Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 21/12/2015

Voto de confiança


É sempre um exercício recompensador conversar com pessoas que pensam diferente de você. Não digo isso no sentido de entrar em debates incansáveis até que alguém ceda e você se sinta melhor nem no sentido de entrar com a cabeça e argumentos fechados e terminar sabendo que não mudou de opinião e logo o que você pensa está certo. É importante a diversidade de ideias e pontos de vista. Isso nos faz compreender também o outro, compreender as diferentes formas de pensar possível dentro de um mesmo assunto e ter uma visão mais holística sobre um determinado tema. Isso vale para qualquer tipo de conversa/debate/discussão entre quaisquer duas ou mais pessoas. O que me motivou a escrever esse post foi esse aprendizado e como esse é um blog de economia (majoritariamente), é sobre esse tema que teço comentários.

O voto de confiança é para o Nelson Barbosa, novo ministro da Fazenda. Não é de livre e bom grado que pensei em fazer isso, mas é por uma questão de necessidade. Independentemente de quem esteja no cargo, é necessário torcer para que as decisões que sejam tomadas e que consigam ser aprovadas (no caso das que dependem de mudanças nas leis) sejam para o bem do país.

O voto de confiança é o primeiro passo para a retomada da confiança. 

Se a confiança de fato virá, vai depender agora das ações do novo ministro. É importante lembrar que ele ficou conhecido como um dos “pais das pedaladas” e da contabilidade criativa e da nova matriz econômica. Isso o torno menos preparado? A resposta é não! Ele tem o perfil desenvolvimentista, isso vai gerar o caos no país? A resposta também é não. 

Apesar disso, contudo, todavia porém, não obstante“, ele tem que se provar novamente que não está disposto a fazer apostas. As apostas nos colocaram nessa situação na qual nos encontramos e não serão apostas que nos tirarão. A escolha do nome do Barbosa tem um caráter (a) pessoal; pois a Dilma confia no ministro e ela precisa de alguém de confiança e que a apoie; (b) profissional, pois o ministro tem qualificação, merecendo o voto de confiança; (c) política, pois o Nelson tem uma articulação maior por estar no meio político a mais tempo.

Os desafios não são poucos, como já apontavam muitos economistas antes da crise virar crise. A insistência em acreditar que as pessoas estão dispostas sempre a acreditar em tudo o que se fala não é uma boa estratégia quando o que se faz é diferente do que se fala. Para se provar no cargo, é preciso ações (e não comunicações) que apontem não só o esforço real mas também RESULTADOS! Se os resultados não vierem, haverá perda do voto de confiança e a crise será alongada.

Quais os problemas Fiscais?

  1. Fluxo (Receitas e Despesas)
    • Há um descasamento entre o ritmo de expansão de receitas e despesas.
    • fiscal - jan a out 2015
    • O governo precisa dizer que não vai gastar mais do que ganha, é simples.
  2. Estoque (Dívida)
    •  A dívida como proporção do PIB cresceu muito, acima do que é considerado uma oscilação normal e isso causa dúvidas do que o governo pretende e se vai ter condições de pagar os credores, é algo simples. É um aumento da percepção de risco de calote. O problema não é o patamar da dívida, mas a trajetória de alta.
    • divida
    • O governo precisa sinalizar que não pretende continuar com a alta da dívida. Mais dívida (que é um instrumento do governo) significa mais juros.
    • Quem paga juros é o governo para poder cumprir com as obrigações da dívida que ele emitiu, não tem ninguém malvado na equação, tem causa e consequência. É fácil ver que o aumento da dívida implica em ter que pagar mais juros, não é coincidência.
    • pagamento de juros em percentual do pib out 2015

Quais os caminhos?

  1. Um caminho fácil (do ponto de vista político) mas mais demorado é o caminho da inflação. Esse caminho infla os preços, que amplia a base de arrecadação, pois a preços mais elevados as mesmas alíquotas de imposto incidem sobre um valor maior. Esse caminho implica em manter a inflação mais alta por mais tempo mas é um caminho perigoso, pois pode implicar em uma nova onda de reindexações e maior persistência inflacionária, que recai em elevação de juros e retração da atividade econômica, pondo em risco a credibilidade das instituições (sim, esse é o caminho que foi adotado até agora, sem que tenhamos atingido a meta de inflação nos últimos 5 anos).
  2. Um caminho difícil (do ponto de vista político) é juntar o congresso em um pacto de governabilidade, na qual as reformas (DE LONGO PRAZO E NÃO DE 4 ANOS) serão benéficas para a SOCIEDADE. Mediante a atual crise é difícil, mas o que esperamos de um líder é que saiba conduzir o país nos momentos difíceis e não nos momentos fáceis!
    • Isso implica em reforma fiscal e tributária, como as atuais discussões do ICMS, IVA, IR sobre grandes fortunas e discussões sobre como tributar mais a renda e menos o consumo (isso dá incentivo à produção nacional, ou seja: mais emprego e renda). Não são discussões fáceis e nem são discussões que os políticos devem fazer sozinhos, mas com a sociedade.
    • Isso implica em regras de responsabilidade fiscal de longo prazo, como há já em discussão (a) limites da dívida pública, (b) limites de expansão de gastos, (c) regras claras de aumentos salariais dos servidores públicos federais, (d) redução dos benefícios tidos como direitos adquiridos (não há motivos para os servidores serem pessoas especiais/diferentes do resto da sociedade, e inúmeras regras JUSTAS que possam surgir a partir das discussões.
  3. Entre o caminho mais fácil e o mais difícil, há inúmeras possibilidades.

Caminhos que sinalizem para a sociedade a falta de comprometimento ou aumento das incertezas (mais dívida, mais gastos que receitas, etc.) serão ruins para o mais.

Não se pode transmitir a confiança necessária para a recuperação do país quando não há esforço nem honestidade na comunicação. Em economês, isso se chama incerteza, risco e deterioração das expectativas. Em português popular isso se chama mentir e é feio. Não se confia em quem mente, é bastante simples.

Começa uma nova fase. Se der certo, é importante ter humildade e reconhecer os acertos independentemente de ideologias. Se der errado, é importante também ter humildade e igualmente importante reconhecer os erros independentemente de ideologias. Que o voto de confiança seja dado e que o novo ministro tenha responsabilidade em assumir seus acertos e seus erros, pois agora é ele que está na frente desse projeto de recuperação do país.


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