resultado de jun/jul/ago pode ainda ser mais elevado. Isso é fácil de perceber nos noticiários, as inúmeras greves que tem surgido ao redor do país. Vale lembrar que há o potencial do aumento represado do preço dos combustíveis e da energia elétrica. Nesse ritmo, a inflação deve terminar o ano no teto da meta de inflação (6,5%), que parece ter virado de fato a meta, a julgar pelo resultado dos últimos anos.

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Com isso, a inflação anual se aproxima do teto, resultado idêntico ao de 2011 e apontando uma piora em relação a 2012/2013. Desde o inicio de 2012 que a projeção se descolou do centro da meta e em poucas ocasiões houve melhora. O mesmo acontece para o resultado esperado para 2015, com inflação chegando a 6% a.a.. Isso é péssimo para economia, que tem que reajustar preços a todo instante e, no caso de não haver como, há um controle dos preços administrados, criando uma defasagem artificial na inflação e um prejuízo para as categorias afetadas (vide o caso Petrobrás). Além disso, inflação alta com crescimento baixo é uma força que corroí o poder de compra do cidadão comum. A sensação de poder comprar menos aliada a sensação de alta tributação e péssima qualidade do retorno dos impostos (na saúde, educação, segurança, etc.) é como uma bomba relógio, que já explodiu no meio do ano passado e pode acontecer novamente.

Ou seja, das poucas perspectivas que existe para o Brasil voltar a crescer e melhorar a vida por aqui, o melhor mesmo é deixar acontecer a Copa do Mundo. Vamos torcer para o Brasil ganhar, porque é uma das poucas alegrias que poderemos ter nos próximos 4 anos. Assim que acabar a Copa vem um período que vai ser bem mais difícil de assistir e, a depender do resultado, ainda mais difícil de torcer por qualquer coisa de positivo.


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