Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 15/07/2015

Há um ano eu era feliz e não sabia… mas eu sabia


Há um ano atrás (quase podendo dizer “era uma vez…”) o Brasil era diferente. Não tenho pretensões filosofar sobre inúmeros temas que permeiam a evolução da vida das pessoas, mas devo focar principalmente em resultados concretos de um reflexo do país, a economia. Se por um lado pode-se alegar que indicadores econômicos não são suficientes para exprimir toda a quantidade/qualidade de bem-estar de uma população, por outro nota-se que eles são mais do que necessários. Assim, analisar esses indicadores é uma medida de variação de bem estar, independentemente do patamar em que eles subjetivamente se encontraria.

Com isso em mente, vale dizer que o país está pior. Em um ano o país (que já vinha em trajetória de arrefecimento ou tendência de piora, propriamente dito) apresentou uma piora em praticamente todos indicadores econômicos. A tabela abaixo sintetiza alguns desses indicadores. E restante do artigo procura explicar como a piora desses indicadores atrapalha o planejamento de empresas e da vida das pessoas, não poupando ninguém da “socialização das perdas” imposta pela condução errada da política econômica (para fins políticos).

1ano

A inflação alta é prejudicial a toda sociedade, sem distinção de classe, etnia, idade ou gênero. A expansão de gastos públicos e a “nova matriz econômica” foi uma iniciativa destinada à aceleração da atividade econômica com base na expansão do consumo. Esqueceram de avisar o governo (e me admira a presidente ser economista) que sem oferta para acompanhar a demanda (sem o deslocamento da curva de oferta), o novo equilíbrio de mercado ocorre em patamares de preços mais elevados. Isso está exposto nos livros de introdução à economia e é ensinado já em algumas escolas no ensino secundário. Vamos lá?

No gráfico abaixo, as curvas D1 e D2 representam a demanda e a curva S representa a oferta (em inglês, supply). No eixo horizontal, temos a quantidade Q e no eixo vertical o preço P. Inicialmente a economia se encontra no equilíbrio de mercado onde Q1 e P1 representam a quantidade e preço de equilíbrio.

Ai vem a nova matriz econômica e estimula o consumo de maneira “impensada” (alguns diriam “leviana”) e isso provoca um aumento exacerbado da demanda, deslocando D1 para D2 (aumento da demanda). Assim, entendendo que a oferta não mudou (ou não acompanhou o ritmo de crescimento da demanda), cria-se um novo equilíbrio de mercado com um novo preço P2 e quantidade Q2 de equilíbrio. A quantidade demandada é superior, assim como os preços.

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Bom, para combater o aumento de preços é necessário aumentar a taxa de juros. Segue da tabela acima que há um ano atrás a inflação que era alta e acima do limite superior da meta subiu ainda mais, de 6,52% (em 12 meses) para 8,89% (em 12 meses). Assim, o BC viu-se obrigado (o termo é obrigado, sim! para não perder a credibilidade que restou depois de 5 anos consecutivos sem conseguir atingir a meta de inflação) a elevar a taxa de juros Selic, que saltou de 11% para 13,75% ao ano até o presente momento. Ora, o choque que uma elevação dessa magnitude causa na economia é prejudicial a todos, assim como a inflação. A taxa de juros mais elevada reduz a capacidade das empresas ofertarem mais produtos (via redução de investimentos e via redução de produção corrente) uma vez que é mais custoso tomar dinheiro emprestados para financiar a produção (capital é um insumo da produção). A própria elevação dos juros também torna mais caro para o consumidor tomar emprestado, o que leva a expectativa das empresas a reduzir também a produção.

Então a curva da oferta se desloca para esquerda, de S1 para S2, indicando a redução da oferta. Com essa configuração, há um novo ponto de equilíbrio. A demanda se situa em um patamar menor (Q1 como representado na figura abaixo, ou qualquer ponto inferior a Q2, em termos gerais) e o preço, dada a restrição na oferta, torna-se mais elevado em P3. Ou seja, cria-se inflação em dois momentos. Essa é uma das explicações para o aumento de preços da economia em termos recentes: estímulo ao consumo e desestímulo à produção doméstica (vale lembrar que houve um aumento forte da oferta externa para atender a demanda doméstica, como mostram as importações nos últimos anos).

