Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 25/06/2015

Quem mexeu no meu superávit primário? (1)


Antes de iniciar, vale lembrar que esse post segue como uma paródia após a leitura do livro “Quem mexeu no meu Queijo?” de Spencer Johnson (saiba mais – Wikipedia), cuja leitura é rápida e cheia de aprendizados. A inspiração do livro acrescentada à atual situação fiscal do país me faz crer que é possível uma analogia/paródia com o texto. O resultado é esse post, dividido em algumas partes para não ficar tão cansativo. De antemão, já me prontifico a dizer que o texto não se propõe a ser tão instrutivo quanto o original, mas é uma forma descontraída de analisar o problema.

Quem mexeu no meu Superávit Primário?

Uma maneira fantástica de lidar com as mudanças em seus Recursos e em sua vida.

A História

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 Há muito tempo, em um país muito distante, quando as coisas eram diferentes, havia quatro personagens que percorriam através de um labirinto à procura de recursos para pagar suas contas e fazer o superávit primário para alimentar sua confiança e fazer felizes a todos.

Dois eram estrangeiros, chamados Singa e Alê, e dois nativos – seres que se pareciam muito com as pessoas de hoje, e agiam como elas. Seus nomes eram Joaquim e Eujênio (sim, com “J” de jumento).

Todos os dias os estrangeiros e os nativos procuravam no labirinto seus recursos para chegar ao próprio superávit primário. Singa e Alê, possuindo apenas cérebros simples de estrangeiros, mas instintos aguçados, procuravam pelos recursos que lhes renderia o superávit primário de que gostavam.

Os dois nativos, Joaquim e Eujênio, usavam seus cérebros, cheios de muitas crenças, para procurar um tipo muito diferente de superávit – com S maiúsculo – que achavam que os tornaria felizes e bem-sucedidos.

Embora os estrangeiros e os nativos fossem diferentes, tinham algo em comum: todas as manhãs vestiam eles organizavam suas ferramentas para trabalhar e arrumavam-nas nas suas maletas, saíam de suas casas e se dirigiam para o labirinto à procura de seus recursos favoritos. Quando voltavam para casa eles pegavam os recursos e utilizavam para pagas suas contas.

A diferença entre o que eles pagavam de contas e os recursos que eles traziam para casa eles chamavam de superávit primário, quando sobrava dinheiro. Quando faltava dinheiro eles chamavam de déficit primário, pois tinham déficits. O resultado primário, logo, podia ser positivo, negativo ou zero.

Como suas casas possuíam dívidas, eles tinham que pagar juros para bancos, mas esse cálculo não era feito por eles. Ao déficit ou superávit primário era adicionado por um contador externo o pagamento dos juros, indicando o resultado nominal.

Enquanto houvesse superávit primário, o contador sabia que haveria um dinheiro sobrando para o pagamento de juros e ficava tranquilo. Quando não havia superávit primário – mas déficit – o contador ficava inquieto e alvoroçado, pois sabia que não haveria dinheiro para pagar os juros e os bancos ficariam furiosos e deixariam de emprestar dinheiro.

Dessa forma, o labirinto era de onde os estrangeiros e os nativos tiravam seu sustendo. Cabe dizer que o labirinto era um emaranhado de corredores, alas e setores, alguns contendo recursos pujantes e duradouros. Mas também havia cantos escuros e becos sem saída, com recursos oriundos de corrupção e propina. Era um lugar fácil para se perder.

Contudo, para aqueles que encontravam seu caminho, o labirinto tinha segredos, aprendizados e Recursos que lhes permitiam ter uma vida melhor.

Os estrangeiros, Singa e Alê, usavam o método simples, o das tentativas e erros de encontrar os recursos para o superávit. Uma vez que eles encontravam Recursos, eles memorizavam seus passos e tentavam errar o menos possível com seus erros. Quanto ao método, eles caminhavam por um corredor e, se o encontrassem vazio, viravam-se e caminhavam por outro.

Alê descobria a direção dos recursos, usando seu grande empreendedorismo e pouca burocracia de pensamentos, e Singa corria na frente, inovando sempre em tecnologia e em novas ferramentas. Como se poderia esperar, eles se perdiam algumas vezes, seguiam pelo corredor errado e frequentemente se chocavam em grandes paredes chinesas e em tragédias gregas. Mas os dois nativos, Joaquim e Eujênio, usavam um método diferente e confiavam em sua capacidade de pensar e aprender com suas experiências, embora às vezes ficassem confusos com suas crenças, emoções e ideologias.

Finalmente, usando seus próprios métodos, todos eles descobriram o que estavam procurando – um dia, encontraram seu próprio tesouro no final de um dos corredores na Ala Impostos.

Depois disso, todas as manhãs os estrangeiros e os nativos organizavam suas ferramentas e suas maletas e se dirigiam a Ala de Impostos.

Não demorou muito para uma rotina ser estabelecida.

