Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 04/03/2015

Brasil – Uma perspectiva para 2015/2016 (Update Mar/15)


Veja as atualizações mais recentes emEXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 27/02/15, o cenário de crescimento econômico vai de mal a pior. Desde meados de 2013 as expectativas para 2014, 2015 e 2016 apontam trajetória de queda e continuam a ser revistos para baixo. Se em 2014 o PIB deve crescer 0% (economia estagnada), em 2015 o crescimento é negativo em 0,6% (economia em recessão) para apenas em 2016 voltar a crescer 1,5% (mesmo assim as projeções têm viés de baixa). A inflação que fechou 2014 praticamente no teto do intervalo tolerado (6,4%) está bem acima da meta (4,5%) para 2015 e 1 ponto acima do limite superior de tolerância de 6,5%, enquanto os juros fecharam o ano passado em patamar acima de quando a presidente assumiu (em 11,75%), com viés de alta para combater a inflação que continua em patamar elevado. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém (7,5% para 2015 e 5,5% para 2016), com convergência para meta no médio prazo (segundo o governo) enquanto a taxa de juros que deve oscilar dentro da casa de 2 dígitos nos próximos anos, com expectativa de 13,0% para 2015 e 11,5% para 2016 (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção do mercado sobre vários indicadores econômicos). Nesse cenário de inflação e juros altos, as projeções de PIB devem continuar em baixa. O que eu digo aos meus amigos é que o país está paralisado, em ponto morto.

  •  PIB

Se por um lado houve uma aceleração do PIB de 2012 a 2013, todo o efeito se foi em 2014 (logo, não foi um crescimento sustentado), com um repique de queda de PIB para esse ano de 2015. A saber, os dados de PIB de 2014 devem ser divulgados ainda em março. Se a gente der sorte, voltamos a crescer em 2016, partindo de uma base já deteriorada em 2015. Os erros na condução da política macroeconômica (uma vez que estão sendo tomadas medidas que corrigem ações anteriores da própria política econômica, não se deve de forma nenhuma dizer “acertos da política macroeconômica”) deterioraram todos os resultados, que persistem nos próximos anos. A partir de meados de 2013, como se nota no gráfico, já se anunciava uma deterioração do PIB para os anos seguintes. Dessa forma, o crescimento de 3,5% foi se mostrando uma fantasia, assim como foi uma fantasia acreditar em 3%, em 2,5%, em 2%, em 1,5%, em 1%! O que se espera para o resultado de 2014 e dos próximos 2 anos é um resultado fraco do ponto de vista de crescimento.

pib_anual_20150303

Além da condução fracassada da política econômica, com estímulos setoriais confusos (que estão sendo revistos/corrigidos), políticas de crédito com operações bagunçadas entre BNDES e tesouro, corrupção na Petrobrás envolvendo as principais empreiteiras do país, inflação sustentada em patamar alto e desregulação setorial na área de energia, estragam a credibilidade do governo. Os impactos das ações erradas nós vemos hoje (e é a razão de se usar o termo “fracasso da política econômica”). Os próximos 2 anos deverão ser difíceis para emprego e renda. Torce-se para que os ajustes na condução da economia aconteçam nesses próximos anos para que possamos colher algum fruto a partir de 2017 (sim, 2017!).

  • Inflação

O que não ajuda é a inflação persistentemente em nível alto. Em 2014, a inflação fechou em 6,4%, ou seja, no limite superior do intervalo de tolerância (chamado de “teto” mas não se deve confundir com a expressão usada de forma errada “teto da meta”, pois a meta é um objetivo e o teto é uma flexibilização/afrouxamento do conceito). Em virtude da inflação em alta e passado o período eleitoral, o BC vem aumentando a taxa de juros (1,25pp em três reuniões depois de 3 reuniões sem mexer nos juros no período eleitoral). Passível de crítica? Sim e Não! É importante deixar em águas passadas a atuação do BC no período eleitoral e celebrar que alguém deu um sinal positivo na condução da política monetária e reconhece (ao elevar os juros) o problema.

O que se pode criticar é a atuação do governo em represar as notícias de movimento de preços administrados (ex: energia, gasolina) que fez com que a expectativa de inflação para 2015 ultrapassasse bastante o limite superior de tolerância da política monetária (linha verde no gráfico abaixo). Para 2016 espera-se uma inflação mais baixa, que apesar de ser uma notícia boa, é decorrente do baixo crescimento / estagnação da economia. Em uma economia parada, ver os preços crescerem 5,5% não é necessariamente positivo, mas é melhor do que 7,5% e um pouco mais perto da meta. A inflação alta tem um impacto negativo na economia pois, com preços mais elevados, as pessoas compram menos.

selic_final_anual_20150303

  • Juros

O remédio tradicional para inflação alta é aumento de juros, o que não é novidade para nenhum economista, quem dirá para equipe econômica do governo (espero). Soma-se a isso o cenário político-eleitoral (de represamento de preços e contenção de juros) e o que temos é uma inflação que deve ser a mais alta dos últimos anos e uma taxa de juros equivalente para combater o aumento de preços. O diagnóstico até alguns meses atrás é que tudo ia bem, mas não parece ser o caso. É fácil ver a montanha russa da curva de juros (gráfico abaixo). Como dito antes nesse blog, a magnitude da oscilação não reflete a maturidade ou os acertos da política monetária, pelo contrário, reflete as frequentes intervenções do governo na economia e causa incertezas e fortes correções de rumo (ao invés de trajetórias suaves ou curvas curtas de ajustes). Devemos ter um juros na casa dos 2 dígitos até o final de 2017, o que enfraquece a perspectiva de um aumento razoável no investimento produtivo, uma vez que a esses juros a remuneração financeira é bastante mais lucrativa.

selic_efetiva_mes_20150303

O que de fato acontece é que desde 2013 (como mostra o gráfico abaixo) as expectativas de elevação de juros já começaram a aparecer. Isso já indicava na época sinais de problemas, por parte do diagnóstico do mercado. A inflação já estava alta e nada mudou (até piorou em 2015). Como o diagnóstico dos problemas (por parte do governo) continuava errado e as formas de combate aos problemas também, o cenário não melhorou. Fechamos 2014 com a taxa de juros mais alta dos últimos anos e das mais altas do mundo. Enquanto os juros estiver nesse patamar, não há motivos para tirar da gaveta projetos de investimento que remunerem menos que a SELIC, pois ninguém é bobo. A infraestrutura não vai melhorar, o país não vai melhorar.

selic_final_anual_20150303

Nessa perspectiva, temos os próximos anos de crescimento baixo, inflação elevada e taxa de juros elevada, se nada mudar. O Brasil está parado numa encruzilhada. O cenário cada vez mais revela os sinais de uma estagflação, uma vez que o mercado de trabalho deve começar a apontar os resultados ruins do resto da economia e a inflação já faz seu papel nesse cenário. Resta torcer para a nova equipe econômica ter apoio para realizar os ajustes que de fato colocarão a economia num caminho de crescimento sustentado (e não só apagar incêndio das contas do governo). Os desafios são muitos, mas se a afirmação é de que estamos parados, é fácil então intuir que também não estamos indo para trás, como pregam alguns mais alarmistas.

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