Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 23/02/2015

Brasil: tendência, ciclo, recessão e paradoxo


Esse post tem o intuito de ser mais educativo do que focar em conceitos e definições de termos econômicos (uma vez que sempre há grande margem parar discussões dessa natureza). Durante toda campanha eleitoral (e antes disso inclusive, com menor destaque) foi muito discutida a questão econômica. Olhando para os discursos de oposição e situação, havia dois países distintos: um Brasil que ia bem e um Brasil descontrolado à beira do caos e apocalipse econômico.

Passado o conturbado período eleitoral, nenhum dos dois lados estava certo!

  • O Brasil que vai bem passa por profunda crise de credibilidade e aperto fiscal, com desastrosas políticas setoriais e inegável escândalo de corrupção que põe em cheque o atual modo de fazer política e financiar campanhas.
  • O Brasil descontrolado à beira do caos continua o mesmo de antes das eleições, não acabou o mundo, a inflação apesar de alta continua estável, os juros são os mesmos de sempre, os políticos são o de sempre, ou seja, tudo num clima de estabilidade e calmaria frente ao cenário de fim do mundo que foi pintado.

Há sem dúvida ajustes a serem feitos, questões a serem debatidas com a sociedade (que não vão acontecer, já que deputados e senadores legislam mais em causa própria), direções a serem apontadas (não necessariamente perseguidas) e muita reza brava. O que é de se estranhar (ou seria de se estranhar, em países sérios) é que o clima de eleição ainda não acabou. A culpa de tudo (tudo é amplo, mas é assim que se fala por ai) é de todos e não é de ninguém. A culpa é do FHC, do Lula, do Itamar, da Dilma, do Collor e até de D. Pedro I ou Cabral, a depender de quem se escuta.

Minha constatação toda vez que leio jornal é que muitos ainda vivem o clima de disputa eleitoral, mas é importante entender que acabou a disputa. É hora de assumir cobranças mas também responsabilidades para construir sempre um Brasil melhor. Verdade seja dita, o país caminhou para frente nos últimos 20/25 anos: poderia ter sido mais e poderia ter sido menos. Com isso em mente, fica mais fácil falar sobre o que vem abaixo.

  • Tendência

O país tende a andar pra frente, a crescer. Há acelerações e desacelerações, há crescimento e retração. Quando se olha num prazo longo, a direção é no sentido do crescimento. Logo, uma tendência está muito mais relacionada ao longo prazo do que ao curto prazo. Abaixo é apresentado um gráfico com o índice de crescimento do país desde 1991. É muito claro que a direção é de um índice crescente. Uma tendência, nesse sentido, de crescimento do PIB.

tendencia

A taxa média de crescimento anual de 10 anos dos últimos 14 anos (ou seja, a taxa média de 2000 a 2014, considerando o período dos 10 anos anteriores. Assim, desde a década de 90) foi de 3%.  Logo, essa tendência (em vermelho no gráfico acima) tem uma inclinação tal que aponte para um crescimento médio de 3% ao ano desde 1991. De forma muito muito muito simplificada, pode-se entender que 3% é uma possível taxa de crescimento do PIB potencial.

  • Ciclo

Os ciclos são os desvios dessa tendência de longo prazo. Num cenário de curto prazo, os desvios são mais frequentes e mais voláteis e não chegam a ser classificados como ciclos. Num período de médio-longo prazo, os desvios são mais persistentes e menos voláteis, lembrando a evolução de traçados trigonométricos, à la seno e cosseno. Esse movimento é caracterizado como a alternância de períodos de aceleração do crescimento (até o pico) e períodos de desaceleração do crescimento (até o vale, o ponto mais baixo de ciclo). A parte ascendente (de longo prazo) do ciclo é pró-ciclo e a parte descendente é anti-ciclo ou contraciclo. No geral, políticas econômicas especificas e intervenções governamentais são usadas para amenizar os efeitos anticíclicos (crescimento baixo ou recessão). Nos gráficos abaixo estão as taxas de crescimento anualizadas (ou seja, a taxa de X anos considera o crescimento anual médio dos últimos X anos). A taxa de 5 anos representa o resultado que o país teria obtido crescendo a uma determinada taxa média ano a ano. Destaca-se o eixo horizontal realçado em 3%, que é a tendência média de crescimento de longo prazo.

Ciclo 1-5 anos

Ciclo 1-5 anos

Estar crescendo acima dos 3% implicaria, nesse sentido, estar num período pró-cíclico, acima da taxa de crescimento “natural” (ou esperada ou potencial), até atingir um pico e depois declinar. Não é muito comum atribuir o período anticíclico (ou contracíclico) à desaceleração da taxa de crescimento quando a mesma está acima da natural. No geral, esse termo é mais utilizado quando a taxa de crescimento está mais próxima do vale do ciclo, ou seja, no período “pior” do que a média. Considerando a taxa de 5 anos, por exemplo, nota-se que a partir de meados de 2010 houve uma desaceleração da taxa de crescimento, mas que o patamar da taxa ainda era superior aos 3%. Vale lembrar que uma taxa de 3% real é relativamente alta, se for persistente. No curto prazo (curva de 1 ano no gráfico acima), é fácil ver a volatilidade mais alta.

No gráfico abaixo, a curva mais longa (10 anos) também está acima da média histórica nos últimos anos. É importante tem isso em mente, na sequência do post. Apesar de existir uma oscilação de curto prazo em torno da média, ela quase nunca é negativa! No longo prazo essa oscilação fica concentrada ao redor de 3%.

Ciclo 5-10 anos

Ciclo 5-10 anos

  • Recessão

A recessão, no sentido técnico dos economistas, é caracterizada por 2 trimestres consecutivos de crescimento negativo, ou seja, PIB caindo. É fácil ver que um crescimento natural de 3% não tem nada de recessivo. Um crescimento de 1% também não teria nada de recessivo, assim com um crescimento de 0,1%. No limite, o crescimento 0% representaria uma estagnação, mas ainda não seria uma recessão. As políticas econômicas que são destinadas a combater o viés de baixa dos ciclos funcionam muito mais no sentido de acomodar as recessões (perda de PIB) do que acomodar PIB abaixo do potencial (ritmo de crescimento mais baixo, mas sem entrar na parte recessiva).

  • A Política Econômica Brasileira (ou Paradoxo)

Com exceção à 2009, em que a economia mundial sentiu o efeito da crise, o Brasil não via um crescimento negativo anual do PIB desde 1992. Até ai não é de se estranhar, uma vez em que a taxa média de crescimento é de cerca de 3%. Nos últimos anos contudo a taxa de crescimento caiu, apesar de não ter sido recessiva. A expectativa para 2014 é de um crescimento em torno de 0%. Apesar disso, o mundo não recuou tanto assim o crescimento.

pib br mundoO Brasil dos últimos 4 anos quis incentivar o crescimento pelas vias erradas. Em um período de crescimento econômico mundial em recuperação, nosso desempenho foi o inverso, perdemos ritmo de crescimento. As políticas de aumento de:

  1. expansão de crédito (principalmente banco públicos: BB, Caixa e BNDES);
  2. subsídios setoriais;
  3. expansão de gastos públicos;
  4. investimentos sem necessidade de licitação (Regime Diferenciado de Contratações – RDC), inclusive de PAC2 e MCMV;
  5. regra de aumento de salário mínimo (boa no começo mas passível de crítica quando o custo da mão de obra cresce indefinidamente acima da produtividade do trabalhador);
  6. redução (na marra ou na caneta) da taxa de juros (que foi insustentável, como contata-se hoje);
  7. redução de IPI e outros impostos para setores específicos num momento já pós crise;
  8. escolha de “campeões nacionais” (para tentar elevar o emprego);
  9. ampliação de programas sociais a rodo (a crítica é na implementação, na falta de transparência e na gestão dos programas, assim como na mensuração dos resultados);
  10. redução à força do preço da energia (com direito a anuncio em cadeia nacional);
  11. retenção do preço da gasolina mais baixo que no mercado externo (para segurar inflação);
  12. outros (aqui o leitor fica a vontade para resgatar da memória outras medidas)

…foram todas destinadas a fazer o país crescer pela via heterodoxa. Não deu certo (a nova matriz econômica)! O que comprova isso são: (i) os dados de crescimento acima; e (ii) a postura de ajuste fiscal adotada no inicio da nova gestão presidencial e os anúncios de correções setoriais (com exceção da não correção da política de preços dos combustíveis).

  • Qual foi o resultado?

Em 2014 o crescimento deve ser zero! Em outras palavras, enquanto a taxa de crescimento ainda era positiva, todas as ações foram para tentar incentivar o consumo e o investimento. O consumo privado veio via importação (logo não houve investimento), gerando resultados piores na balança comercial e na conta corrente. O consumo público veio com aumento do custeio e desequilíbrio fiscal. A oferta interna e externa não foi capaz de acompanhar a expansão do consumo na mesma proporção, logo, houve aumento de preços, que faz com que a política monetária seja de viés de alta. O país perdeu credibilidade e o real perdeu valor.

  • O que faltou?

Olhar para o longo prazo, para a produção interna, para políticas transparentes, para as mudanças estruturais da economia que permitem um juros mais baixo e inflação mais baixa, que poderia colocar o investimento e o consumo num crescimento sustentado. Faltou planejamento, faltou olhar para frente e saber onde quer chegar, faltou desenhar estratégias, traçar metas e atingir resultados. Faltou liderança!

  • O que vem pela frente?

Agora que o PIB deve entrar em campo negativo, fala-se em ajuste fiscal: corte de subsídios, mudanças de leis trabalhistas, aumento de impostos, retenção de preço da combustíveis em patamar mais alto que o internacional (agora na via contrária), socialização dos erros setoriais (ex: ENERGIA) com a sociedade. Se quando não estava tão ruim e foram dados uma série de benefícios heterodoxos (de efeitos de curto prazo) a economia não avançou enormemente, agora que serão retirados tais estímulos é que não se deve esperar crescimento. Vem recessão, vem prejuízo para o povo.

Duas observações finais: (i) eu sou a favor dos ajustes fiscais (sobretudo os que reduzem as despesas do governo e não dos que aumentam a carga fiscal), mas eles já deveriam ter sido realizados antes, ou seja, vindo tudo de uma vez vai causar mais estrago; e (ii) se as ações e comunicações que estão sendo conduzidas são todas no caminho contrário dos últimos 4 anos, porque não reconhecer o erro /equívoco? Se não foi errado, não tem porque corrigir. Se não se reconhece o erro, vai continuar errando assim que derem outra oportunidade!

Esse é o paradoxo da economia brasileira: quando está mais ou menos bom, se faz política anticíclica e quando está entrando em recessão, toma medidas que irão aprofundar o vale do ciclo. Já há quem cunhe o termo de Política Econômica Bipolar (ver Mansueto).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: