Publicado por: Flávio Samara | 26/06/2015

Um programa só para exportar não é um programa para o desenvolvimento do comércio externo


Um programa só para exportar não é um programa para o desenvolvimento do comércio externo

O Governo lançou nesta semana mais um programa que objetiva o aumento das exportações. O governo acerta na identificação da estatística preocupante que aponta o quanto fechado o país é, mas erra no diagnóstico do problema e piora na solução.

O comércio é um dos pilares para o desenvolvimento de países. O comércio permite que nações expandam suas possibilidades de consumo: o sueco pode comer bananas em seu gélido país graças às importações de países tropicais.

O comércio permite a difusão de novidades tecnológicas e informações – a história aponta que a razão para países como os EUA terem se desenvolvido após a Revolução Industrial na Inglaterra foi devido a laços comerciais que mantinha com esta nação.

E onde o Brasil está neste quesito? Em uma posição que não reflete em nada o tamanho e importância econômica que o país realmente é. Uma forma de medir o grau de abertura de um país é somando as exportações e importações, dividindo então pelo PIB do país.

25_6.Tabela

O que os dados apontam? Que o problema não é que o Brasil exporta pouco. O problema é que o Brasil exporta MUITO pouco e importa MUITO pouco também. Na média, os países possuem valores similares de exportação e importação. Os pontos fora da curva, Alemanha e China, destacam-se por serem grandes exportadores mundiais. Mas ainda sim, possuem um nível de importação sensivelmente superior ao do Brasil.

Qual a mensagem aqui? Nenhum país se torna um grande exportador sem se tornar também um grande importador. Infelizmente, o governo erra ao não perceber tal constatação básica e seguir com uma política comercial de 40 anos atrás ao focar exclusivamente na exportação.

Não existe hoje país que queira desenvolver uma indústria integralmente em suas fronteiras. A estratégia de desenvolvimento reside em se integrar nas chamadas cadeias internacionais de valor – o país X produz o composto A, o país Y produz a tela B e o país Z junta os dois e monta um notebook.

Essa integração permite o acesso a insumos mais baratos que produzirão bens finais mais baratos, assim como o acesso a uma variedade maior de produtos finais e a exposição à concorrência internacional cria o incentivo a desenvolver melhores produtos e operações mais eficientes. Quem ganha com isso é o país como um todo.

Já parou para pensar o porquê do Brasil ter carros tão ruins (carroças?) vendidos a preços tão absurdos se comparados internacionalmente?

Este é o resultado de uma política protecionista de mais de 50 anos para o setor automobilístico. Hoje existe um imposto de 30% sobre as importações e exigência de conteúdo local para os automóveis fabricados no país. Se for para um carro ter airbag, o airbag tem que ser produzido no Brasil. Mesmo que a Suécia possa nos vender um airbag mais seguro e barato. O resultado disto, se o brasileiro quer um carro mais seguro tem que pagar mais caro do que o sueco paga.

Insistindo em uma visão de mundo que não existe mais, o governo não indica qualquer mudança virá ao menos até o final deste mandato. Outra coisa que a estatística acima aponta é que nações mais ricas tendem a possuir uma economia mais aberta. Portanto o governo segue postergando qualquer mudança estrutural que poderia conduzir o país finalmente na direção do crescimento de longo prazo.

 


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