Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 20/01/2015

O paradoxo da economia brasileira


Eu as vezes tenho a impressão que escolhi a profissão errada. Já não é de hoje que a profissão de economista está desacreditada, em virtude das mudanças de vento da economia global e das mudanças de vento na economia doméstica. Eu já não sei mais nada do que está de fato acontecendo, apesar de ter a disposição dezenas de gráficos, centenas de tabelas e milhares de discursos e opiniões. Ouso dizer que o resto que está ai também não sabe de nada, é um caos, uma bagunça. E dentro dessa bagunça, o Brasil (que é bom de bagunça) se destaca!

Uma das poucas pessoas (na minha opinião) que resume bem o que acontece no país tem seu depoimento disponível no youtube. Apesar da zueira, como pode parecer, não é necessariamente tanta zueira assim. Como dizem: “toda brincadeira tem um fundo de verdade”.

Descontrações a parte, eu acho que o vídeo reflete muito o pensamento de muita gente. É tudo muito confuso! Desde o final de 2008 e ao longo de 2009, foram tomadas muitas medidas “anticíclicas” que tornaram o suposto “tsunami”, a crise econômica que atingiu o mundo, em suposta marolinha. É ótimo (no sentido de livro-texto) adotar medidas anticíclicas para amenizar adversidades nos períodos de vale de um movimento cíclico. O que não é ótimo é adotar mais medidas econômicas anabolizantes, como facilitação adicional do crédito, uso exacerbado dos bancos públicos, manutenção de IPI baixo (ou zero) em alguns setores, assim como outros outros subsídios também para setores escolhidos, aumento de salário real acima da produtividade, redução da conta de luz e da gasolina para controlar a inflação (se todas as outras medidas acima vão no sentido de pressionar o consumo e os preços), em momentos em que a economia está na parte positiva do ciclo.

O resultado é a falta de credibilidade, inflação alta, investimento baixo e crescimento baixo. Além disso, se esgotou a capacidade do governo provocar choques fiscais positivos na economia com o orçamento. A cada choque, um susto! Os indicadores econômicos já apresentam sinais de deterioração (seja por redução do crescimento ainda que positivo ou por indicadores no campo negativo, como o desemprego na indústria e na construção civil, que já são observados). Refletindo melhor agora, as palavras começam a fazer algum sentido.

“Já tava bom, disse que ia mudar ainda para melhor. Não tava muito bom, tava meio ruim também, tava ruim. Agora parece que piorou” (Vídeo youtube acima)

Agora que estamos num momento de fragilidade maior e quase no final da parte positiva do ciclo, ou seja, na beira da recessão, vem as medidas de ajuste. A alta do consumo e dos preços (com IPCA batendo no limite superior de tolerância) vai ser freada. Já no final do ano passado foi iniciado o processo de elevação dos juros. Vem ai um pacote de ajuste fiscal que nada tem a ver com o governo se comprometer a cortar seus próprios gastos. A maior parte do ajuste vem de aumento de impostos, por exemplo aquele da gasolina (CIDE), que foi temporário. Tem outros aumentos de impostos já anunciados e terão ainda mais, que estão em estudos. Há também perda de benefícios dos trabalhadores! Adiciona-se a isso a transferência do aumento da conta de luz e o fim da ajuda à CDE, que vão pressionar duplamente o consumidor (que além disso recebe um serviço ruim). E só para não perder a graça, deve ter mais um pouco de receitas extraordinárias. Redução do gasto da maquina pública, até o momento, eu não vi nada.

Além do carnaval econômico, deve-se destacar as graves falhas de gestão na área da saúde e educação e a falta de segurança pública (todos com reflexos econômicos) e as ainda mais graves falhas de gestão da energia no país (e pra quem quiser, a gestão da água em muitos estados). O caos institucional também dá margem para os escândalos cada vez maiores de corrupção, que não só da Petrobrás ou do Metrô de SP, mas também de muitas obras do PAC sem regime de licitação.

Desabafo a parte e voltando à questão econômica, é um paradoxo enorme adotar medidas anticíclicas em momentos bons e adotar medidas de ajuste em momentos ruins (ainda que eu seja a favor do ajuste). Eu concordo com os ajustes fiscais, mas discordo que eles tenham que ser via aumento de impostos (uma vez que já pagamos muito). O governo gasta mal, não sabe seus gastos e transfere o ônus de fazer sua poupança para a população. Eu concordo que há que reorganizar o setor elétrico e os preços devem refletir uma situação mais próxima do mercado, mas eu discordo que se deva isentar a responsabilidade do governo e da Dilma (que já foi inclusive Ex-Ministra de Minas e Energia). Eu concordo que nem sempre pode se estar ganhando, mas é duro ver a derrota já ali na frente.

Eu não acho que essa confusão toda é causada pela complexidade do assunto, mas é fruto de um caldeirão de decisões erradas em cima de outras decisões erradas, uma pitada de clientelismo e recheio de “sem vergonhice”. Eu tenho enormes dificuldades em olhar pra frente e ver que o Brasil vai melhorar. “Daqui uns 30 anos” é o que eu escuto, mas mesmo assim sem muita fé. Nesse contexto, fazer qualquer previsão econômica, mesmo para quem os que são da área e especialistas no assunto, é como fazer um “chute fundamentado” (educated guess, ou qualquer outra tradução que exista por ai). A enorme falta de interesse, esforço e gestão, sem contar com os erros, somados ao discurso do desenvolvimento e melhoria de vida me levam a crer que o Brasil é um país meio bipolar (com todo respeito).

Anúncios

Responses

  1. Parabéns Guillerme pela sua excelente análise:
    “Daqui uns 30 anos” ou seja “Brasil – o país do futuro”

    Curtir


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: