Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 30/06/2015

Quem mexeu no meu superávit primário? (3)


Quem mexeu no meu superávit primário?

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(continuação…)

Quando começou a entrar no labirinto, Joaquim olhou para o local de onde viera e se deu conta do seu conforto. Sua casa era muito maior do que de fato precisava. Não conseguiu contar o número de funcionários que trabalhavam para eles, mas reconheceu o eletricista que tinha sido demitido encostado numa arvore conversando com o jardineiro. Viu construções e mais construções ao redor, sem saber para que existiam. Na piscina, que não se lembrava de ter construído, muitos de seus amigos se divertiam, até a secretária estava ali. No tobogã que dava na piscina reconheceu o mordomo deslizando. Era uma festa aquilo ali e só agora se dava conta.

Podia se sentir sendo arrastado de volta para o território que tanto gostava e para festa que rolava solta – embora não encontrasse Recurso algum tempo para pagar aquelas contas. Joaquim ficou mais ansioso e teve dúvidas a respeito de se realmente queira entrar no labirinto ou continuar ali e esperar que tudo fosse dar certo, como Eujênio fazia. Ele escreveu uma frase na parede à sua frente e ficou olhando-a durante alguns minutos:

O que você faria se não tivesse vergonha na cara?

Ele refletiu sobre o que havia escrito.

Olhou para a direita, para a parte do labirinto em que nunca estivera, e sentiu medo.

Então respirou profundamente, virou para a direita e caminhou bem devagar para o desconhecido.

Ao tentar encontrar o caminho, Joaquim a princípio se preocupou com a possibilidade de ter esperado demais na Ala Imposto. Ficara sem Recursos havia tanto tempo que agora se sentia fraco. Caminhava mais lento e era-lhe mais penoso do que de costume percorrer o labirinto. Ele decidiu que, se tivesse novamente a chance, iria se adaptar mais cedo à mudança. Aquilo tornaria as coisas mais fáceis.

Então Joaquim esboçou um sorriso ao pensar: “Antes tarde do que nunca”.

Durante os dias seguintes, Joaquim encontrou pequenas quantidades de Recurso aqui e ali, mas nada que durasse muito. Esperara encontrar Recursos suficiente para levar até Eujênio – para voltar a terem superávit primário – e encorajá-lo a sair para o labirinto.

Mas Joaquim ainda não se sentia bastante confiante. Tinha de admitir que o labirinto o confundia. As coisas pareciam ter mudado desde a última vez em que estivera ali.

Quando ele achava que estava seguindo em frente, perdia-se nos credores e corredores. Parecia que dava dois para frente e um para trás. Aquilo era um desafio, mas teve de admitir que estar de volta no labirinto, procurando pelo superávit primário, não era tão ruim quanto imaginara.

Com o correr do tempo, começou a ter dúvidas a respeito de se estava sendo realista ao esperar encontrar uma nova Ala com Recursos. Perguntou-se se havia gastado mais do que poderia arrecadar. Então riu, percebendo que não tinha o que arrecadar naquele momento.

Sempre que começava a ficar desencorajado, lembrava-se de que o que estava fazendo, independente do quanto fosse desagradável no momento, na verdade era muito melhor do que ficar sem Recursos. Estava assumindo o controle, em vez de simplesmente deixar que as coisas lhe acontecessem.

Então Joaquim se lembrou de que se Singa e Alê podiam seguir em frente, ele também era capaz!

Mais tarde, ao pensar sobre o que tinha acontecido, ele percebeu que os Recursos da Ala Imposto não tinham desaparecido da noite para o dia, como uma vez imaginara. Sua quantidade não tinha diminuído pouco a pouco. Foram suas contas que foram aumentando e aumentando, sem que eles tivessem Recursos para cobrir as despesas. Com o tempo tiveram que pegar emprestado com os patrões do contador, que encarava aquilo como uma dívida. E mesmo assim, depois que tomavam emprestado o que sobrara não era suficiente para pagar as contas no dia seguinte. Aquela dívida não tinha mais um gosto bom.

O estoque de Recursos poderia até mesmo ter começado a se retrair, embora ele não o tivesse notado. Contudo, tinha de admitir que, se quisesse, provavelmente teria percebido o que iria acontecer. Mas ele não quis.

Joaquim agora se dava conta de que a mudança provavelmente não o teria apanhado de surpresa se ele tivesse observado o tempo todo o que estava acontecendo, e a antecipado. Talvez tivesse sido isso que Singa e Alê haviam feito.

Ele parou para descansar e escreveu na parede do labirinto:

Poupe o Recurso com frequência para ter algo quando a situação ficar difícil.