1024px-Supply-and-demand2.svg

Tendo criado um problema para todos (olhando apenas as primeiras 2 linhas da tabela), o governo foi além e criou mais problemas, pois há uma grande vantagem comparativa do setor público em relação ao privado quando o assunto é produção de problemas (isso em termos gerais, blá blá blá tem exemplos de sucesso, blá blá blá na média a percepção da população é que o governo é ineficiente e desorganizado, para não dar muitos adjetivos).  Assim, o governo também criou problemas com suas finanças, bagunçando mais uma vez o país inteiro.

Há um ano atrás, o acumulado em 12 meses do superávit primário (economia do governo resultado das receitas descontadas as despesas, antes do pagamento dos juros) era de R$85,2 bi. De lá para cá, o resultado primário inverteu-se em déficit de R$ 41,7 bi em 12 meses acumulados (em termos reais, corrigidos pelo IPCA). A diferença é de R$ 127 bilhões, mais do que o dobro da atual meta de superávit primário que o governo propõe, de R$ 66 bi de economia primária. A pergunta que fica é como chegamos a essa situação e a resposta é claríssima, motivos político-eleitorais e falta de controle na gestão financeira do país (ia dizer “má gestão”, mas acho que má é a intenção mesmo no uso da máquina pública para fins partidários). Não é a toa que o TCU está se manifestando contra a aprovação das contas do governo. Para quem acha que o motivo é outro, eu gostaria de saber a resposta.

Não obstante, houve também o aumento da dívida do governo. Nesse caso, como é praxe em outras economias, deve-se olhar a dívida bruta. O aumento do endividamento do governo compromete todo o país. Dos R$ 3,1 trilhões em dívida, que representava 54,3% do PIB, saltamos em apenas 12 meses para 62,5% do PIB, ou R$ 3,5 trilhões. Esses 8,2 pontos de crescimento da dívida em um ano é assustador e temerário. A prova disso é a crescente percepção de perda de grau de investimento que o país pode sofrer. Isso tem impacto direto no ambiente de negócios do país.

Assim, com uma dívida mais elevada, paga-se mais juros e encargos da dívida. Até a última divulgação de maio, o país gastou R$ 426 bi em juros em 12 meses, frente aos R$ 280 bi há um ano atrás na mesma comparação. É esse o desejo da sociedade? Para quem o governo governa? O salto de 2,5% do PIB adicional dos juros torna qualquer meta de superávit em torno de 1% obsoleta. Se havia uma meta de 1,2% para o pagamento de 4,7% de juros (como há um ano atrás), quando a despesa de juros sobe 2,5%, a nova meta deve ser de no mínimo 3,7% (1,2%+2,5%) para que continue crível o comprometimento do país com pagamento de juros.

Somados o descontrole das contas com o aumento do endividamento, o resultado nominal é altamente negativo, em cerca de 7,9% do PIB. Esse foi o caminho que a Grécia seguiu para chegar na condição que está hoje. O Brasil não é a Grécia, eu sei, mas os passos que estamos dando vai na mesma direção. Há tempo para mudar, é o que gosto de acreditar, mas é notório o acumulo de erros que deteriorou a economia do país em apenas 1 ano.

A deterioração da economia é refletida rapidamente na taxa de câmbio. Tivemos uma desvalorização cambial frente ao dólar de 40,8% e frente ao euro de 13,9%. O câmbio saltou de US$/1R$ 2,22 para US$/1R$ 3,12 e isso é uma medida de preços relativos. Bom, um preço que sobe é caracterizado como inflação. O preço das importações aumentou, houve um repasse cambial para o que é vendido domesticamente e isso é inflação na ótica do consumidor. Como combater a inflação? Juros (e volta no círculo vicioso lá de cima).

Assim, as expectativas de que o país deve continuar mal são apresentadas em termos de crescimento econômico. Há um ano atrás, falava-se de um crescimento do PIB de 1,5% e hoje fala-se de uma retração de 1,5%. São 3 pontos de diferença. Não é fácil acertar essas projeções econômicas com um governo que interfere tanto na economia e de forma negativa. A inflação deve fechar o ano acima dos 9% (só o dobro da meta, que já nem sei mais pra que existe), pois os preços administrados ficaram represados por tempo demais (enquanto deu pra segurar até as eleições).

