Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 26/11/2014

Crescimento real do PIB, Consumo das Famílias e Consumo do Governo


As vezes é importante fazer um esforço para pensar em novas formas de ver a mesma informação, interpretar os mesmos dados. Nesse exercício, procurei entender de que forma evoluíram o PIB e o consumo nos últimos anos. Ressalta-se que crescimento real é aquele crescimento acima da inflação, ou seja, o ganho efetivo de poder de compra da economia, dados os ajustes de preços.

O gráfico abaixo apresenta o crescimento real do PIB e do Consumo das Famílias desde 1999. O resultado, por motivo de força maior, está dividido em períodos de 4 anos surpreendentemente coincidindo com os mandatos de presidente. A evolução dos valores é sempre com base no ano anterior ao primeiro ano de mandato. Assim, lê-se que, ao final de 2002, o PIB cresceu 8,8% no acumulado dos 4 anos e o consumo das famílias cresceu 4,3% no mesmo período. Em 2007, ambos consumo e PIB cresceram cerca de 5% (e uns quebrados), em relação a 2006. Ao final de 2010, o PIB cresceu 19,6% em termos reais, em relação a 2006, e o consumo cresceu 18,3%, nesses 4 anos, ao final do quarto ano. Para 2014, os dados são referentes ao 2º Trimestre do ano, último dado disponível.

É fácil notar que ao longo do mandato desses presidentes, houve diferentes dinâmicas. É inegável que o segredo do sucesso dos mandatos do Lula estão fortemente ligados ao crescimento do PIB e do consumo. Crescer o consumo implicou em melhoria no acesso da população a bens e serviços, enquanto crescer o PIB permitiu o aumento da renda para ter acesso a esse consumo. LOGO, RENDA E CONSUMO tem uma CORRELAÇÃO bastante ELEVADA.

Dessa forma, desvios de um em relação ao outro tem diferentes implicações. Produto crescendo mais do que o consumo implica em uma fração maior de renda não gasta, ou seja, poupança. Poupança mais elevada significa mais recursos livres na economia, que serão direcionados para aumento de investimento, dadas as identidades macroeconômicas. Na direção contrária, consumo crescendo mais do que a renda implica em uma fração menor de poupança e, logo, menos investimento. Não se deve ter em mente que não possa haver oscilações entre quem está crescendo mais ou menos do que o outro, mas alerta-se para que, diferenças persistentes entre a taxa de crescimento do consumo e da renda, levam a consequências mais persistentes também e de maior grau de dificuldade em qualquer ajuste.
crescimento real pib consumo familias

É curioso ver  que no primeiro período, o PIB cresce, ao final dos 4 anos de governo, relativamente mais do que o consumo. Na ótica da produção, isso implica que existe mais bens e serviços disponíveis, mas que não estão sendo consumidos na mesma proporção em que cresce a produção. Assim, abre-se uma folga de produção que não e absorvida pelo mercado doméstico e pode ser exportada. Além disso, abre-se margem para um aumento da poupança e retomada das baixas taxas de investimento no período. Já nos dois períodos seguintes, a taxa de crescimento do PIB e do Consumo das Famílias anda de forma mais alinhada ou, como gostam os economistas, sustentada. Ao final de 2006 e 2010, a diferença entre as duas taxas de crescimento foi de 2,7 pontos e 1,3 ponto, respectivamente. Fechou-se a o gap! (ou boca do jacaré).

Ai vem a genialidade da politica econômica atual (porque tem muita gente que é gênio e não sabe), que viu que o consumo era parte importante do sucesso do predecessor e quis não só manter políticas anticíclicas em momentos pró-cíclicos, mas quis incentivar ainda mais o consumo. A equipe de gênios produziu, até o segundo trimestre de 2012, uma taxa acumulada de crescimento do consumo de 13,6%! Deu certo! Mas esqueceram de avisar que pra consumir produtos, é preciso produzir produtos antes. Do lado da produção, o PIB cresce 6,9% no mesmo período. Ampliam-se as importações para atender o consumo, quase zera o saldo comercial (segredo do sucesso da acumulação de reservas no período recente), endividam-se mais as famílias, sem a contrapartida de melhoria de renda. Nos últimos 4 mandatos, inverteram-se as curvas de PIB e consumo, gradualmente. A diferença que era de 4,5 pontos de crescimento do PIB acima do crescimento do consumo agora aponta para uma diferença de 6,7 pontos a favor do consumo (que, lembrando, vai reduzir a taxa de poupança e, logo, o investimento). Consumir mais e produzir menos (em termo relativos) aumenta a escassez dos produtos, que vai levar a um aumento nos preços (qual a inflação mesmo?), que vai levar a um aumento nos juros (em momentos sérios de politica monetária), que vai depreciar a atividade econômica. Nunca antes na história do país tivemos tantos gênios tomando decisões econômicas, mas aparentemente não estão pensando em tudo.