Algum tempo depois, sem ter encontrado Recursos durante o que pareceu uma eternidade, Joaquim finalmente viu uma enorme Ala que parecia promissora. Contudo, quando entrou na Ala dos Royalties, ficou muito desapontado ao descobrir que estava vazia.

“Tenho tido essa sensação de vazio com muita frequência”, pensou. Teve vontade de desistir.

Joaquim sentiu que sua força física diminuía. Sabia que estava perdido e tinha medo de não sobreviver. Pensou em dar meia-volta e se dirigir a Ala Impostos. Uma vez que Eujênio estava lá, se conseguisse voltar, pelo menos não ficaria sozinho. Então ele se fez novamente a mesma pergunta: “O que você faria se não tivesse vergonha na cara?”.

Ele tinha vergonha na cara mais frequentemente do que gostaria de admitir, até para si mesmo. Nem sempre sabia porque, mas, enfraquecido como estava, agora sabia que tinha medo de seguir sozinho. Joaquim não tinha consciência disso, mas estava ficando para trás porque carregava o peso de suas crenças e ideologias assustadoras.

Joaquim desejou saber se Eujênio havia se mexido, ou se ainda estava paralisado por seus medos e por não ter vergonha na cara. Então se lembrou das vezes em que se sentira melhor no labirinto – quando estava seguindo em frente e cortando suas despesas.

Escreveu uma frase na parede, sabendo que era tanto um lembrete para si mesmo, como uma orientação que esperava que seu companheiro seguisse:

O movimento em uma nova direção e o corte de gastos ajuda-o a encontrar o superávit primário.

Joaquim olhou para o corredor escuro e teve consciência de sua vergonha na cara. O que havia à sua frente? O corredor estava vazio? Ou pior, havia ali perigos ocultos? Havia ali mídia golpista? Havia ali opinião pública e queda na avaliação? Ou desemprego? Ele começou a imaginar todos os tipos de coisas assustadoras que poderiam acontecer-lhe. Estava apavorado.

Então riu de si mesmo. Percebeu que seus temores estavam tornando as coisas piores. Então fez o que faria se não tivesse vergonha na cara. Seguiu em uma nova direção.

Ao começar a percorrer pelo corredor escuro, Joaquim sorriu. Ainda não se dera conta disso, mas estava descobrindo o que alimentava a sua alma. Estava se libertando dos seus medos e continuava cortando seus gastos, acreditando que havia algo de bom à sua frente, embora não soubesse exatamente o que era.

Para surpresa sua, começou a gostar cada vez mais do que estava fazendo. “Por que eu me sinto tão bem?”, perguntou-se. “Não tenho nenhum superávit e não sei para onde estou indo.”

Não demorou muito para saber o motivo pelo qual se sentia bem.

Parou para escrever novamente na parede:

Quando você planeja seus gastos e seus Recursos, sente-se livre.

Joaquim sentiu a brisa fresca que soprava naquela parte do labirinto. Respirou profundamente várias vezes e se sentiu revigorado. Depois que venceu o seu medo de ajuste, aquilo se revelou mais agradável do que achara que poderia ser.

Não se sentia assim havia muito tempo. Quase se esquecera do quanto era divertido ter superávit primário sem precisar de mais recursos.

Para tornar as coisas ainda melhores, Joaquim começou a pintar um quadro em sua mente. Ele se viu em grandes detalhes, sentado no meio de uma pilha de todos os seus recursos favoritos – de contribuições a restituições! Viu-se empilhando e poupando os muitos Recursos de que gostava, e gostou do que viu. Então imaginou o quanto apreciaria todos os seus ótimos resultados primários.

Quanto mais claramente ele via a imagem do superávit primário, mais real se tornava, e mais sentia que iria encontrá-lo.

Escreveu:

Imaginar-me saboreando o superávit primário, antes mesmo de encontrá-lo, conduz-me a ele.

“Por que eu não fiz isto antes?”, perguntou-se Joaquim. Talvez fosse porque Eujênio o segurasse e não deixasse que ele tivesse o controle de suas próprias decisões. Era Eujênio que sempre o mandava fazer isso ou aquilo, pagar isso ou aquilo, atrasar o pagamento disso ou daquilo, ocultar e omitir de proposito isso ou aquilo.

Então percorreu correu pelo labirinto com mais energia e agilidade. Logo avistou uma Ala nova e ficou animado ao notar pequenas quantidades de novos Recursos perto da entrada.

Eram tipos de Recursos que ele nunca havia visto, mas pareciam ótimos. Joaquim os coletou e descobriu que eram lucrativos. Arrecadou quase todas as quantidades de novos Recursos que pôde encontrar e colocou alguns na maleta para poupar e talvez dividir com Eujênio. Começou a recuperar suas forças e suas finanças.

(continua…)

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