Quem sofre é a população, independente de ideologia ou partido. A taxa de desemprego chegou a 8,1%, que representa 1,2 milhões de pessoas desempregadas. Quero ver alguém falar que isso é bom, pois não é. Nesse caos que se criou, a perda de emprego e as dificuldades em comprar (juros elevado, inflação elevada, instabilidade econômica, medo do futuro, etc.) corroem a capacidade do consumidor em adquirir bens e serviços. As vendas no comércio varejista tombam 4,5% em 12 meses, as vendas de materiais de construção despencam 11,3% e as vendas no setor de veículos mergulham 22,2%. Assim, a oferta tem que diminuir pois a demanda mudou, gerando redução de 10,9% na produção de bens na indústria de transformação.

Isso tudo não tem nada a ver com crise externa. Há um ano eu era feliz e não sabia… mas eu sabia.


Responses

  1. Oi Guilherme. Eu gosto mesmo de ler seu blog e espero que um dia eu puder escrever tanto quanto você. Pelo geral, eu concordo com a maioria das suas ideias e aprendo um pouco como é a situação atual no Brasil desde o exterior.

    Normalmente, eu sigo o blog sem fazer comentário. No entanto, ao respeito deste rascunho eu gostaria de te fazer uma pergunta.

    Por que você acha que a inflação prejudica todo o mundo igual? Pode ser que a inflação seja cega à classe, etnia, idade e gênero, mas nós estamos esquecendo algo aqui. A severidade dos efeitos da inflação tem muito de ver com quais tipos de investimentos da pessoa. Uma pessoa com investimentos que podem crescer próximo à taxa de inflação seria numa situação melhor do que outra com apenas dinheiro em mão. Afinal das contas a pessoa com bons investimentos pode “perder” algo em termos nominais em face da inflação, mas ao mesmo tempo ela está chegando à frente dos outros na mesma sociedade.

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  2. Caro Peter, você tem razão! Obrigado pelo comentário e pela leitura do blog. Essa discussão da inflação tem sim diferentes repercussões a depender da proteção da pessoa. É verdade em parte que as famílias de menor renda, por gastarem uma fração maior da renda (por conta de um orçamento mais apertado e baseado principalmente na aquisição de produtos necessários, como alimentação) e poupar menos, sofreriam mais com a inflação.

    É também importante dizer que há diferentes índices de inflação que podem apresentar diferentes resultados a depender da cesta de produtos (ex: IPC-C1, da FGV – mede a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços para famílias com renda entre 1 e 2,5 salários mínimo), da camada da população (mede a evolução do custo de vida para indivíduos com mais de 60 anos de idade), da região (o próprio IPCA avalia regiões metropolitanas) e do setor (INCC – mede a evolução dos custos no setor da construção). Isso com certeza impacta de forma diferente as famílias e empresas.

    Em relação à proteção, essa discussão era ainda mais verdade quando a parcela da população sem acesso aos bancos era maior (não sei quanto é hoje, mas sei que num passado não muito distante muitas famílias de baixa renda não tinham conta em banco). Ao passar a ter uma conta poupança, por exemplo, até as famílias de renda mais baixa passariam a ter uma forma de se proteger da inflação (desconsiderando a inflação de 2015 muito acima do normal). Acredito que ainda há muitas famílias sem acesso a uma conta no banco, mas isso vem se transformando aos poucos.

    Gostaria, contudo, também de acrescentar uma visão de que há famílias ou indivíduos com renda média/alta (ou seja, excluindo os de baixa renda) que tem acesso ao banco e não necessariamente optam por se proteger da inflação. Conheço pessoas que não deixam suas economias aplicadas por “desconhecer” outras modalidades de investimento (há quem deixe dinheiro parado na conta corrente e não transfira para poupança, mesmo com opção de baixa automática de saldo) tanto como conheço pessoas que aplicam em Tesouro Direto, CDB, LCI, etc.. Nesse caso, vale dizer que ter uma “sobra econômica” não necessariamente será bem investida.

    De uma forma ou de outra, a oportunidade de estar protegida da inflação é mais presente nas famílias/indivíduos de renda mais elevada, ou seja, dependendo da classe, de fato! O post/desabafo acima foi escrito mais no intuito de mostrar que a inflação é um problema que atinge toda sociedade, mas, como você bem notou, alguns tem como se proteger, outros não.

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