Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 08/06/2015

Brasil – Uma perspectiva para 2015/2016 (Update Jun/15)


Veja as atualizações mais recentes emEXPECTATIVAS DE MERCADO (Updates)

De acordo com a pesquisa das expectativas do mercado, realizada pelo Banco Central do Brasil (BCB) com expectativas até 05/06/15, o cenário de crescimento econômico se parece com um desfiladeiro. Enquanto a expectativa no início de 2013 (2,5 anos atrás) para o crescimento do PIB em 2015 se encontrava próximo de 3,5%, o que se vê hoje é uma expectativa de retração de 1,3%. Com sorte 2016 crescerá 1% e não será capaz recuperar as perdas de 2015. Considerando também o ano que passou, são 3 anos de estagnação econômica com inflação em alta. São 3 anos de perda de poder de compra. São 3 anos (no mínimo) de consequência dos erros econômicos e políticos dos últimos anos.

A inflação que fechou 2014 praticamente no teto do intervalo tolerado (6,4%) está bem acima da meta (4,5%) para 2015 e 1 ponto acima do limite superior de tolerância de 6,5%, enquanto os juros fecharam o ano passado em patamar acima de quando a presidente assumiu (em 11,75%), com viés de alta para combater a inflação que continua em patamar elevado. Para os próximos anos a expectativa de inflação acima da meta se mantém (8,5% para 2015 e 5,5% para 2016), com convergência para meta no médio prazo (2019!, sim é frustrante) enquanto a taxa de juros que deve oscilar dentro da casa de 2 dígitos nos próximos anos, com expectativa de 14,0% para 2015 e 12,0% para 2016 (lembrando que a pesquisa FOCUS reflete uma percepção do mercado sobre vários indicadores econômicos). Nesse cenário de inflação e juros altos, as projeções de PIB devem continuar em baixa.

  • PIB

Olhar pra frente no Brasil é triste. É triste pois não há luz no túnel tão cedo. Vamos continuar nesse escuro econômico, nesse escuro político, nesse escuro de serviços públicos (na qualidade que merecermos), nesse escuro de corrupção, nesse escuro de liderança. Vamos ascender uma vela e seguir em frente, lutando e tentando progredir apesar desse governo que se pendura e se arrasta e atrapalha nossa vida. Se desde 2011 já havia sinais de esgotamento do modelo econômico, não é por falta de alerta que o PIB de 2014 cresceu 0,1%, que o PIB de 2015 será negativo e que em 2016 ainda não vamos ter recuperado o que perdemos. Pois bem, se saímos de uma perspectiva de crescimento de 3,5% para -1,3% esse ano (são 4,8% de diferença entre o que poderia acontecer e o que vai acontecer). Isso somados às diferenças entre o que se espera de crescimento potencial para o país (3,5%) também para 2014 e 2016, em 3 anos chega-se a 10% de renda que não será criada. Significa 10% de aumento de salários que não vão acontecer, pois a política econômica cometeu inúmeros erros. São 10% de um PIB de 5,5 tri, que cobre qualquer ajuste fiscal!

pib_anual_20150608

Bom, como a luz no fim do túnel está (bem) lá na frente, temos que torcer para que o Levy (nadando contra a maré) consiga corrigir o que foi feito de errado nos últimos anos. O ano de 2015 está sendo considerado o ano do ajuste, com cortes de despesas e investimentos. O país está parando e até andando para trás. O desemprego está aumentando, a arrecadação deve ser mais fraca e isso requer um novo ajuste para fechar as contas. Não é fácil para ninguém, mas é mais fácil para políticos, que não sentem crise, que não sentem falta de renda e que não sentem desemprego. Enquanto a presidente fica com “popularidade em baixa”, o cidadão (na maioria quem a escolheu) fica com desemprego, “renda em baixa”, dívida em alta e sofrimento para toda família. Seria maldade (talvez) dizer que isso deveria servir de lição, mas isso deveria servir no mínimo de reflexão. Um ditado que acompanha o homem desde que deixamos de ser nômades já alertava: a gente colhe o que planta.

