Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 12/11/2014

Política Monetária no Brasil


Um dos grandes debates atuais no país tem sido em torno da política monetária e o uso do instrumento da taxa de juros para controle da inflação. Em termos práticos e de forma simples, um aumento da taxa de juros tem o efeito de tornar o custo de oportunidade de reter moeda mais caro, uma vez que se for remunerado à taxa de juros, a mesma quantia em moeda valerá mais. Dessa forma, as pessoas teriam preferencia pelo dinheiro amanha e não o gastariam hoje, colocando seu dinheiro em alguma atividade de remuneração mais elevada. O custo de oportunidade de reter o dinheiro é a inflação, que faz com que a mesma quantidade de recursos amanhã tenha um poder de compra menor do que hoje. Uma operação saudável é ter os recursos parados em aplicações que possam manter o poder de compra. Qualquer coisa além disso, é ganho! A uma taxa de juros de 11,25% e uma inflação em torno de 6,5%, há um ganho real de 4,75% ao ano em não utilizar o dinheiro para consumir. Dessa forma, os aumentos de taxa de juros são associados à redução do consumo (uma vez que mais pessoas irão poupar) e, como consequência, demanda mais fraca, que deixará de exercer pressão sobre os preços. Em outras palavras, juros mais altos desacelera o aumento nos preços (ou pode provocar queda).

Somado a isso, temos a meta de inflação, que é um objetivo que o BC tem com o país, com a credibilidade da instituição e com a estabilidade de preços, sendo um dos tripés da política econômica que ajudou o Brasil a solidificar o real e superar a crise inflacionária. O compromisso em atingir a meta, contudo, tem sido posto em xeque. No gráfico abaixo é possível ver a trajetória de inflação acumulada ano a ano: tanto a efetiva quanto a meta. Em 2004 a inflação foi de 7,6% para a meta de 4,5%. Nos anos seguintes, houve dois momento de inflação na meta e um momento de inflação abaixo da meta. Em OITO anos a inflação superou a meta.

pol monetariaQuando um objetivo é um objetivo, pode-se até se esperar que não se acerte sempre. Tome por exemplo um esporte como tiro com arco: existe um instrumento, existe um objetivo e existe regiões em torno do objetivo. Errar OITO vezes pro mesmo lado parece uma falta de saber utilizar o instrumento ou de não conhecer as condições. Mas como dizer isso de pessoas qualificadas e que se preparam para isso? Difícil, não é?! Logo, se elas sabem utilizar o instrumento para o qual foram treinadas e conhecem a meta, pode-se unicamente assumir que o erro é consciente. Isso torna mais grave a perda de credibilidade da instituição. Serão cinco anos consecutivos de erro. Tolerância é tolerância, meta é meta. O que acontece com quem não atinge a meta? Frustração, não apenas própria, mas de todos que contavam que a meta seria atingida. Frustração de 200 milhões de brasileiros (alguns sofrem mais com isso do que outros, claramente, mas inflação alta é ruim para TODA a sociedade).

E porque essas coisas acontecem? Existe uma ansiedade nacional inconsciente e um excesso de otimismo em resultados que podem se inverter facilmente. Abaixo, na linha azul está representada a trajetória do IPCA acumulado em 12 meses até outubro/2014. É uma montanha russa. Na parte do gráfico em formato de área, está o resultado da variação acumulada da Selic em 12 meses, zerando toda vez que há uma mudança de sinal. Ou seja, uma queda de 1 ponto percentual por 2 meses consecutivos irá gerar uma área até o nível de -1,0 no primeiro mês e até um nível de -2,0 no segundo mês (ou seja, acumulado). Pode-se ver que há pouca moderação na taxa de juros, no sentido de uso intenso da mesma. Quando a inflação começa a dar sinais de queda, já se inicia um movimento pela queda do juros. Até aqui tudo bem, afinal, é o que faz sentido. Mas o formato de montanha russa sugere que a confiança ou o uso do instrumento é excessivo, de forma que pouco tempo depois tenha que se iniciar um ciclo de alta dos juros.

inflação e ciclo de juros

No período entre 2005 e 2007, houve queda da inflação em 12 meses, como fica fácil de ver. Com isso veio uma queda forte da taxa de juros, que resultou num ciclo que durou até 2008. A partir de então notou-se que foi talvez um exagero, pois o resultado foi uma elevação dos preços novamente, no período de 2008. Seguiu-se então uma breve correção, que colocou a inflação novamente em queda, sendo somado a esse período a redução do consumo e medo da crise econômica (o que permitiu um breve aumento de juros). Na sequencia, mais um ciclo de redução de juros (uma vez que a inflação estava em queda), que durou até meados de 2010. Nesse período foram injetadas uma série de medias fiscais para impulsionar o consumo, que deu tanto certo que gerou aumento de preços no período, que levou à reversão do ciclo de queda de juros para uma correção ainda mais forte entre o meio de 2010 e o inicio de 2012 (mais forte que o ciclo anterior). Esse resultado denota, ao meu ver, excessos tanto nos momentos de queda quanto nos momentos de alta de juros. No último ciclo de queda, no gráfico, o que se observava era uma atividade econômica se enfraquecendo e preços começando a declinar. O que fazer? “Taca-le pau” na política fiscal e monetária.

Logo no inicio do último ciclo de queda de juros, os preços já se mostravam em elevação novamente. O maior erro foi continuar a politica de redução de juros num momento de inflação em alta, que durou até 2013.  A falta de confiança nas politicas econômicas do governo se alastrou e, com isso, caiu o investimento e o consumo freou, assim como vem também reduzindo o ritmo de criação de empregos no país. Sinais: atividade econômica fraca mas nível de preços em alta. Consequência do primeiro erro foi o segundo, pois uma vez que abre a porteira… tem que esperar. No momento estamos enfrentando um nível de atividade bastante incerto em relação ao futuro, crescimento zerado e inflação em patamar insistentemente alto. Dai eleva-se os juros, que deve colocar nova pressão sobre a redução da atividade econômica.

Fica muito claro os erros desses últimos 2 ciclos de juros. Eu tenho certeza que os gestores disso ai sabem o que estão fazendo, então a unica conclusão que resta é a de que é uma politica consciente e um erro deliberado. Um país que não cumpre objetivos aos quais se compromete e toma decisões erradas só tem a perder.

 

 


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