Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 12/06/2015

(Des) Emprego no Brasil (1)


O mercado de trabalho no Brasil, que estava em plena desaceleração, agora passa a produzir números ainda mais preocupantes: o desemprego está aumentando. Essa informação não deve ser nova para quem acompanha o tema, mas serve de aviso a quem olha economia com um olhar mais distante. O desemprego significa, de um lado, menos produção (menor oferta de produtos), e de outro lado, menos renda (menor demanda de produtos). É um efeito duplo no qual um reforça o outro. Menos renda repercutirá novamente em menor demanda, que fará com que a produção seja menor novamente, que resultará em mais demissões. É uma espiral negativa.

Há muitas formas de se olhar o desemprego no país, no sentido de haver muitas pesquisas diferentes que observam e constatam diferentes aspectos. O CAGED (mensal) e a RAIS (anual) são ambos levantamentos do Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo o Ministério,

  • A RAIS é um Registro Administrativo, de periodicidade anual, criada com a finalidade de suprir as necessidades de controle, de estatísticas e de informações às entidades governamentais da área social. Constitui um instrumento imprescindível para o cumprimento das normas legais, como também é de fundamental importância para o acompanhamento e a caracterização do mercado de trabalho formal.
  • O CAGED constitui importante fonte de informação do mercado de trabalho de âmbito nacional e de periodicidade mensal. Foi criado como instrumento de acompanhamento e de fiscalização do processo de admissão e de dispensa de trabalhadores regidos pela CLT, com o objetivo de assistir os desempregados e de apoiar medidas contra o desemprego. A partir de 1986, passou a ser utilizado como suporte ao pagamento do seguro-desemprego e, mais recentemente, tornou-se, também, um relevante instrumento à reciclagem profissional e à recolocação do trabalhador no mercado de trabalho.

Há algumas diferenças entre as duas pesquisas.

RAIS_CAGED_dif       Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego

A última divulgação disponível do CAGED é referente ao mês de abril desse ano. No primeiro quadrimestre de 2015, a economia encolheu e fechou 162,7 mil postos de emprego, em termos líquidos (admissões – demissões). É fácil ver no gráfico abaixo que a economia vem perdendo força desde 2010, ou seja, são 4 anos apontando para nós a desaceleração do mercado de trabalho e um ano de inevitável aumento do desemprego. Isso não é discurso ou posição política, isso é fato e isso é economia. Tirar uma visão positiva desse gráfico, como quer o Ministro do Trabalho, Manoel Dias (que diz que “Há um discurso pessimista e que assusta a população. Porque a crise política é que afeta a econômica.” – link), não é fácil. Dizer aos 162 mil desempregados desses 4 meses que a crise é política é uma autoenganação, uma vez que os principais indicadores econômicos (PIB, produção, emprego, investimento, vendas, finanças públicas…) apontam na direção de uma crise econômica. Há uma crise política (de governabilidade e contaminação de casos de corrupção) e há uma crise econômica, mas ambas param em pé sem a outra. O problema maior é que elas se entrelaçam e andam de mãos dadas, mas é impossível negar a crise econômica.

CAGED_emprego_total_20150608

CAGED – Brasil (Geral)

É importante também ressaltar que há casos e casos, ou, setores e setores. Em alguns setores o efeito da crise é mais acentuado do que em outros. O setor que apresenta maior dificuldade é o Comércio, que já fechou nesse ano 146 mil vagas. Nota-se que nos últimos anos, no geral, o inicio de ano não é bom para o comércio, mas em 2015 o resultado é bastante acentuado. A Construção Civil também não apresenta resultados animadores. São 76 mil empregos que deixaram de existir em todo país no últimos 4 meses. A Indústria de Transformação perde 40 mil postos de trabalho e puxa o resultado negativo da Indústria no geral. Bem ou mal, os Serviços estão mantendo as contratações, mas em ritmo muito menor do que nos últimos anos. Essa é uma tendência pode se reverter nos próximos meses e teríamos todos os setores demitindo. Gosto de torcer para que não chegue a esse ponto, mas não é fechando os olhos que isso deixaria de acontecer.

CAGED_emprego_setores_20150608

CAGED  – Brasil (Setores)

Do ponto de vista regional, é triste ver que apesar de todo apoio social e iniciativas de fomento econômico, a região que mais sofre é a Nordeste, possivelmente com um mercado de trabalho mais frágil. Nos últimos anos, o primeiro quadrimestre do ano é de fechamento de empregos, destacando-se 2015 dos demais anos, com 123,1 mil vagas a menos. Na sequencia, o grande motor do país também sofre. O Sudeste fechou nos primeiros 4 meses do ano 94 mil vagas. O Norte segue a mesma tendência e fecha 30 mil vagas nesse mesmo período. Também o Sul e o Centro Oeste reduziram fortemente o ritmo de expansão de contratações, que também poderá se inverter nos próximos meses.

CAGED_emprego_regioes_20150608

CAGED – Brasil (Regiões)

No acumulado de 12 meses, as trajetória são mais preocupantes. Em 12 meses, de maio de 2014 a abril de 2015, foram fechadas 418 mil vagas, corroborando a tendencia de destruição de postos de trabalho dos primeiros 4 meses do ano. É fácil ver o formato de montanha russa no gráfico abaixo. Desde o início do ano já estamos operando com demissões. A consequência é o aumento do desemprego que vemos nos indicadores da Pesquisa Mensal do Emprego e da PNAD Contínua.

Setorialmente, a Indústria e a Construção Civil estão em situação bastante ruim. São 327,5 mil e 287 mil vagas fechadas, respectivamente. Somados esses setores, são 614 mil empregos destruídos. O setor de Serviços tem “salvado o dia”, no sentido de apresentar 186 mil vagas criadas em 12 meses. Apesar disso, ao observar no gráfico a linha laranja, referente ao setor, não é difícil traçar uma tendência.

CAGED_emprego_total_12meses_20150608

CAGED, Acumulado em 12 meses – Brasil (Geral e Setores)

Nesse cenário, vamos precisar de MUITA confiança e MUITO esforço para que o país voltar a crescer. É preciso reconstruir a credibilidade do Brasil, garantir a competitividade da economia e atrair investimentos. Em tempos de ajuste fiscal com aumento de impostos sobre empresa e sobre as pessoas, aumento de juros, revisão (para pior) de regras “permanentes” (como é o caso da desoneração de folha, que era pra ser permanente conforme a lei), desemprego em alta, inflação em alta e renda em queda (que implica em redução do consumo), é um cenário que não será melhorado da noite pro dia. Resta continuar acreditando que o país vai melhorar… daqui uns anos.

 

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Responses

  1. […] forma de ver a mesma constatação do post anterior [(Des)Emprego no Brasil – link] é através da Pesquisa Mensal de Emprego, do IGBE (link IBGE – link SIDRA). De […]

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