Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 29/06/2015

Quem mexeu no meu superávit primário? (2)


Quem mexeu no meu superávit primário?

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(continuação…)

Enquanto Singa e Alê seguiam rapidamente em frente e buscavam fazer os cortes de gastos que fossem compatíveis com os Recursos que tinham, Joaquim e Eujênio continuavam indecisos. Eles reclamavam da injustiça daquilo tudo. Eujênio começou a ficar deprimido. O que aconteceria se um dia os Recursos não estivessem na Ala Imposto? E se isso acontecesse no dia seguinte? Ou no dia depois? E o que faria para recuperar o superávit primário? Ele fizera planos para o futuro baseado naqueles Recursos, que agora se esvaiam.

Os nativos Joaquim e Eujênio não conseguiram acreditar naquilo. Como podia ter acontecido? Ninguém os prevenira. Não estava certo. Não era assim que as coisas deviam ser. Como eles pagariam as contas? Como chegariam ao final do dia com superávit primário? O que diriam ao contador quando a conta ficasse no negativo?

Naquela noite, Joaquim e Eujênio foram para casa famintos e desencorajados e mais pobres. Mas antes de partir, Joaquim escreveu na parede:

Quanto mais importante seu Superávit Primário é para você menos você deseja abrir mão dele.

 No dia seguinte Joaquim e Eujênio saíram de suas casas e voltaram a Ala Imposto, onde ainda esperavam encontrar mais dos seus Recursos.

A situação não mudara. Os Recursos não aumentaram. Os nativos não sabiam o que fazer. Joaquim e Eujênio apenas ficaram em pé na Ala Imposto, imóveis como duas estátuas. Pensaram até em fazer um congresso (sim, só com duas pessoas) para discutir de quem era a culpa daquilo tudo. Deveria ser daquela oposição golpista midiática, apesar de não ter nem sinais dessas pessoas ali. Eram forças ocultas, só podia ser, pois eles não conseguiam enxergar mais nada.

Eujênio fechou os olhos o máximo que pôde e teve uma ideia. O melhor seria ter alguma distração momentânea, um esporte físico, para poder se concentrar novamente. Só desejava tirar aquilo tudo da mente. Não queria admitir que o estoque de Recursos não havia crescido e pouco a pouco tinha levado à uma diminuição do superávit primário. Eles nem estavam gastando muito mais assim, acreditava. O melhor era mesmo arrumar uma distração, esperando que tudo fosse melhorar automaticamente. Assim Eujênio subiu em sua bicicleta e saiu a pedalar. Era o que mais gostava, pedalar. Era o que lhe dava prazer, pedalar. E como pedalava.

Joaquim analisou muitas vezes a situação e finalmente seu cérebro complicado com seu enorme sistema de certezas assumiu o comando. Tinha que ser mais responsável. Tinha que parar de pedalar e se dedicar ao trabalho. Tinha que encarar o problema e tomar uma atitude. Não adiantava ficar esperando o problema se resolver sozinho.

– Por que fizeram isso comigo? – perguntou. – O que está realmente acontecendo aqui?

Finalmente, Eujênio depois de muito pedalar voltou ao encontro de Joaquim, que fez um sinal para que parasse. Com olhos atentos, olhou ao redor e disse:

– Eujênio, onde estão Singa e Alê? Você acha que eles sabem algo que nós não sabemos?

Eujênio zombou dele:

– O que poderiam saber? – São apenas estrangeiros com pensamentos simples. Só reagem ao que acontece. Nós somos nativos. Somos especiais. Temos as ferramentas certas, a foice e o martelo que eu guardo em minha maleta. Somos mais inteligentes. Deveríamos ser capazes de entender esse fato. Nós somos melhores e isso não devia acontecer com a gente.

– Isso não deveria ter acontecido conosco, mas aconteceu. Talvez tenhamos que mudar a nossa forma de agir. Se não fizermos nada, o problema não vai se resolver sozinho. Acho que é hora de fazer alguns ajustes.

– Por quê? – perguntou Eujênio.

– Porque temos a capacidade – respondeu Joaquim.

– Capacidade de quê? – quis saber Eujênio.

– De gerir melhor os nossos Recursos.

– Por quê? – perguntou Eujênio.

– Porque nós causamos este problema – disse Joaquim. – Nós gastamos mais do que os nossos Recursos nos permitem. É melhor mudar a nossa forma de agir e de pensar. É a única solução.

– Talvez devêssemos parar de analisar tanto a situação e esperar que venham mais Recursos – sugeriu Eujênio. Talvez devêssemos instituir alguma lei que nos permita aumentar os Recursos.

– Ah, não – argumentou Joaquim. – Vou agendar uma reunião com o contador para entender melhor o que podemos fazer.

Enquanto Joaquim e Eujênio ainda tentavam decidir o que fazer, Singa e Alê já estavam longe. Vasculhavam os corredores do labirinto, procurando Recursos em todos as Alas que encontravam e em casa a noite também já voltavam a gastar menos do antes. Já estavam com os Recursos e os gastos se equilibrando novamente, aos poucos.

Eles não pensavam em nada além de encontrar uma nova Ala de Recrusos.

Durante algum tempo não encontraram nenhum, até que finalmente entraram em uma área do labirinto onde nunca haviam estado: o Ala Investimentos que continha muitos Recursos.

Eles chiaram de alegria. Descobriram o que estavam procurando: um grande estoque de novos Recursos. Os estrangeiros mal podiam acreditar em seus olhos. Aquele era o maior estoque de Recursos que tinham visto.

Só não contavam com uma coisa, ali na frente também havia um contador, muito semelhante ao contador que ligava para eles todas as noites reportando o estado do resultado primário.

Foram entrar na Ala mas o contador os barrou. Ali naquela Ala só podia entrar e explorar os Recursos quem havia feito superávit primário. Aquela Ala de Recursos era exclusiva de quem gastava menos do que o que obtinha de Recursos, pois só assim os donos da Ala saberiam que quem ali trabalhasse não iria explorar mais do que devia.

Nesse momento os estrangeiros se lembraram que quase empatavam os gastos com os Recursos e por isso foram proibidos de entrar.

Apesar de tristes, haviam descoberto uma nova Ala e isso era bom. Na volta para casa notaram uma outra Ala que não havia sido notada antes. Ali era a Ala Exportações e ao entrar descobriram também uma reserva de Recursos.

Todos os dias eles voltavam na Ala de Investimentos e eram proibidos de entrar pois havia um pouco de déficit primário. Então passaram a visitar com mais frequência a Ala Exportações e os recursos pouco a pouco foram aumentando. Notaram que nessa Ala os recursos variavam muito, mas se repetissem constantemente as visitas, conseguiriam aumentar os Recursos.

Com isso voltaram a ter mais Recursos e um dia, finalmente, foram permitidos de entrar na Ala Investimentos, com o maior estoque de Recursos que jamais existiu.

Nesse meio tempo, Joaquim e Eujênio ainda estavam no Ala Imposto, analisando a situação. Agora sofriam os efeitos da falta de superávit primário. Estavam ficando frustrados e irritados, culpando um ao outro pelo que acontecera.

De vez em quando Joaquim pensava em seus companheiros, Singa e Alê, e se perguntava se eles haviam encontrado algum Recurso. Ele achava que os estrangeiros poderiam estar passando por momentos difíceis, porque correr pelo labirinto geralmente causava alguns aborrecimentos. Mas também sabia que isso durava pouco tempo.

Às vezes Joaquim imaginava Singa e Alê encontrando um novo recurso e saboreando-o. Pensava em como seria bom aventurar-se no labirinto e encontrar um novo Recurso fresco. Quase podia sentir seu sabor.

Quanto mais claramente Joaquim via a sua imagem encontrando e saboreando o novo Recurso, mais se via saindo do Ala Imposto.

– Vamos! – exclamou de repente.

– Não – respondeu rapidamente Eujênio. – Eu gosto daqui. É confortável e familiar. Além disso, é perigoso lá fora.

Eujênio acreditava que tinha uma mente avançada, que havia nascido gênio (sua mãe o chamara assim claramente por esse motivo, apesar de nunca ter se perguntado o motivo do “j” ao invés do “g”, como deveria ser). Achava que se ficasse ali quietinho as coisas voltariam a ser como eram, como era sua crença e como tinha lido num livro de capa vermelha.

– É perigoso lá fora – Eujênio repetiu baixinho, mais uma vez.

– Não, não é – argumentou Joaquim. – Já percorremos por muitas partes do labirinto outras vezes, e podemos percorrer novamente. Sem bicicletas, sem pedalar, prestando mais atenção!

– Estou ficando velho demais para isso, minha perna esquerda está doendo e faço uma enorme força para não mancar – disse Eugênio. – E não quero me perder e fazer papel de bobo. Você quer?

Ao ouvi-lo, Joaquim sentiu novamente medo de fracassar e perdeu as esperanças de encontrar um Novo Recurso.

Então todos os dias os nativos continuavam na sua rotina. Iam para a Ala Imposto, não encontravam mais Recursos e voltavam para casa, levando suas preocupações e frustrações com eles. A noite pagavam suas contas e o buraco era cada vez maior. As contas não paravam de aumentar e os Recursos eram ainda os mesmos.

Joaquim e Eujênio tentaram negar o que estava acontecendo, mas a cada dia tinham mais dificuldade para dormir e menos energia, e se irritavam mais facilmente. O contador ligava com frequência, de forma que também passou a ficar irritado mais facilmente.

Os alertas eram diários, de manhã e de noite. De tarde também ligava e deixava o recado com uma secretária que ficava por conta de cuidar da casa dos nativos quando eles não estavam. Também deixava recados com o jardineiro, já que a secretária faltava ao trabalho com frequência sem que os nativos soubessem. Também deixava recados com o motorista, pois nem sempre o jardineiro estava lá para cobrir a secretária. E deixava recados com o mordomo, quando o motorista não estava. E deixava recado com o garçom que servia a casa dos nativos quando o mordomo não atendia. O mais frequente, porém, era deixar os recados na secretária eletrônica.

A noite, quando os nativos chegavam, diziam que ninguém havia deixado recado e que não tinham visto a secretaria eletrônica. Ao contador cabia apenas cuidar do aviso do saldo entre os Recursos e os gastos no dia (que eram sempre maiores) e provocavam déficits primários. Mas vezes se perguntava o motivo de tantos funcionários se nenhum deles passava o recado e o motivo de ter uma secretaria eletrônica se os nativos nem sequer a ouviam.

Suas casas não eram os lugares acolhedores que um dia haviam sido. Certo dia até tiveram de despedir o eletricista da casa, que por falta de onde morar continuou na casa, mas sem trabalhar.

Todos os dias eles ainda voltavam a Ala Imposto e esperavam que houvesse mais Recursos.

– Nós vamos apenas nos sentar e ver o que acontece – dizia Eujênio, com ar de sabedoria. – Cedo ou tarde vão colocar os Recursos aqui de volta.

Joaquim queira acreditar nisso. Então os nativos simplesmente iam para casa e voltavam para a Ala Impostos: Joaquim percorrendo o labirinto a pé e Eujênio pedalando em sua bicicleta. Eles chegavam mais cedo e saíam mais tarde, mas era sempre igual. O Recurso nunca aumentava.

A essa altura, eles estavam enfraquecidos devido à fome e ao estresse (e às duras críticas dos funcionários da casa que deixaram de receber em dia por seus serviços), e Joaquim estava ficando cansado de apenas esperar que as coisas melhorassem. Sabia que quanto mais tempo ficassem sem Recursos, pior seria.

Joaquim sabia que eles estavam perdendo o controle da situação.

Finalmente, um dia, Joaquim começou a rir de si mesmo.

– Eujênio, olhe para você. Faz sempre as mesmas coisas e se pergunta por que elas não melhoram. Se isso não fosse tão ridículo, seria ainda mais engraçado. Você se engana e por vezes eu também acabo sendo enganado por você.

Joaquim não gostava da ideia de ter de percorrer de novo pelo labirinto, porque sabia que havia a chance de ficar perdido e não tinha a mínima ideia de onde iria encontrar algum Recurso novo. Apesar disso ele já havia feito alguns cortes de despesa e viu que o buraco primário começava a diminuir. Mas teve de rir de sua insensatez quando percebeu o que o medo estava fazendo com ele. Ele tinha medo de mudar, mas mudar pouco a pouco estava lhe fazendo melhor. Pelo melhor parecia melhor do que Eujênio.

– Onde nós colocamos nossas maletas e nossas ferramentas? – perguntou-lhe Joaquim.

Eles demoraram muito tempo para encontrá-las, porque as vinham colocando de lado quando encontraram seus Recursos na Ala Impostos, achando que não precisaram mais delas.

Quando Eujênio viu o amigo se vestindo, disse:

– Você não vai para o labirinto de novo, não é? Por que simplesmente não espera que coloquem mais Recursos ali de volta?

– Você não entende – disse Joaquim. – Eu também não queria aceitar esse fato, mas agora percebo que mais Recursos de Impostos nunca reaparecerão. Esses foram os Recursos que tínhamos até ontem. É hora de procurar novas formas de fazer as coisas e gastar menos, e talvez assim conseguiremos de novo o superávit primário.

– Mas e se não houver mais Recursos lá fora? E se não existir mais o superávit primário? – argumentou Eujênio. – Ou, e se houver, e você não encontrá-lo?

– Eu não sei – disse Joaquim. Ele se fizera aquelas mesmas perguntas muitas vezes e começava a sentir novamente o medo que o paralisava.

Então ele pensou em cortar mais seus gastos – que voltaria a ter superávit primário – e em tudo de bom que adviria disso, e reuniu coragem.

– Às vezes – disse Joaquim – as coisas mudam e nunca mais são as mesmas. Essa parece ser uma dessas ocasiões, Eujênio. É a vida! A vida segue em frente, e nós também deveríamos fazer o mesmo.

Joaquim olhou para o companheiro e tentou chamá-lo à razão, mas o medo de Eujênio se transformara em raiva, e ele não quis ouvi-lo.

Ao se preparar para partir, Joaquim começou a se sentir mais vivo, sabendo que finalmente era capaz de vencer a si mesmo – seus medos -, libertar-se e seguir em frente.

– É hora do labirinto! – anunciou ele e partiu.

Eujênio não riu e tampouco respondeu. Ficou apenas olhando desconfiado ao seu redor, pois sentia constantemente a presença de forças ocultas.

Joaquim apanhou um giz pequeno e escreveu um pensamento na parede que poderia induzir Eujênio à reflexão. Como de costume, até mesmo fez desenhos de Recursos ao seu redor – com inúmeros cifrões e pessoas felizes – esperando que aquilo ajudasse Eujênio a sorrir, animar-se e ir procurar de novo o Superávit Primário. Mas o companheiro não quis vê-lo.

Ele escreveu:

Se Você Não Mudar, não irá se superar.

Então Joaquim esticou o pescoço e olhou atento e ansiosamente para o labirinto, pensando em como havia ficado naquela situação de não ter Recursos.

Ele achara que poderia não haver mais Recurso algum no labirinto, ou que talvez não o encontrasse. Essas crenças e ideologias assustadoras o estavam paralisando e matando.

Joaquim sorriu. Sabia que Eujênio estava sem Recursos e se perguntando: “Quem mexeu no meu Superávit Primário?”, mas Joaquim se perguntava: “Por que eu não me mexi e fui procurar o Superávit Primário mais cedo?”.

(continua…)

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