Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 29/01/2015

O discurso tosco da mínima histórica (desde 2002) do desemprego no mercado de trabalho


Possivelmente alguém vai falar bem do resultado da PME, mas acho que não partilho a mesma euforia. Se ler um texto qualquer e interpretar corretamente a visão do autor exige um esforço intelectual, cabe também dizer que ler e interpretar de forma errada o mesmo texto é também um esforço intelectual. No segundo caso, contudo, há que se diferenciar aqueles que de fato se debruçam sobre o que está lendo e os que, por preguiça ou leitura dinâmica, fazem um esforço menor. No limite, há os que não se esforçam e entendem tudo errado e, por fim, há os que não sabem ler.

No caso de ler números, a mesma analogia pode ser feita. Há possivelmente mais de uma forma de se apresentar dados e análises e, a depender desses formatos, resultam diferentes interpretações. Há também as análises toscas e há conclusões que nem merecem ser chamadas de análises. Há discussões de metodologia. No fundo, há que se ter cuidado com o que se lê, com o que se diz. Mais importante, há que se ter cuidado com a forma de entender o cenário, pois um diagnóstico errado pode matar o paciente ou, sem tanto exagero, dar o tratamento errado ao mesmo. Só que um tratamento errado pode ter impactos permanentes.

Em primeiro lugar, não há o que celebrar quando os dados econômicos e sociais estão ruins. O país não é uma maravilha, há MUITOS desafios a serem superados. Crescimento zero, escândalos de corrupção, redução do crédito, aumento de juros, inflação alta, elevação do deficit em transações correntes, fim do superávit na balança comercial, baixa taxa de investimento, crise hídrica e crise energética não caracterizam uma situação confortável. Soma-se a isso saúde, educação e segurança e fecha-se o cenário que tá tudo bastante ruim. Se não estivesse, não seria preciso medidas de ajustes econômicos nem troca de equipe ministerial.

Em segundo lugar, há que se destacar a sequência de resultados ruins que podemos esperar para 2015. O próprio ministro Levy já assumiu o risco de recessão. Em especial, deve-se experimentar uma reversão do quadro de emprego no país, que deve piorar ainda mais as estatísticas sociais e aumentar as de criminalidade.

Em terceiro lugar, a Pesquisa Mensal de Emprego. Obviamente que a análise que segue é o que eu penso, a minha forma de ver os dados, que pode ser diferente de outras pessoas. Apesar disso, acho importante estabelecer o contraponto em relação àqueles que vão comemorar a divulgação dos dados para o ano de 2014. A mínima histórica é em relação a uma série iniciada em 2002 e é retratada como se antes disso não tivesse história. Além disso, um número final que é resultado de uma série de contas não deve retratar toda a realidade. E uma vez que existem outros números, por que não analisá-los também?

O resultado de dezembro foi uma taxa de 4,3% de desemprego para o final do ano, inferior ao do mês de novembro. O mínimo histórico (desde 2002). O resultado considera apenas as Regiões Metropolitanas e não o país como um todo, antes de mais nada. A última PNAD Contínua apontava o desemprego em torno de 6,8% no país. Vale lembrar que pela metodologia da PME dezembro é um mês de contratação mais forte em virtude das vendas de fim de ano, mas que em janeiro volta a aumentar as demissões. Dessa forma, o correto é comparar o mês de dezembro de 2014 com dezembro de 2013 e não com novembro, para evitar os fatores sazonais. Nessa comparação, a taxa de desemprego se manteve igual, nada de diferente em relação a um ano antes.

tx desemprego 2014 resumo

Além disso, há outros números importantes que apontam um cenário preocupante para os próximos meses (ou anos). Na primeira linha, nota-se o aumento de pessoas nas regiões metropolitanas, de 43,055 milhões (em dez/13) para 43,585 milhões (em dez/14), um aumento de 1.2% em um ano ou 0,3% no mês, como mostra a tabela.

A população economicamente ativa (PEA) é, antes de mais nada, um conceito desenvolvido para representar a população que está inserida no mercado de trabalho (ou que está procurando ativamente se inserir no mercado, ou seja, buscando uma remuneração). É o potencial de mão-de-obra com que pode contar o setor produtivo. Em contrapartida, a população não-economicamente ativa (PNEA) é a que poderia estar no mercado de trabalho mas não está. A PEA caiu 1,2% na ponta, indicando que mais pessoas saíram do mercado de trabalho e caiu 0,5% em 12 meses, levando à mesma conclusão. No caminho oposto, a PNEA cresceu 2,2% no mês a mês e 3,5%, indicando que as pessoas estão saindo do mercado de trabalho. Além disso, a quantidade de pessoas ocupadas também recuou, 0,5% em 1 ano e 0,7% em um mês.

Caso as pessoas que estão na PNEA tivessem ficado no mercado de trabalho, a taxa de desemprego seria muito maior. Se a PNEA tivesse crescido na mesma proporção do total de pessoas, seria maior a quantidade da PEA. Com a população ocupada em queda, essas pessoas seriam desocupadas, que levaria a taxa de desemprego para 5,8% em dezembro. Para os céticos que não acreditam muito, seguem algumas sugestões de leitura:

  • Maria Andréia Parente Lameiras – EFEITOS DA POPULAÇÃO ECONOMICAMENTE ATIVA  SOBRE A TAXA DE DESEMPREGO – Nota Técnica do IPEA (link)
  • ALVES, J. E. D. O crescimento da PEA e a redução do hiato de gênero nas taxas de atividade no mercado de trabalho. Rio de Janeiro: UFRJ/Aparte, 2013.
  • BCB – BANCO CENTRAL DO BRASIL. Impacto das alterações demográficas sobre a taxa de desemprego. Boletim regional, out. 2012.
  • CAMARANO, A. A.; KANSO, S. O que estão fazendo os jovens que não estudam, não trabalham e não procuram trabalho? Boletim mercado de trabalho, Rio de Janeiro, v. 53, nov. 2012.
    LISBOA, M. B.; PESSOA, S. A. Uma história sobre dois países (por enquanto). Insper, 2013. (Policy Paper, n. 6).
  • MENEZES FILHO, N. A.; CABANAS, P. H. F.; KOMATSU, B. K. A condição “nem-nem” entre os jovens é permanente? Insper, 2013. (Policy Paper, n. 7).

Responses

  1. Dentro do mercado de trabalho , desemprego e economia nacional, fiquei impressionada com o artigo e posição certíssima do economista Guilherme Byrro Lopes . Parabéns!

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