Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 06/11/2014

O Nexo da Água-Energia-Solo (AES)


Esse post tem um viés de gestão de recursos ambientais e desenvolvimento sustentável. Nexo representa uma ligação, um vínculo, logo fica mais óbvia o título e a interdependência dessas três vertentes: água, energia e solo. Esse talvez seja uma problema bastante e voga na atual situação do Estado de SP, mas é uma discussão também muito presente no cenário internacional, frente às mudanças climáticas que temos vivenciado e a atuação do homem no planeta. Dessa forma, a discussão é ainda mais importante frente a atual crise hídrica.

O nexo AES coloca em primeiro lugar a importância da água, pensando na água para consumo e atividades produtivas e para o ecossistema, para geração de energia (dentro do mundo moderno) e para o solo (para agricultura e florestas e manutenção do ecossistema). O AES, dessa forma, é fundamental para as necessidades básicas do cotidiano e a manutenção do atual padrão de vida. Apesar disso, a utilização da água para uma dessas atividades pode impedir a utilização para outra, tornando a gestão dos recursos imprescindível.

A água destinada para as atividades produtivas e consumo humano, em SP, vem de diversos reservatórios. Um dos mais importantes, por exemplo, é o Sistema Cantareira (conta com reservatórios do Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro). Abaixo fica bastante clara a tendencia de queda no nível do Sistema. E por que isso acontece? Porque evapora? Porque não chove? A gestão de recursos está na raiz da economia. O saldo entre oferta e demanda é o resultado de diversas forças sociais, econômicas e naturais. O ponto mais importante é que o estoque de muitos ativos ambientais não pode ser negativo, como no caso de uma dívida no banco. Quando zera, ZERA! Não entra no negativo. Não é possível ter X árvores negativas numa floresta ou Y  de nível negativo de água.

cantareira

 Além do consumo da água, ela também é utilizada para geração de energia. Segundo a ONS, o percentual de energia armazenada nos reservatórios até outubro era de 23,9%. Esse resultado é bastante próximo dos meses do final do ano de 99-01, que culminou com o problema do apagão no país. Resultado, só não estamos com o risco do apagão no momento por conta da utilização das termoelétricas. O PLD (Preço de Liquidação de Diferenças), preço da energia de curto prazo no mercado, chegou a R$ 822.8 por MWh enquanto as hidroelétricas vendem energia em torno de R$ 120 o MWh, as eólicas a R$ 130 o MWh (segundo a ANEEL).

ONS

Não cuidar da água, suas fontes e seus usos, provoca enormes prejuízos econômicos, sociais e ambientais. Políticos tem medo da palavra “racionamento”, mas economistas adoram a palavra escassez. Enfrentamos uma escassez de água. Isso rebate também na produção de alimentos, uma vez que a água que vai para uma indústria, para dar uma descarga, para ser consumida por nós ou que está lá longe num reservatório para produzir energia, não está sendo destinada à irrigação, por exemplo. A estimativa da agência da ONU que cuida das águas é que 70% do uso da água destina-se à agricultura (link). A água que está na irrigação, não está no copo ou no reservatório. Ainda é muito baixo no país o reuso da água. Apesar disso, há inúmeras soluções criativas em relação à gestão e captação de águas.

O homem se diferencia dos demais animais pela capacidade de modificar o ambiente ao seu redor. É um ser inteligente, age em sociedade, é racional. Eu fico decepcionado toda vez que escuto “não choveu o que precisava”, como se a culpa dos problemas fossem apenas da natureza. O ser humano cria o problema, não a natureza. Logo, cabe ao ser humano resolver seu problema.

Já vivemos um racionamento velado, uma forte escassez ou um corte seletivo de água em SP. Seja qual for o termo técnico, deve-se interpretar como “não tem água pra todo mundo” nesse ritmo. Caminhamos no cenário nacional de escassez de eneriga com possíveis “cortes seletivos” (reportagem da folha de 05/11/2014 – link). Corte seletivo é racionamento, corte seletivo quer dizer que não tem pra todo mundo. Há um risco não desprezível de faltar energia em 2015, que chegou ao teto tolerado pelo governo, de 5%.

A demanda do homem por ativos ambientais para atender suas necessidades de consumo estão cada vez mais elevadas. O ritmo de reposição dos ativos é menor do que o ritmo de utilização/destruição/devastação/extração dos ativos. Ou seja, o saldo é negativo! Como temos estoque, vamos detonando o estoque, sem se preocupar muito no que fazer quando acabar. Espero que possamos aprender algo no meio do caminho, para não nos prejudicarmos ainda mais lá na frente porque “deu preguiça de pensar”, “deu preguiça de fazer”, já que o “eu não sabia” é um atentado à própria condição humana de ser inteligente.

A inspiração surgiu depois da leitura de três documentos do Instituto Alemão de Desenvolvimento (DIE – Deutsches Institut für Entwicklungspolitik), disponibilizados abaixo, e da atual crise hídrica de SP. Essa discussão é bastante mais ampla do que a abordada aqui, então para quem tem maiores interesses, vale a pena iniciar pelas leituras abaixo.

  • Why is the Water-Energy-Land Nexus Important for the Future Development Agenda? (link)
  • Reconsidering Sustainable Development Goals: Is the Environment Merely a Dimension? (link)
  • How to Reconcile the Millennium Development Goals (MDGs) and the Sustainable Development Goals (SDGs)? (link)

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