Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 04/11/2014

Brasil – Uma perspectiva para 2014/2015 (Update Nov/14 – parte 1)


Leia maisEXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 31/10/14, o cenário de inflação (expectativa de 6,45%) está bem acima da meta (4,5%) e no limite superior de tolerância de 6,5%, os juros fecham o ano em patamar acima de quando a presidente assumiu (em 11,25% até dezembro), com risco de chegar a 11,5% pois pode não taxa de juros necessária para combater essa inflação. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém (6,32% para 2015 e 5,53% para 2016), com convergência para meta no médio prazo (segundo o governo) enquanto a taxa de juros que deve oscilar dentro da casa de 2 dígitos nos próximos anos (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção do mercado sobre vários indicadores econômicos). Nesse cenário de inflação e juros altos, as projeções de PIB não passam de 0,24% em 2014; 1% em 2015 e 2% em 2016.

  • PIB

Me parece bastante intuitiva, na análise gráfica, a evolução das expectativas de mercado. O PIB de 2012 veio fraco e nessa época havia uma perspectiva melhor para como seriam os anos seguintes. Enquanto 2013 sinalizava um crescimento de 3%, acreditava-se que o PIB potencial do país era de 3,5%, que era o esperado para 2014 a 2016. Contudo, os erros na condução da política macroeconômica (já que não há razão de dizer “acertos”) deterioraram todos os resultados. Em 2013, o crescimento do PIB de 2,3% já prenunciava um 2014 e 2015 mais fracos, já abaixo de 2%, corroborando a visão da maior parte dos economistas à la “apertem os cintos, o piloto sumiu”.

Além da condução fracassada da política econômica, com estímulos setoriais confusos, políticas de crédito com operações bagunçadas entre BNDES e tesouro, inflação sustentada em patamar alto e  desregulação setorial, a credibilidade do governo também foi minada (como consequência). Os impactos nós vemos hoje (e é a razão da possibilidade de usar o termo “fracasso”). Em 2014 o crescimento do PIB é próximo de zero, já havendo algumas projeções de crescimento negativo. Esse ano que tinha tudo para ser o ano bom da economia, com copa e milhares de estrangeiros gastando no país, com eleições e euforia, vai ser um ano perdido. Quem sabe 2015 seja melhor, já que a base desse ano também será fraca, possibilitando uma melhora para o ano que vem. Apesar disso, a tendencia de revisão dos resultados é para baixo, o que possibilita 2015 com menor de 1% de crescimento. Já 2016, a expectativa é de recuperação, mas também com tendencia de revisão para baixo. Em outras palavras, os próximos 2 anos deverão ser difíceis para emprego e renda. Torce-se para que os ajustes na condução da economia aconteçam nesses próximos anos para que possamos colher algum fruto a partir de 2017 (sim, 2017!).

pib_anual_20141103

  • Inflação

Um dos fatores que prejudica bastante o crescimento econômico é a inflação persistentemente em nível alto. Em 12 meses, a inflação está em 6,57% e estoura o limite superior do intervalo de tolerância (chamado de “teto”). Provavelmente em virtude disso, o BC aumentou a taxa de juros na semana passada, apesar de termos presenciado um período eleitoral em que não havia problema inflacionário por parte do governo. Crítica? Não! Que bom que alguém deu um sinal positivo na cabine do piloto e reconhece (ao elevar os juros) o problema. A inflação nos próximos 3 meses é geralmente mais alta. Em setembro a inflação foi de 0,57% (como mostra o gráfico abaixo), acima da mediana das expectativas de mercado e acima de 2013. Todos torcemos para que esse resultado não se repita nos próximos 3 meses.

ipca_mensal_20141103

A inflação alta tem um impacto negativo na economia pois, com preços mais elevados, as pessoas compram menos. Com emprego, renda e crescimento econômico, a alta de preços é menor, pois sobem também os salários. Contudo, como pode ser observada na trajetória do PIB, a renda estagnou, logo, as pessoas freiam o consumo. O que é pior, acredito, é ver a trajetória da expectativa da inflação. Consistentemente, desde 2012 a expectativa de inflação para 2014 vem crescendo, saindo de 4,5% naquele ano para quase 6,5% no final de 2014. Porque 4,5% naquela época? Porque tinha uma meta. Porque as expectativas não apontam mais para meta? Há que se perguntar para o governo, mas aparentemente não existe uma crença de que a meta esteja sendo perseguida, seja por viés político-eleitoreiro ou para manter a trajetória de emprego e beneficio social. Independentemente da razão, a consequência é essa: inflação alta nos próximos anos.

ipca_anual_20141103

A conclusão de que “os fins justificam os meios” pode levar a um fim errado se o meio também for errado. Democraticamente (com todas as falhas da democracia, que ainda é o melhor sistema) a situação ganhou. Torço para que os meios daqui pra frente sejam outros, para que o final seja mais feliz do que o que vemos hoje. Não deve haver convergência para meta nos próximos anos (o que pode gerar uma dúvida: pra que meta se não é perseguida? Não sei responder de forma racional).

  • Juros

 Como consequência, o que observamos são os remédios tradicionais. Inflação alta é combatida com juros altos. Soma-se a isso o cenário político-eleitoral e (dizem) o tempo de “sentir os efeitos” do aumento de juros anteriores, em que tivemos alguns meses de juros estacionados em 11% e a inflação em uma crescente. Aparentemente, não havia problema (era o diagnóstico). Felizmente ou infelizmente, na semana passada houve elevação dos juros, para um patamar acima de 4 anos atrás. É fácil ver a montanha russa da curva de juros. A magnitude da oscilação não reflete a maturidade ou os acertos da politica monetária, pelo contrário, causa incertezas e fortes correções de rumo (é sério, é só olhar no gráfico que não são trajetórias suaves ou curtas de ajustes). Devemos ter um juros na casa dos 2 dígitos até o final de 2016, o que enfraquece a perspectiva de um aumento razoável no investimento produtivo, uma vez que a esses juros a remuneração financeira é bastante mais lucrativa.

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O que de fato acontece é que desde 2013 as expectativas de elevação de juros já começaram a aparecer (como mostra o gráfico abaixo). Isso indica que já havia, na época, sinais de problemas. A inflação já estava alta e nada mudou. Logo, deterioraram-se as expectativas. Como o diagnostico dos problemas continuava errado e as formas de combate aos problemas também, o cenário não melhorou. Fechamos 2014 com a tava de juros mais alta dos últimos anos e das mais altas do mundo. Enquanto o juros estiver nesse patamar, não há motivos para tirar da gaveta projetos de investimento que remunerem menos que a SELIC, pois ninguém é bobo.

selic_final_anual_20141103

Nessa perspectiva, temos os próximos anos de crescimento baixo, inflação elevada e taxa de juros elevada, se nada mudar. No próximo post, serã abordadas as perspectivas de cenário fiscal e setor externo, mas não contem com bons sinais.


Responses

  1. Muito bom os textos de voces. Dá para notar embasamento técnico e conhecimento dos assuntos. É que não estou conseguindo “abrir” os graficos, ficando as informações incompletas.

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