Singa e Alê continuaram a acordar cedo todos os dias e caminhar pelo labirinto, seguindo sempre o mesmo caminho. Quando chegavam a seu destino, os estrangeiros colocavam as maletas sobre uma mesa, retiravam e organizavam as ferramentas dispostas de uma forma fácil de usar ao lado da maleta, todas com seus encaixes – para ser possível guarda-las rapidamente e de forma eficiente, sem perder tempo, sempre que necessário. Então exploravam os recursos e em casa não gastavam muito para pagar suas contas. Eles geravam superávit primário.

Uma rotina diferente foi estabelecida pelos nativos. Joaquim e Eujênio acordavam todos os dias um pouco mais tarde, vestiam-se sem muita pressa e se dirigiam até o Ala de Impostos. Afinal de contas, agora sabiam onde os recursos estavam e sabiam como chegar lá.

Eles não tinham ideia de onde os Recursos vinham. Simplesmente presumiam que estaria naquele lugar. Quando chegavam em casa a noite, usavam os recursos para pagar as contas e o que sobrava era também superávit primário.

Todas as manhãs, logo que chegavam a Ala de Impostos, eles se instalavam ali sem a menor cerimônia. Apoiavam a maleta na mesa mas não chegavam mais a abri-la, porque achavam que não precisariam delas de novo, agora que haviam encontrado os Recursos. Era só pegar e levar para casa, uma quantidade enorme de Recursos disponíveis, livre, prontos para serem usados.

– Isso é ótimo – dizia Joaquim . – Há Recursos suficientes aqui para nos manter para sempre! – Os nativos sentiam-se felizes e bem-sucedidos, e achavam que agora estavam seguros.

Logo Joaquim e Eujênio passaram a considerar os Recursos que encontravam no Ala de Impostos como sendo apenas seus Recursos. O estoque era tão grande, que eles acabaram se mudando para a Ala Avião, mais perto da Ala de Impostos, e criaram uma vida social ao seu redor. Criaram empregos e contrataram outros nativos para ajudar nas contas quando chegavam em casa com os Recursos. Também pagavam todas as despesas dos nativos funcionários, mas nunca estavam em casa durante o dia para ver se o trabalho estava sendo feito de verdade. Mesmo assim, apesar da casa ir inchando, chegavam em casa felizes com os Recursos que tinham obtido.

Para se sentir mais em casa, construíram novos cômodos para os funcionários nativos, gastaram bastante mesmo para que todos ficassem confortáveis. Decoraram as paredes com frases e até mesmo as contornaram com desenhos de Recursos, que os faziam sorrir.

Umas das frases dizia:

Ter Impostos me faz Feliz.

Às vezes Joaquim e Eujênio levavam seus amigos para ver sua pilha de Recursos na Ala Impostos e apontavam para ela com orgulho, observando:

– É um estoque de Recursos muito bom, não é? – Às vezes o ofereciam a eles, às vezes não.

– Nós merecemos este Recurso – disse Eujênio. – Tivemos de nos esforçar muito para encontrá-lo. – Ele pegou um pedaço de Recurso e o guardou em sua cueca… quer dizer, maleta.

Então tomou um leve aperitivo de aguardente caiu no sono, como costumava fazer.

Todas noites os nativos andavam bamboleando para casa, cheios de Recurso, e todas as manhãs voltavam confiantemente para pegar mais.

Isso aconteceu durante algum tempo.

Pouco a pouco a confiança de Joaquim e Eujênio se transformou em arrogância.

Logo eles passaram a se sentir tão tranquilos que nem mesmo perceberam o que estava acontecendo. As contas estavam aumentando e os Recursos que sobravam eram cada vez menores, ou seja, estavam fazendo menos superávit primário.

Enquanto o tempo passava, Singa e Alê mantinham a sua rotina. Chegavam cedo todas as manhãs, preparavam suas maletas, organizavam suas ferramentas e percorriam pela Ala Impostos, inspecionando a área para saber se tinha havido mudanças desde o dia anterior. Então se sentavam para desfrutar dos Recursos.

O contador ligava todos os dias para os estrangeiros e nativos para avisar da sua situação. Enquanto os Recursos eram fartos, todos conseguiam o tal superávit primário, mesmo que fossem cada vez menores. Tanto os estrangeiros quanto os nativos passaram a aumentar também seus gastos e não havia problema.

Uma manhã Singa e Alê chegaram a Ala Imposto e descobriram que os Recursos haviam congelado. Aquele estoque todo que era enorme na verdade era agora a medida exata para pagar suas contas.

Singa e Alê não ficaram surpresos. Desde que perceberam que o estoque tinha vinha parando de crescer a cada dia, prepararam-se para o inevitável e sabiam instintivamente o que fazer. Todas as noites quando chegavam em casa notavam que sobrava cada vez menos para o superávit primário. O contador se certificava de alertá-los.

Como viam que a diferença entre o que conseguiam de Recursos e o que gastavam era cada vez melhor, sabiam que iam chegar no limite de saldo zero e, eventualmente, no negativo depois disso. Tiveram que começar a pensar, em suas ideias simples, que havia duas coisas a fazer: achar outro lugar para obter mais Recursos ou reduzir suas despesas (ou as duas coisas). Invariavelmente, se não obtivessem mais Recursos, restaria tão apenas e somente a opção de fazer ajustes nos gastos que faziam.

