Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 30/06/2014

Acabando o fôlego


É indiscutível que nos últimos anos o mercado de trabalho no país passou por uma mudança histórica de patamar. Entre 1999 e 2013, passou  a incluir praticamente o dobro de trabalhadores, saindo de 24,9 milhões de trabalhadores para algo em torno de 48,5 milhões, com base na RAIS e em estimativas.

Segundo dados de rendimento médio real (Pesquisa Mensal de Emprego – IBGE), de março de 2002 a abril de 2014, o rendimento médio real habitual das pessoas ocupadas cresceu 17,3% (ou seja, o crescimento acima da inflação). Considerando esse período, são 28 milhões de trabalhadores ganhando 17,3% mais (ou o equivalente a quase R$ 300 mensais a mais), somados a mais 20 milhões de trabalhadores (no período) que entraram no mercado de trabalho, que aponta média de rendimento em torno de R$2.000. Isso é MUITO superior, mais uma vez, MUITO superior à qualquer política social nos últimos anos.

O que causa enorme impacto no Brasil, em termos de redução de desigualdade, distribuição de renda e justiça social, é o mercado de trabalho. As política sociais são importantes, mas não chegam perto à magnitude dos números do mercado de trabalho. Entre 2003 e 2013, o bolsa família dedicou à assistência das famílias cerca de R$ 230 bilhões, no total e em valores constantes. Apenas o incremento de renda real dos trabalhadores que já estavam no mercado de trabalho no início do período (ou seja, sem considerar os novos trabalhadores) injetou na economia mais de R$ 260 bilhões, em valores constantes. Soma-se a isso a entrada dos novos trabalhadores com o aumento real de rendimento, são mais de R$ 3,1 trilhões, calculando as devidas contas. Tira-se dai que é muito melhor uma pessoa ter um trabalho do que depender de auxílio financeiro de qualquer tipo. Disso tira-se também que qualquer política social SUSTENTÁVEL deve ser voltada à inclusão de pessoas no mercado de trabalho e não apenas à transferência de recursos.

Vista a importância do mercado de trabalho, vale agora dizer que ele não vem apresentando a trajetória esperada para melhora da economia (como foi visto no últimos anos). De janeiro a maio, em 2014, foram criadas 467 mil vagas no total, uma média de 93 mil empregos mensais. Esse número vem decaindo desde 2010, ou seja, apontando uma forte desaceleração na criação de empregos. Essa situação leva muitos economistas a começarem a utilizar o termo de estagnação da economia, motivada também pelo baixo crescimento econômico que temos observado. O gráfico abaixo apresenta a trajetória do mercado de trabalho no período de janeiro a maio, ano a ano. Vale destacar que os últimos 4 anos apresentam resultado inferior aos 4 anos anteriores, ou seja, numa trajetória de evidente piora no contexto econômico e de geração em empregos (obs: média dos períodos em barras e destacado no gráfico nos boxes).

emprego acumulado jan mai desde 2000

Nos últimos anos, é bastante nítida a criação acumulada de empregos no período citado. Em 2010, recuperando de um ano de crise, foram criadas mais de 1,2 milhões de vagas. Em 2011 já iniciou-se o processo de desaceleração, com pouco mais de 1 milhão de vagas criadas no período, ainda bastante positivo. Em 2012 foram 737 mil empregos, seguido de 533 mil empregos em 2013. É fácil vem que 2014 está pior, é um fato.emprego acumulado jan mai totalDo ponto de vista setorial, no acumulado de 12 meses, também nota-se que o efeito da redução de postos de trabalho afeta toda a economia. O setor de serviços era o que mais vinha crescendo, puxando os bons resultados. De 2010 em diante houve uma mudança no ritmo de geração de empregos, perdendo força ao invés de acelerar. O resultado disso ainda é a criação de empregos, mas em ritmo mais baixo. Ainda os serviços ameaçaram uma recuperação, mas estão em nível estagnado, como pode ser visto no gráfico abaixo. O setor de comércio é outro que também perde ritmo de crescimento e aponta para um patamar estável de criação de vagas nos últimos meses. A indústria não apenas perdeu o ritmo de criação de emprego, como está atualmente em patamar próximo de zero. Em realidade, nos últimos 12 meses, foram fechadas 15 mil vagas na Indústria. Não obstante o setor de construção civil também não vai bem no país, tendo criado apenas 1 mil vagas nos últimos 12 meses, muito diferente dos meses de 2010 onde chegou a criar mais 300 mil vagas no acumulado de 12 meses. A agricultura tem se mecanizado e dependido desse ganho de produtividade para aumentar a produção, mas isso claramente tem pouco reflexo em novas contratações, como se observa no gráfico.emprego setores 12 meses  Considerando o mesmo período analisado de janeiro a maior, do ponto de vista setorial, é também fácil de ver a desaceleração do número de vagas criadas. A bandeira do desemprego nos últimos 4 anos é MUITO mais fraca do que qualquer um pode dizer. Nos últimos anos, nos primeiros 5 meses, houve redução de vagas no setor de comércio da economia, que é preocupante! Se o setor de comércio vai mal, é porque o resto também irá piorar, já que não há vendas. Na Indústria e na construção civil há queda do ritmo de contratações. Muito provavelmente a mão de obra que está sendo absorvida pelo setor de serviços não é de  alta qualidade, mas é o que tem por ai, para ocupar as vagas. Basta ver o número de reclamações em qualquer site de notícias, referentes ao setor de prestação de serviços na sociedade (e comparar com os elogios ao setor de serviços). Bem ou mal, é o que está salvando os números de emprego no país, mas a questão da qualificação é algo a se debater.

emprego acumulado jan mai setores

Considerando 2013 e 2014, em quase todos os subsetores IBGE há redução do resultado de criação de emprego. As colunas referentes aos anos indica a criação de empregos enquanto a coluna final indica a trajetória. Ou seja, em 2013 foram criadas mais de 15 mil vagas na indústria mecânica (04) e apenas 2,3 mil em 2014. Segmentos do comércio varejista, indústria do material de transporte (06), produtos alimentícios, bebidas e álcool (13) estão fechando vagas. As atividades de serviços de saúde, ensino e serviços de alojamento e comercialização e administração são exemplos de segmentos que estão com uma melhor dinâmica nesses primeiros meses, mas o saldo final ainda aponta para perda de fôlego e de dinamismo geral da economia.

emprego acumulado jan mai subsetores tabela


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