  • Inflação

Há duas informações interessantes sobre a inflação, antes de iniciar propriamente o tema:

  1. É da minha opinião que o Banco Central falha terrivelmente em perseguir sua meta. O gráfico abaixo mostra como tem sido a inflação nos últimos anos e como deveria ter sido, caso tivesse atingido a meta. Em 2007 a inflação ficou na meta, em 2008 já saiu da meta, em 2009 (ano de crise) a queda da inflação não teve nada a ver com a política de juros e, desde então, não existiu política de meta de inflação. A conclusão é simples e baseada no fato que deve demorar 10 anos para que o BC consiga novamente atingir a meta. No Brasil as coisas funcionam assim, acho. meta_inflacao_20150608
  2. Os preços administrados estão sim fazendo um estrago forte no IPCA de 2015. No gráfico abaixo vemos que a partir de 2012 o governo passa a usar mais intensamente o represamento de preços administrados para combater a inflação. O que se nota é uma queda expressiva dos reajustes de preços como gasolina e outros itens que o governo controla os reajustes. Isso prejudica o mercado e bagunça a economia (veja o exemplo do setor elétrico e da Petrobras). Desarrumar a economia tem um preço, que é cobrado cedo ou tarde. A política de manutenção de preços administrados ficou insustentável em 2014 e teve de começar a ser revista.  Tendo ganhado as eleições e carimbado o passaporte para Brasília, a atual presidente resolveu que já podia desmentir tudo aquilo que disse pra ganhar as eleições. “Solte os leões, libere os preços administrados” – disse. Resultado? É o que vemos abaixo. Nos primeiros meses do ano o nível médio de aumento dos preços administrados é de quase 14%. Dá pra dizer alguma coisa diferente disso? IPCA_livres_adm_20150608

Sendo assim, também não é fácil enxergar a luz no fim do túnel. Ela está lá! Em algum lugar! Devemos encontrá-la em 2019! Se ficarmos por conta das expectativas e com os pés um pouco mais no chão, temos que em 2015 a inflação deve se aproximar de 8,5%, apesar das ações do BC. Desde o inicio do ano as expectativas são só crescentes, impulsionadas pelo fato de que, se 2015 vai ser horrível sob todos os aspectos, é melhor concentrar todos os resultados negativos nesse ano. Além disso, como o ano deve ser de atividade econômica fraca, não é de se esperar aumento de preços de produtos nem de salários. Por esse motivo, a inflação em 2016 já deve ser mais baixa. Vale notar que após o período eleitoral (quando dizia-se que a inflação estava sob controle) já foram 6 reuniões do BC com aumento da taxa de juros (apresentado no gráfico).

ipca_anual_20150608

  • Juros

Nesse cenário de crescimento baixo, um dos remédios tradicionais é a redução de juros, para estimular a atividade econômica. Nós no Brasil fazemos o inverso, porque os manuais de economia estão errados. Nós aumentamos o juros quando o PIB está em queda, pois segundo os mesmos manuais de economia, uma das ferramentas para combater a inflação é o juros. Assim, o governo que represou os preços administrados no passado e abriu as comportas em 2015 faz explodir a inflação. (Ah, mas o BC não olha tanto o preço administrado, olha os livres! Genial!). A alta dos preços administrados (vou falar só dois que quase não afetam a população) como gasolina e energia tem ENORME repercussão nos preços livres. Todos os serviços praticamente são afetados, visto que é importante ter energia para funcionar as luzes, o ar condicionado, os computadores, as geladeiras e congeladores de restaurantes e supermercados e uma outra imensidade de itens que depende de energia para funcionar. Além disso, toda a cadeia logística sofre com aumento do preço de combustíveis. Em ambos os casos, quem paga é o consumidor final, logo os preços administrados impactam fortemente nos preços livres.

Para conter esses impactos, sobe-se os juros.

selicf_anual_20150608

Uma conta simples mostra que, considerando o período eleitoral em a taxa de juros ficou congelada artificialmente e por ordens superiores ao BC, esse é o maior ciclo de aumento continuo de juros desde que o país adotou a meta de inflação. Foram 6,5 pontos de aumento nas últimas reuniões, o que mais uma vez reflete uma condução ruim e pouco parcimoniosa do BC. Ao final de 2015, a taxa SELIC deve subir ainda mais 0,25 ponto e fechar o ano em 14% de juros ao ano. Para 2016 não há novidades, mas a taxa deve ficar em torno de 12% ao ano, a depender da inflação.

selic_mensal_20150608

Então, em um caso nós rejeitamos os manuais e em outro nós adotamos os manuais. É essa a política econômica no Brasil. Não é a toa que os resultados não saem iguais ao previsto. Quando se faz algo diferente da receita (ou algo errado, palavra que é mais adequada ao caso), não se pode obter resultados certos. Aquele pontinho branco lá na frente, bem lá na frente, pode ser que seja a luz no fim do túnel, mas nessa velocidade que estamos, vai demorar pra chegar lá. Enquanto isso, continuamos a ser o país do futuro!


Responses

  1. Excelente matéria, sera que uma crise internacional grave na Europa pode alavancara mais ainda nossas taxas de juros?

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