Assim, eles olharam um para o outro, pegaram as maletas e suas ferramentas e passaram a procurar outras Alas onde pudessem ter mais Recursos. Enquanto isso não acontecia, eles chegavam em casa à noite e iam aos poucos cortando despesas, pois era a única coisa que poderiam fazer.

Os estrangeiros não analisavam demais as coisas. E não tinham muitas crenças complexas. Para eles o problema e a solução eram simples. A situação no Ala Imposto havia mudado. Por isso, Singa e Alê decidiram mudar sua forma de agir também.

Ambos olharam para o labirinto. Então Singa desenvolveu novas ferramentas e fez um sinal afirmativo com a cabeça para Alê, que começou a percorrer novamente o labirinto, explorando caminhos verdes e tenros, enquanto Singa o seguia apressadamente. Também notaram que haviam gastos desnecessários e cortaram essas despesas. Havia também gastos importantes mas que estavam inflados, com valores muito mais alto do que deveriam ser e que só agora tinham notado. Como esses gastos não podiam ser cortados integralmente, eles os mantiveram, mas foram utilizados de forma mais efetiva e até conseguiram alguma economia.

Eles partiram logo à procura do novos Recursos e uma nova forma – mais prudente e responsável – de gastar aquilo que tinham.

Mais tarde, Joaquim e Eujênio chegaram a Ala Impostos. Eles não haviam prestado atenção às pequenas mudanças que ocorriam diariamente e, por isso tinham como certo que seu estoque gigantesco de Recursos estaria lá.

Não estavam preparados para o que descobriram.

– O quê? Não há mais Recursos sobrando? – gritou Joaquim. Ele continuou a gritar: – Não há mais Recursos? Não há mais Recursos? – como se gritando muito alguém fosse colocá-lo novamente na Ala Imposto. – Como eu vou pagar as contas? Como eu vou pagar as contas? – se lamentava. – O que vai acontecer com o superávit primário? O que vai acontecer?

– Quem mexeu nos meus Recursos? Quem mexeu no meu Superávit Primário? – berrou Joaquim.

Finalmente, Eujênio pôs as mãos nos quadris, seu rosto foi ficando vermelho, e gritou o mais alto que pôde:

– Isso não é justo! Quem faria isso comigo? Onde estão essas forças ocultas que acabaram com os Recursos? Isso só pode ser coisa da oposição golpista! Não podemos nos deixar levar essa bola nas costas!

Joaquim apenas balançou a cabeça, incrédulo. Ele também havia achado que encontraria mais Recursos na Ala Imposto. Durante muito tempo, ficou paralisado com o choque. Simplesmente não estava preparado para o que ocorrera.

Joaquim estava gritando algo, mas Eujênio não queria ouvi-lo. Não queria enfrentar a situação, por isso apenas “saiu do ar”.

Embora o comportamento dos nativos não fosse muito correto ou produtivo, era compreensível.

Encontrar mais Recursos não era fácil, e aquilo significava muito mais para os nativos do que apenas ter o suficiente para comer todos os dias. Eles tinham que pagar um monte de contas que fizeram nos períodos anteriores e os Recursos não bastavam mais. Isso iria comprometer o superávit primário e teriam que justificar isso.

Encontrar Recursos era o seu modo de obter o que achavam que os tornaria felizes. Tinham suas próprias ideias do que o Recursos significava para eles, dependendo de seu valor.

Para alguns, encontrar Recursos era ter coisas materiais, mansões, barcos, carros de luxo, apartamentos diversos. Para outros era ter boa saúde, ou uma sensação de bem-estar espiritual.

Para Joaquim, encontrar Recurso significava apenas sentir-se seguro, ter um dia uma família amorosa e com saúde, filhos na escola e viver em um chalé confortável na rua Tributos.

Para Eujênio, significava alcançar o sucesso, subir à presidência, ser responsável por outras pessoas e discursar para elas, pregar sua ideologia, encher seu cofre, ter uma grande casa no topo da Colina Arrecadação e uma bicicleta cara para poder pedalar, seu esporte favorito.

Como os Recursos e, principalmente, o superávit primário eram importantes para os dois nativos, eles passaram muito tempo tentando decidir o que fazer. O contador já vinha alertando para a situação a muito tempo, mas os nativos não quiseram escutar. Quando o contador disse que os bancos já estavam preocupados e teriam que rever o “rating” suas dívidas, os nativos ficaram mais preocupados. Nesse momento surgiram muitas ideias mirabolantes. Pensaram até em contratar um especialista de bancos para ajudar a entender o que poderia ser feito. (Não chegou a acontecer, nesse mundo paralelo). Tudo em que podiam pensar era em continuar olhando para a Ala Imposto vazia para ver se os Recursos realmente não estavam mais lá na escala que precisavam.

(continua…)

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