Publicado por: Guilherme Byrro Lopes | 15/02/2016

Preços Relativos: Petróleo, Bolsa e Câmbio em R$ 5,02


Temos assistido um momento bastante conturbado na economia mundial e na economia doméstica. No cenário externo, os preços das commodities estão em baixa, fato totalmente inesperado considerando o histórico dos últimos anos. Em casa, o setor fiscal coloca em credibilidade toda economia do país. Em ambos os casos, esse é uma análise bastante rápida, com muito mais pano de fundo, mas é razoavelmente aceita como um retrato da realidade. As causas e as consequências dessas conturbações não tem tanta relação quanto alguns gostam de dizer, mas também não são isentas de sobreposição.

A ideia desenvolvida é a que existe um preço relativo entre os ativos: petróleo (convertido para valores em reais) e Bovespa (com base no total do valor de mercado das empresas listadas na bolsa). A conclusão é que o câmbio que equilibra esses ativos esteja mais próximo de R$ 5,02 por USD, ou seja, 24,1% acima do que está agora. Essa conclusão aponta que o real ainda pode continuar se desvalorizando.

Caso a informação acima seja interessante, recomendo a leitura do resto do post, que explica melhor o resultado.

Uma das commodities mais importantes (se não “a mais importante”) é o petróleo. De forma a visualizar os movimentos de preços do barril de petróleo, produzi o gráfico abaixo, com o preço mensal (na linha azul) e o preço médio anual (na linha vermelha), desde 1990 e expressos em dólares (os dados são do FMI, “IMF Primary Commodity Prices“).

É interessante notar que durante toda a década de 90 o preço do petróleo oscilou em torno de 20 dólares o barril (até um pouco menos). Em 2000 o preço médio foi de USD 28,23 o barril, bastante próximo do preço atual. Ao longo da última década, um efeito euforia com confiança nos mercados e juros baixos impulsionou a demanda de muitos países e com isso – sem que a oferta acompanhasse o mesmo ritmo – os preços subiram, e muito! O pico de preço médio mensal aconteceu em julho de 2008, quando o barril fechou a USD 132,55 (considerando 3 mercados de petróleo: Brent, WTI e Dubai).

petroleo USD

Deflagrada a crise internacional que se iniciou em 2008, os preços despencaram de forma muito rápida (7 meses) para menos de 1/3, mas o entendimento do cenário econômico era de que, após programas de bail out e estímulos dos governos, esses ativos não valiam tão pouco, e logo os preços voltaram a um patamar intermediário. Em 2010 voltou  a ultrapassar a casa do USD 100 por barril. Até julho de 2014 os preços mantiveram-se elevados e após isso iniciou-se um forte aumento de produção, forçando aumento de oferta, redução de preços, para que as iniciativas de exploração de petróleo tivessem o custo acima do preço de mercado (exemplo: dizem que o Pré Sal é viável com o preço do petróleo a USD 45 – link notícia).

Já o gráfico abaixo mostra praticamente a mesma coisa, mas com os preços expressos em reais, dada a cotação do dólar no mês em questão. O período começa em 1995, pois foi quando nossa moeda passou a ter mais estabilidade. É também fácil ver que o preço no final de janeiro de 2016 expresso em real foi de quase R$ 121. É um patamar um pouco acima do preço médio de 2005 e próximo do preço médio de 2009.

petroleo RS

Saber o preço do petróleo é um ponto importante quando o investidor toma uma decisão de investimento, caso ele queira investir em petróleo. Mas, como decidir investir em alguma coisa sem comparar com outra? Afinal, saber o que rende mais depende de uma comparação de algum investimento com no mínimo um outro. E porque não usar o valor de mercado das empresas listadas na Bovespa?

É um exercício simples, com inúmeras questões mais complexas a serem adicionadas, mas é altamente intuitivo em sua conclusão. Para tal, é importante saber como se comportou a Bovespa nos últimos anos também!

No gráfico abaixo está o total do valor de mercado das empresas listadas na Bovespa, com os valores expressos em bilhões de reais. O aumento do valor das empresas listadas na Bolsa coincide com o aumento de preços das commodities, sobretudo petróleo. Na crise teve um vale de queda e depois recuperou e agora volta a cair. Nesse caso, as empresas listadas na Bovespa sofrem muito também com as questões domésticas da economia nacional. Do pico do valor, em agosto de 2014, quando as empresas todas valiam R$ 2,7 trilhões até o momento, que fechou em R$ 1,8 tri em janeiro (e estava em R$ 1,7 tri em fevereiro – link dados), houve uma perda de mais de 30% no valor e voltamos para patamar inferior ao de 2008.

BOVESPA.png

E qual o exercício simples? Colocado esses dados, é possível haver um preço relativo estável entre Bovespa e Petróleo?  A relação entre o preço do petróleo, já convertida em reais, e o preço de mercado das empresas listadas na Bovespa é apresentada no gráfico abaixo. A média dessa relação é 80, o que quer dizer que o preço do barril de petróleo é 80 vezes o preço da Bovespa (em trilhões de reais). A relação seria dividida por mil caso fosse expressa em bilhões de reais, seria dividida por um milhão se fosse expressa em milhões de reais e por ai vai. Para conveniência, ficou essa relação, que não vai alterar a conclusão.

relacao petroleo bovespa.png

Assim sendo, a Bovespa estando em R$ 1,8 tri (ao final de janeiro) e a relação média em 80, para que o valor do barril do petróleo (hoje em cerca de USD 29), um exercício factível seria estimar o quanto deveria estar o dólar para que o preço dos ativos estivesse na relação histórica. Desenvolvendo esse argumento, para manter a relação média de 80 vezes o preço do Barril (em reais) para o preço das empresas listadas na Bovespa (em trilhões de reais), considerando os valores acima, o preço do Barril em reais deveria ser de R$ 145,50 ao invés dos atuais R$ 121. Isso implica em um câmbio de R$ 5,02 por USD. Se o Câmbio fosse esse os preços relativos entre esses ativos estaria na média histórica (iniciada em 2006). 

 Claro que essa estimativa considera apenas um ativo na economia e não o conjunto de ativos, mas o resultado aponta na direção de que devemos esperar ainda mais desvalorização cambial. O que corrobora essa estimativa é a perda de valor da economia brasileira, a falta de confiança na produção, nos investimentos e na dívida pública, o aumento do desemprego e da renda, a inflação em alta, etc.

Vale a aposta?

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