Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 05/11/2014

Brasil – Uma perspectiva para 2014/2015 (Update Nov/14 – parte 2)


Leia maisEXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 31/10/14, o câmbio em 2014 deve fechar em 2,45, com tendencia de alta para os próximos anos. A desvalorização cambial reflete em parte a falta de ânimo na economia brasileira, que também está “desvalorizada“. O que também corrobora essa afirmação (além do post anterior – link) é a queda ou estagnação no ritmo de crescimento das exportações (nos últimos anos), tal que espera-se que as exportações sejam de US$ 239 bi esse ano (expectativa que já foi bem mais elevada). As importações devem fechar 2014 com US$ 236 bi, gerando um baixo saldo na balança comercial do país. A questão fiscal é preocupante, com queda consistente do superavit primário nos últimos anos e um risco não desprezível de fechar o ano com o resultado primário no vermelho. A consequência direta de baixo crescimento, juros e inflação alta e primário zero (ou negativo) é aumento da dívida líquida, que chegou a 33,5% em 2013 mas, segundo as expectativas, deve chegar ao patamar de 36% do PIB nos próximos anos.

  • Fiscal

 O resultado primário é o que sobra para o governo depois de ter pago todas as despesas primarias com a receita auferida. Se for um resultado positivo, chama-se de superávit primário. Nessa conta, não está contabilizado os juros que tem que ser pagos pelo tamanho da dívida, ou seja, o quanto deve-se pagar para as pessoas (físicas e/ou jurídicas) que optaram por comprar títulos do governo (de forma simplificada). Quanto maior a dívida, maior os juros. Quanto mais a dívida for atrelada a indicadores econômicos que oscilam muito, maior a oscilação dos juros. De forma geral, o superavit primário tem como uma das funções a credibilidade de que as dívidas do governo serão pagas, uma vez que esse dinheiro é pode ser destinado ao pagamento dos juros. Um resultado primário zero implica que, depois de receber tudo, o governo gastou tudo (despesas primárias) e não sobrou nada para pagar os juros. Esse dinheiro para pagar os juros vem de outro lugar: mais dívida. É um perigoso ciclo vicioso/virtuoso, a depender do resultado primário.

Nesse sentido, o que pode-se notar no gráfico abaixo é que o resultado primário vem consistentemente se reduzindo. O resultado primário do setor público nos últimos 12 meses é de 0,61% do PIB. No acumulado do ano, é de -0,4% (sim, negativo), indicando que o governo está gastando mais do que tem de receita. As expectativas apontam na mesma direção (e talvez conservadoras). O resultado esperado de 2014 em 0,85% equivale a um superavit de cerca de R$ 40 bilhões, que é improvável de acontecer, uma vez que o resultado até setembro é de -R$ 15 bi. Para os próximos anos, espera-se uma melhora no resultado primário. Esse cenário é bastante conservador pois ainda não incorpora totalmente o resultado da semana passada, com a divulgação dos dados de setembro das contas públicas, que foram ruins. O viés de revisão é para baixo. Esse é o “esforço” ou “comprometimento” que o atual governo tem com a gestão dos recursos públicos.

rpsp_20141103

Como consequência da falta de poupança para pagar os juros e do baixo crescimento, a divida liquida do setor público deve subir (como apontam as expectativas). Novamente, o cenário conservador de trajetória da dívida aponta para uma estabilidade da mesma em torno de 35,5%-36,0% do PIB. “Conservadoras” pois o resultado atual já alcança quase 36% e não há sinais de melhoras ainda das contas públicas. Em outras palavras, superávit primário baixo faz aumentar a dívida. Para os que tem algum juízo de valor sobre como “interpretar” o superávit, peço que deixe de lado a discussão de “é bom/é ruim” e se atentem apenas ao fato de que uma coisa causa outra. A dívida não cai sem crescimento econômico. A dívida não cai sem superávit (afinal, o segredo do sucesso nos últimos anos foi exatamente esse, só que agora o cenário se inverteu, logo, o resultado também se inverte). Suspeita minha, essa dívida ultrapassa os 37% já em 2014.dlsp_20141103

  • Câmbio

O câmbio é um reflexo do momento em que vivemos. A instabilidade político-eleitoral tem uma parcela da explicação da desvalorização do real. Do início da propaganda política (19/08) até ontem, o câmbio desvalorizou 10%. Adiciona-se a esse resultado a sequência de  resultados ruins na economia brasileira. A alta do dólar teve início em julho de 2011, curiosamente a mesma época em que a chamada “nova matriz econômica” embalou e deteriorou a economia (como pode ser visto nesses sequencia de posts com as expectativas de mercado).

cambio_20141103

Não se deve esperar grandes mudanças no câmbio para os próximos dias, mas o patamar entre 2,45 e 2,55 começa a se firmar. O anúncio da próxima equipe econômica vai dizer muito mais sobre as próximas tendências. Uma equipe mais conservadora deve estancar e estabilizar o dólar no curto prazo, uma vez que correções de política requerem tempo. Um equipe mais intervencionista, pode elevar essas projeções para os próximos anos. Uma equipe morna (meio a meio) não deve conseguir melhorar tanto a economia e o resultado é de uma economia (e um câmbio) mais desvalorizado até 2016.

  • Balança Comercial

 O comércio exterior é uma grande frustração em termos de expectativas. Desde maio de 2012, quando as exportações atingiram um resultado acumulado em 12 meses de quase US$ 260, o resultado estagnou, com resultado de US$ 234 bi nos últimos 12 meses (como pode-se notar no gráfico abaixo). Na época desse pico, esperava-se exportações de cerca de US$ 330 bi para 2014 e 2015 e acima dos US$ 350 em 2016. Todavia, desde então, as expectativas minguaram e apontam para rotineiros US$ 240 bi esse ano, US$ 250 bi em 2015 e tímido US$ 268 em 2016. Isso deriva de ritmo econômico externo fraco (o mundo importa menos) e no curto prazo preço de commodities em queda (e pode-se acrescentar que o resultado não está sendo pior pois o câmbio está em direção contrária, favorecendo o exportador).

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Na mesma toada caminham as importações. Com os preços dos importados mais elevados (resultado do câmbio), os consumidores também importam menos. Com o crescimento econômico baixo (i.e. renda cresce menos), os consumidores importam menos. Leia-se consumidores como sendo famílias mas também indústrias e empresas. Por sorte, talvez, o ritmo de crescimento das importações também freou. Em 12 meses já alcançam um resultado de US$ 231 bi, ligeiramente abaixo das exportações. Para os próximos anos, de acordo com as expectativas, o resultado é de modesta alta.import_20141103

Consequência direta dos dois resultados acima, o saldo da balança comercia vem em trajetória de queda desde o final de 2011. O saldo comercial atual é de US$ 2,5 bi em 12 meses, em linha com a expectativa para o final do ano, em US$ 2 bi. Com o câmbio mais desvalorizado, as exportações devem se expandir em ritmo acima das importações, propiciando um saldo mais positivo para 2015 (US$ 7,2 bi) e 2016 (US$12 bi). O que se tira daqui? Há pouca melhora vindo do cenário externosaldo_balcom_20141103

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