Dada a genialidade da politica econômica destinada ao bem estar das famílias, há também a genialidade da política em atender a si mesma. Deve ter algum espírito animal (não aquele do sentido keynesiano) que confabula consigo mesmo algo do tipo: “Eu sou gênio, aqui todos são muito produtivos, vamos expandir toda essa corrente do bem para a sociedade e aumentar a presença do estado na vida de cada brasileiro”. O resultado é que os gastos do governo também cresceram da mesma forma. Se ao final de 2002 a participação do governo no PIB se manteve praticamente constante em relação ao início do mandato (já que cresceram quase à mesma taxa), em 2003 houve um lag, ou efeito retardado (entenda como quiser), no começo da gestão, mas que se recuperou até o final do mandato, que se reverteu já em 2007 (ou seja, passou a crescer mais do que o PIB). Ao final de 2010, o governo gastava 26,2% a mais (em termos reais!) do que 4 anos antes. Beneficies a parte, há que se lembrar que o consumo de qualquer coisa tem que ser pago em moeda. Essa política (que saiu da mente de gênios) iniciada em 2007 influenciou os gênios do presente, colocando o crescimento dos gastos do governo em 12,9% no mandato da atual presidente. Alguém de novo comemorou que o consumo foi novamente elevado. Mas outro alguém olhou para o caixa e falou: “Cadê o dinheiro para pagar?” e houve um grande silencio. crescimento real pib consumo gov

 O governo conseguiu reduzir um superávit de cerca de 3% do PIB para ZERO, pressionando a deterioração das contas públicas, pressionando a inflação, prejudicando as condições nas quais vão ter que emitir os novos títulos da dívida publica (num cenário já de aumento de juros), pressionando as contas externas, destruindo a poupança (já baixa) do brasileiro, inibindo o investimento, colocando em risco o grau de investimento, inibindo ainda mais o investimento, criando caos e confusão no setor produtivo, criando leis para suspender as leis existentes para não ser prejudicado e por ai vai.

É sério que ninguém consegue ver que todos os indicadores de crescimento sustentável no longo prazo estão se perdendo? Tanta genialidade sendo usada para que então?

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Responses

  1. Os indicadores macroeconômicos não estão assim tão mal. Levy, futuro ministro da fazenda, já mirou superavit primário de 1,2% para 2015, e de 2% para os dois anos seguintes. Objetivos perfeitamente críveis. Superavits de 3%, ou mais, não mais cabem no atual contexto.

    O indicador de solvência ( DLSP) apresenta curva acentuadamente declinante, e o “mundo inteiro” praticamente opera com déficits primários, no atual contexto de crise.

    O grau de investimento, provavelmente, não estará sob riscos, dadas que as novas metas de superavits — que serão alcançadas.

    O deficit em c/c deverá decrescer pela real necessidade de desvalorização da moeda nacional. O que, também, deverá ocorrer. Esse será um ponto importante, pois o impacto inflacionário deverá ser mitigado. O “desarme” dos swaps cambiais deverá ser usado como instrumento de desvalorização cambial gradual.

    Será preciso, concordo, deslanchar a concessões de infra-estrutura física ao setor privado. O que deverá ocorrer, também.

    O importante é que o bem-estar da população mais vulnerável logrou um notável impulso nessas últimas décadas.

    O descompasso entre demanda e oferta agregadas será remediado pela novo time econômico.

    Não podemos esquecer da grave seca que atingiu a economia, e o conjuntura internacional altamente desfavorável.

    Abraço

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    • Hilario, acredito que os pontos levantados estão em linha com o que eu penso, “os indicadores não estão assim tão mal”. Mas acredito que poderia complementar a frase, se me permite, com “não estão tão mal a ponto de serem irreversíveis”. O que se observa é uma trajetória de piora de quase todos os indicadores.
      Acho que a parte que fica implícita no comentário, é que a piora é passível de reversão, ou seja, dá pra voltar a melhorar, disso eu não tenho dúvidas. A parte um pouco mais preocupante é como fazer a correção de alguns pontos para voltarmos a crescer.
      Tem uma parte de ter fé na aposta da nova equipe econômica, e eu tenho, que vai se mostrar mais certa ou não na medida em que entregar os resultados de acordo com a comunicação que fazem.
      Se o superávit voltar pra 1,2%, dá pra impedir uma alta maior da DLSP, mas ela vai subir ainda. Se chegar a 2% dá pra começar a pensar em estabilizar a relação. Se ficar entre 2,5% e 3,0% (que concordo que é bastante elevado) dá pra reduzir novamente a relação.
      Os dados fiscais lá fora não são diferentes do Brasil em termos de resultado primário e isso é normal. O que não é normal é gastar mais de 5% do PIB com despesa de juros, isso não existe lá fora. Em outras palavras, independentemente do patamar da dívida, ela é de péssima qualidade e faz o nosso resultado nominal também ser um dos piores do mundo. Para melhorar o perfil da dívida (e reduzir as despesas com juros), é importante a retomada da melhora dos indicadores econômicos, que vão permitir que nós tenhamos condições de emitir títulos mais alinhados com o que é feito lá fora.
      Eu espero que consigamos manter o grau de investimento, torço pra isso e pra equipe econômica. Mas tudo tem a hora de acontecer. Se vier uma revisão e os dados fiscais continuarem no patamar que estão, haverá dúvida em relação ao que estamos entregando.
      Na c/c o ajuste vai ocorrer, por bem ou por mal, dada a dinâmica dos fluxos de moeda e reflexo do câmbio. O problema é que nossa taxa de investimento é muito dependente disso. Uma redução do déficit de c/c vai implicar em uma redução da poupança externa que vai reduzir a taxa de investimento. Para manter a taxa, precisamos de poupança interna, seja ela pública ou privada. É preciso incentivos à poupança também, que vai na direção contrária ao consumo.
      Enfim, eu acho que os desafios não são tão fáceis de se colocar em prática, mas é possível se houver vontade. Eu estou fazendo um esforço grande para acreditar, afinal também torço para uma sociedade melhor.
      Abs e obrigado pelos comentários!

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